Podcast -Como ter informações de qualidade – Parte1 – Revistas Científicas

Depois de um longo e tenebroso inverno , estou de volta ao podcast!
E neste episódio vou responder aos colegas que me questionaram no Instagram sobre como me mantinha atualizada em artigos científicos. Pois é, eu fiz alguns vídeos por lá, mostrando a minha rotina, e muitos se interessaram pelos métodos que uso. Assim, resolvi fazer um episódio com algumas dicas para vocês.
Olha, eu não faço milagres! meu dia também tem 24 horas e divido meu tempo entre vida profissional, pessoal, social e dormir (eu preciso de 7 horas de sono gente). Quem acompanha minha rotina sabe que trabalho em 2 consultórios, um em Franca e outro em Ribeirão Preto, ministro aulas em Bauru, reviso artigos para revistas científicas, às vezes escrevo no blog e alguns outros artigos científicos viajo muito para pregar a palavra, ou melhor, para ministrar aulas sobre dor orofacial e bruxismo.
Ufa! E sobra tempo? Sempre sobra. Mas eu precisei buscar algumas ferramentas para me ajudar a ficar sempre atualizada e, principalmente, fazer meu cérebro funcionar para aprimorar o atendimento dos meus pacientes.
Mas antes de começar é preciso falar sobre algumas coisas. Eu acho que precisamos sempre trabalhar dentro da melhor evidência possível e fazer uma ponte entre o que o conhecimento científico revela e como aplicar isso no consultório. Adoro andar nesta ponte. Para isso é preciso entender como ler um artigo científico. É claro que o mestrado e depois o doutorado me ajudaram muito nisso. Entender um pouquinho de metodologia científica ajuda muito. Mas se você não teve esta possibilidade, não quer dizer que não possa ir atrás! Eu mesma comprei um livro tempos atrás para entender melhor. O nome do livro era inclusive: Como ler um artigo científico.
Aqui vai o link para versão: https://amzn.to/2MK8UCO ou na versão para Kindle: https://amzn.to/2MHH4qI
E por que precisamos disso gente? Olha, o papel aceita tudo. Já li muito artigos ruins publicados por ai… É preciso separar o joio do trigo. E o que faz com que muitas vezes eu critique o trabalho é seu delineamento, os métodos que muitas vezes estão ali cheios de vieses. Se o delineamento do estudo é inaceitável, o trabalho é inaceitável. Se o delineamento está correto, então você deve verificar se os dados foram coletados com metodologia adequada e se a análise está certa. Se isso acontecer, verifique se a interpretação dos dados e e a discussão fizeram jus ao trabalho. E só então se as conclusões são aceitáveis. Parece simples mas eu sei que não é. Mas depois de muito treino, você acaba pescando algumas coisas até no resumo.
Mas tudo bem, você não teve uma preparação sobre isso e nem quer correr atrás disso agora. Então, eu acho que um método interessante seria buscar ler trabalhos publicados em revistas com fator de impacto alto. Talvez até lendo revisões sobre determinado assunto.
E o que é Fator de Impacto?
É  um método bibliométrico que avalia a importância de periódicos científicos em suas respectivas áreas. E esta medida utilizada hoje pelas bases de dados é geralmente pelo número de citações que os artigos que foram publicados na revista tem. Por exemplo: eu publico um artigo numa revista X, depois vários pesquisadores em revistas e artigos diferentes usam o meu trabalho como referência, ou seja, meu trabalho teve um impacto no meio acadêmico. Este fator de impacto é calculado anualmente, e o mais famoso mundialmente é aquele das revistas indexadas ao “Instituto de Informação Científica” e, depois, publicado no “Relatório de Citações de Periódico” cuja sigla em inglês é JCR que é da empresa Thomson Reuters.
Revistas que cumprem estes requisitos são alvo dos pesquisadores: todo mundo que publicar seu trabalho lá e quem sabe ser notícia no Jornal Nacional, não é? Veja que William Bonner sempre ao citar algum trabalho que tem impacto na humanidade cita alguma destas revistas: Science, Nature, Lancet… Estas são as revistas com maior impacto! E dentre os assuntos na área da saúde cujo artigos apresentam mais impacto, está a oncologia. As revistas dedicadas ao câncer são as que apresentam o maior impacto.
No Brasil, a CAPES desenvolveu um critério próprio para classificar os periódicos, o QUALIS, que surgiu entre 1996 e 1997. Este oferece uma classificação das revistas que retratam o produto intelectual dos programas de pós graduação no Brasil. O método utilizado para a classificação do QUALIS não é o mesmo do fator de impacto, apesar que revistas de excelência são geralmente aquelas com mais alto fator de impacto. Mas às vezes, na ânsia de auxiliar uma revista brasileira, uma revista com fator de impacto baixo internacionalmente pode apresentar um Qualis alto porque está segmentado por área.
Eu particularmente prefiro procurar as novidades nas revistas que possuem bom fator de impacto internacional, mesmo sabendo que o método não é tão preciso assim para indicar qualidade, uma vez que nem sempre leva em conta fatores importantes como pontualidade, revisão por pares, etc. O que significa isso: não é só o número de citações deveria ser considerado para uma  revista ter impacto, mas ela deve ser pontual, deve ter rapidez ao analisar e revisar um trabalho e ainda, esta revisão deve ser realizada em pares ou até num número maior de revisores que buscam analisar o rigor científico de cada trabalho, ou seja, já fazem o trabalho por você.
Bem, e na Odontologia. A odontologia é uma área específica da saúde e assim, as revistas específicas a ela não apresentam fatores de impacto tão expressivos quanto às da saúde ou medicina de forma geral.
Por exemplo, a revista New England Journal of Medicine tem fator de impacto 70.670 e a Lancet, também bem conhecida, 59.102. Eu dei uma olhada nas revistas de Odontologia e é o Periodontology 2000 com o maior fator de impacto que é 7.861, depois Journal of Dental Research que aparece com  5,125. Dentre as top 5, duas de periodontia e 1 de implantodontia. A revista de prótese mais bem colocada é a JPD, Journal of Prosthestic Dentistry, em 13 lugar (onde eu publiquei meu artigo do doutorado por sinal) com 2.787.  Veja só, a minha queridinha, uma das que mais visito está 22 posição, a Journal of Oral Rehabilitation com 2,341. A diferença entre as revistas depois do 10 lugar é pequena. Para vocês terem uma ideia, a revista de ortodontia mais bem posicionada está em 32o. lugar, ou seja, talvez quanto mais específica a área, a tendência é reduzir o fator. Então não dá para comparar a Lancet com as de odontologia. e nem uma que publica somente sobre ortodontia com uma que publica pesquisa sobre toda a área de odontologia.
Todas as revistas com fator de impacto alto estão publicadas na lingua inglesa. Ou seja, se você não sabe ingles, a chance de ficar desatualizado ou de depender de outras pessoas para adquirir o conhecimento é alta.
Das brasileiras, entram no ranking a Brazilian Oral Research que é da SBPqO e está na 39 posição e tem fator de impacto 1,773 e a JAOS, Journal Applied of Oral Sciences na 50, aqui da Faculdade de Odontologia de Bauru-USP, que tem fator de impacto 1.506.
Muitas revistas não tem sequer fator de impacto internacional. Para ver então o impacto delas você pode verificar no QUALIS, elas estarão nas categorias B, C e D.
E então o que eu faço?
Eu entro nas revistas com maior impacto na minha área, de dor orofacial, e cadastro meu email na newsletter deles. Com isso, assim que os artigos que foram aceitos nestas revistas são publicados no site, eu recebo um email com o título deles, e abro aqueles que me interessam. Baixo aqueles em que no resumo achei algo que quero ler mais! Hoje mesmo pela manhã recebi um email do Journal of Oral Rehabilitation, que é uma revista importante, tanto para DTM quanto para bruxismo, com os artigos aceitos da semana e lá estava um do nosso grupo aqui, o Bauru Orofacial Pain Group. Inclusive é um artigo do mesmo tema que o professor Yuri Costa ganhou o prêmio no IADR este ano.
Isso me ajuda também a ter ideias de pesquisa, ler revisões sobre os mais variados assuntos, e sempre contar para vocês uma novidade!
Para quem está curioso em saber quais são as revistas com maior impacto na dor orofacial, ou seja, as que eu consulto, vou agora colocar aqui abaixo a minha listinha, mas você pode criar a sua, baseado no que está afim de estudar.
Segue a lista (organizada por fator de impacto e abrangendo dor orofacial, DTM, cefaleia, sono e bruxismo):
  1. Journal of Pain – https://www.jpain.org
  2. Journal of Dental Research – https://journals.sagepub.com/home/jdr
  3. Current Pain and Headache Reports: https://link.springer.com/journal/11916
  4. Journal of Oral Rehabilitation – https://onlinelibrary.wiley.com/journal/13652842
  5. Brazilian Oral Research – http://www.scielo.br/bor
  6. Oral Surgery Oral Medicine Oral Pathology Oral Radiology – https://www.oooojournal.net
Pessoal, fazendo a lista vi que deixei um monte de revistas que chegam no meu email de fora (especialmente as de odontologia em geral,  neurociências e sono), mas acho que a lista já está bem extensa.  E das revistas de maior impacto nem sempre tem artigos que me interessam, mas aí é só passar os olhos e deletar o email. O fato é que quando tiver (como o de neurofisiologia da migrânea publicado na Lancet Neurology), serão ótimos, com certeza.
Para assinar com seu email o boletim de notícias destas revistas tem que procurar no site delas. Vou fazer um vídeo pois algumas editoras deixam isso no site da editora mesmo (você marca numa caixa de seleção os que você quer). Procurem!
Abraços a todos.
Para ouvir o podcast você pode procurar no seu tocador preferido ou nos links abaixo:

Xerostomia e Sono

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Ontem dei uma olhada no pubmed (www.pubmed.com) e vi que saiu um artigo recente na revista Clinical Oral Investigation.

Sempre colocamos a questão “você apresenta boca seca pela manhã?” no nosso questionário sobre bruxismo. E por que? Sabemos que o bruxismo pode estar associado a resistência a passagem do ar, hipopneia e apneia do sono, sendo neste caso um fator protetor. Há algum tempo escrevi sobre isso no blog (veja mais sobre isso aqui no link: https://julianadentista.com/2015/04/05/teorias-sobre-bruxismo-secundario-a-problemas-respiratorios/ e sobre crianças: https://julianadentista.com/2017/02/14/bruxismo-infantil-e-o-problema-respiratorio/). A sensação de boca seca seria relacionada a respiração oral realizada nestes casos.

Bem, o trabalho que encontrei ontem foi realizado em militares jovens da Grécia (não é bem uma ótima população para fazermos inferências mas vamos lá…). Nesta população os pesquisadores avaliaram uma serie de questionários sobre o sono como índice de qualidade do sono de Pittsburg, Escala de Sonolência de Epworth, Questionário de Berlim, Questionário para Bruxismo do Sono e o Inventário de Xerostomia. Ainda, avaliaram de forma objetiva a quantidade de saliva pela manhã.

Objetivamente, quem apresentou hiposalivação, apresentou pobre qualidade do sono. Mas para mim o dado interessante, que respalda a pergunta de nosso questionário, é a associação entre auto-relato de bruxismo do sono, alto risco para apneia obstrutiva do sono e sonolência excessiva diurna, o que mostra que estamos no caminho certo.

Claro, este foi um primeiro estudo, mas espero que inspirem pessoas a completarem esta pesquisa, inclusive mostrando o quanto de acurácia tem esta pergunta para nosso diagnóstico.

Fonte: Apessos et al. Investigation of the relationship between sleep disorders and xerostomia. Clin Oral Investig. 2019 Aug 2. doi: 10.1007/s00784-019-03029-1. link: https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00784-019-03029-1

Falando nisso…

Já faz um tempo mas sempre bom recordar: há uma aula que montei sobre ardência bucal por xerostomia disponível no SlideShare e você pode ver clicando aqui.

Mais um vídeo bacana no youtube…

Já cansei de falar e escrever que adoro estudar neurofisiologia da dor por vídeos no YouTube. Eu acho que ter algo visual ajuda muito.

Vi esta semana no Pain Research Forum (site que adoro e acompanho sempre) a indicação de mais um TED-Ed sobre dor – A misterioso ciência da dor. O vídeo conta a história de um relato publicado na  British Medical Journal sobre um trabalhador que acidentalmente teve a bota perfurada por um prego. Ele estava agonizando de dor e qualquer movimento agravava o quadro, mas quando os médicos tiraram a sua bota perceberam que o prego nunca tinha perfurado seu pé. Como explicar? Veja no vídeo abaixo!

Ainda, a professora Liete Zwir assistiu a um vídeo que indiquei sobre homeopatia e recomendou a todos! Coloco logo abaixo para que vocês também possam assistir! Empatia e atenção fazem toda a diferença em nosso atendimento!

 

#ficaadica

Rapidinhas – Bruxismo em Vigília por Daniele Manfredini

Professor Daniele Manfredini, um dos autores do Consenso Internacional em Bruxismo, publicou há uns meses atrás um vídeo no Youtube em que esclarece os comportamentos em Bruxismo na Vigília.

Segue o vídeo abaixo:

Falando nisso…

Últimos dias para inscrição ao curso Dia do Bruxismo em São Paulo e Fortaleza!!

Confira nossa agenda:

05/07/2019 – São Paulo, SPClique aqui para fazer sua inscrição! 

02/08/2019 – Fortaleza, CE – Local: Seara Praia Hotel

Informações e inscrições: dbfortaleza2019@gmail.com Whatsapp: 85 985433910

01/11/2019 – Manaus, AM – Organização Odonto Starclass

07/12/2019 – Campinas, SPOrganização Imajon Cursos.

O IV Congresso Brasileiro de Dor Orofacial

E já se passou um mês do fim do IV Congresso Brasileiro de Dor Orofacial e ainda estou sob seu impacto! Que evento bacana!

Esta foi a quarta vez que ajudei na organização, desta vez sob a batuta da nossa coordenadora geral Profa Liete Zwir!

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Eu e a profa. Liete Zwir!

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A turma da organização: eu, Adriana Lira Ortega, Liete Zwir, Daniela Godoi Gonçalves e Rodrigo Estevão Teixeira

Agradeço a diretoria da SBDOF pela oportunidade!

Além de ajudar na organização, também fui palestrante. E aproveitei para gravar o conteúdo para o podcast! Quem também fez isso foi a Profa. Daniela Godoi Gonçalves. Resultado: dois programas para vocês ouvirem onde estiverem! Me marquem no instagram (@dtmdororofacial) quando ouvirem! Estou adorando ver as fotos! Tem gente lavando louça, dirigindo, na esteira… Esta é a beleza do podcast!! 🙂

Só lembrando, pois muitas pessoas me perguntam, você pode ouvir o podcast em vários aplicativos e sites diferentes. Eu sempre coloco o link do Spotify mas basta procurar nos seus aplicativos preferidos, até na Apple e Google podcasts.

Seguem as descrições e links dos  dois programas! Ah! E vejam as fotos do congresso da SBDOF aqui: http://bit.ly/2HnJN3A

DTM e Bruxismo: um novo olhar – link: https://open.spotify.com/episode/38O5GPvPhAsiYbXniWimuv?si=CkhRQs3mSku_ZbW3QbaMTw

Confesso que estava uma pilha de nervos porque não queria que desse errado, atrasasse ou ainda que não correspondesse às expectativas de todos. E ainda por cima, ministrei uma aula! Sobre Disfunção temporomandibular e Dor Orofacial.
E foi um dia antes que tive uma ideia: gravar o audio da minha aula! Assim, poderia compartilhar aqui no podcast com quem não estava lá e também com quem foi e quisesse relembrar.
e olha que bacana: pedi então a querida amiga, professora Daniela Godoi Gonçalves que também gravasse a sua. e não é que ela não só fez isso como já enviou o audio para mim?
Então, neste episodio vou colocar minha aula, e no próximo a dela!
Links:

 O papel da sensibilização central na DTM: o desafio para o clínico – link: https://open.spotify.com/episode/1S9VRlU9oDU7pMTIqtuVqn?si=9vrOSUcUQ5-21i3f9hcVag

Quem tem amigo tem tudo! Eu sou uma pessoa muito privilegiada. Além de trabalhar em uma área que amo, tenho colegas que ultrapassam o significado desta palavra e são na verdade verdadeiros amigos! Uma destas pessoas é a Profa. Dra. Daniela Godoi Gonçalves, professora da UNESP de Araraquara na área de DTM e Dor Orofacial e companheira de vinhos, estudos e amor aos podcasts! Ainda, ela coordena o GAPEDOC, projeto de extensão com o objetivo de ampliar o conhecimento em Dor Orofacial com discussões, casos clínicos, revisões, cursos e reuniões.
No último Congresso Brasileiro de Dor Orofacial, a Profa. Daniela abriu o evento com uma palestra brilhante sobre Sensibilização Central e DTM. Antes da aula dela, comentei com ela que se fosse possível gravasse também sua fala para o podcast! E não é que ela gravou e compartilhou comigo?!
Dani, obrigada, obrigada, obrigada!
Eu já ouvi, agora é a vez de vocês!
Dicas do programa
Primeiro conheçam o GAPEDOC, eles tem uma página de Facebook que deixarei aqui nos links.
Segundo, existe uma coisa em comum, do qual eu e a Profa. Daniela muito nos orgulhamos, tivemos o mesmo orientador no mestrado, Prof. Dr. José Geraldo Speciali, neurologista, hoje professor senior da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, na USP. Este mês, no dia 19/05, comemora-se o Dia Nacional de Combate às Cefaleias. A melhor arma para combate é a educação, o conhecimento! Prof. Speciali concedeu uma entrevista ao Jornal da USP no programa Saúde sem Complicações sobre o tema! Nos links deste programa, há um para você entrar e ouvir esta entrevista! #ficaadica
Links:
Fale comigo:
⁃Lista de transmissão no Whatsapp: http://bit.ly/julianadentista

Alinhadores ortodônticos e Bruxismo: o que falar sobre isso?

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Recentemente recebi algumas mensagens perguntando sobre o uso dos alinhadores ortodônticos e se eles aumentariam a frequência de bruxismo.

Observei que ainda na literatura não há estudos sobre estes dispositivos e bruxismo, seja do sono ou da vigília.

Mas pensando sobre isso e conhecendo sobre bruxismo podemos realizar algumas inferências. 

  1. Bruxismo é controlado pelo sistema nervoso central (SNC). Fato. Para o músculo contrair, é de centros superiores que parte o potencial de ação neuronal. No bruxismo do sono existem mecanismos deflagradores já identificados (vide despertares breves e sistema nervoso autonômico) em fases NREM, onde qualquer dispositivo tem um efeito a curto prazo ou aumentando, reduzindo ou mesmo não mudando o numero de eventos durante a noite. Pensando em alinhadores, o professor Daniele Manfredini e colaboradores realizaram uma pesquisa com mantenedores de espaço como placas de acetato e compararam duas noites de sono sem e duas com o mantenedor. Não houve diferença na atividade eletromiográfica em músculos analisados entre as noites. Podemos deduzir que talvez apresente bruxismo do sono quem já apresenta bruxismo do sono. Se o alinhador irá proteger os dentes nestes casos, aí é outro assunto.
  2. Bruxismo da vigília também é controlado pelo SNC. Nós sabemos que é associado a ansiedade e concentração. Mas seria a presença do alinhador algo para aumentar ou reduzir a frequência deste tipo de bruxismo? Explicar isso em poucas palavras é mais complicado, mas vou tentar. Primeiro porque existem vários tipos de movimentos considerados BV como encostar, encostar com movimentos leves, apertar ou ainda contrair os músculos mesmo sem toque dentário. Qual seria estimulado? Ainda, venho conversando com colegas bastante sobre o perfil do paciente. Parece que não é a mecânica ou o dispositivo e sim como é este paciente. Há algum tempo estamos estudando a vigilância ou melhor, a hipervigilância e como este perfil de comportamento tem relação com o aumento da contração muscular e consequemente bruxismo. (ver postagem realizada aqui no blog!) A presença do alinhador seria um gatilho ao aumento ou mesmo desencadear bruxismo por mecanismos relacionados a vigilância? E se o comando fosse o contrário? Se durante a avaliação isso fosse detectado e trabalhado para o paciente não encostar os dentes ou manter uma melhor postura mandibular (repouso muscular) utilizando o alinhador como “lembrete”? Seria possível? Apenas divagando… É preciso pesquisar mais sobre isso e qual seria o impacto da educação nestes casos. Devemos nos lembrar sempre que o comportamento é algo individual. 
  3. E por fim, a professora Ambra Michelotti chama a nossa atenção a um aspecto pouco explorado, neuroplasticidade relacionada ao estímulo do ligamento periodontal, como no recente trabalho publicado pelo grupo dela. Neste trabalho ficou demostrado que possivelmente indivíduos com hábitos parafuncionais na vigília como o bruxismo, apresentam sensibilidade oclusal maior e eles atribuíram isso a atividade dos mecanorreceptores mais estimulados nestas pessoas com maior atividade parafuncional prévia.

Por fim, creio que é preciso aprimorar o diagnóstico de bruxismo do sono e sobretudo bruxismo na vigília em pacientes que se submeterão a terapias na odontologia. Artigos recentes apontam que cerca de 30% dos jovens apresentem bruxismo na vigília e é exatamente a população alvo do uso de alinhadores.

Para mim cada vez mais fica claro que a falha em identificar não só hábitos mas o perfil do paciente é que faz com que alguns apresentem aumento de frequência de bruxismo, dor na face e até não tolerem o uso dos dispositivos.

Será que educar o paciente antes de iniciar o tratamento, promover controle de parafunções (não só bruxismo) não traria um benefício maior?

Pensando…

Mas, vamos aguardar as pesquisas que sairão do forno em breve  para que possamos embasar melhor nossas ideias!

Fontes:

Self-reported awake bruxism and chronotype profile: a multicenter study on Brazilian, Portuguese and Italian dental students.

Serra-Negra JM, Dias RB, Rodrigues MJ, Aguiar SO, Auad SM, Pordeus IA, Lombardo L, Manfredini D.

Cranio. 2019 Mar 25:1-6. doi: 10.1080/08869634.2019.1587854.

Ecological Momentary Assessment and Intervention Principles for the Study of Awake Bruxism Behaviors, Part 1: General Principles and Preliminary Data on Healthy Young Italian Adults.

Zani A, Lobbezoo F, Bracci A, Ahlberg J, Manfredini D.

Front Neurol. 2019 Mar 1;10:169. doi: 10.3389/fneur.2019.00169. eCollection 2019.

Effects of invisible orthodontic retainers on masticatory muscles activity during sleep: a controlled trial.

Manfredini D, Lombardo L, Vigiani L, Arreghini A, Siciliani G.

Prog Orthod. 2018 Jul 23;19(1):24. doi: 10.1186/s40510-018-0228-y.

Jaw muscle activity patterns in women with chronic TMD myalgia during standardized clenching and chewing tasks.

Valentino R, Cioffi I, Vollaro S, Cimino R, Baiano R, Michelotti A.

Cranio. 2019 Mar 21:1-7. doi: 10.1080/08869634.2019.1589703.

An interview with Ambrosina Michelotti.

Michelotti A.

Dental Press J Orthod. 2018 Mar-Apr;23(2):22-29. doi: 10.1590/2177-6709.23.2.022-029.int.

Frequency of daytime tooth clenching episodes in individuals affected by masticatory muscle pain and pain-free controls during standardized ability tasks.

Cioffi I, Landino D, Donnarumma V, Castroflorio T, Lobbezoo F, Michelotti A.

Clin Oral Investig. 2017 May;21(4):1139-1148. doi: 10.1007/s00784-016-1870-8.

Effects of experimental occlusal interferences in individuals reporting different levels of wake-time parafunctions.

Michelotti A, Cioffi I, Landino D, Galeone C, Farella M.

J Orofac Pain. 2012 Summer;26(3):168-75.

Occlusal sensitivity in individuals with different frequencies of oral parafunction.

Bucci R, Koutris M, Lobbezoo F, Michelotti A.

J Prosthet Dent. 2019 Mar 15. pii: S0022-3913(18)31001-1. doi: 10.1016/j.prosdent.2018.10.006.

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Falando nisso….

Quer conhecer mais sobre Bruxismo? Venha participar do Dia do Bruxismo!! 🙂

Um dia inteiro com palestras curtas sobre Bruxismo com o objetivo de capacitar o profissional para a identificação e diagnóstico do bruxismo, além de indicar estratégias atuais no controle da condição em adultos e crianças.

Próximas datas e locais:

03/05/2019 -São José dos Campos, SP – CONFIRMADO

Organização Instituto Prof. MSc. Silvio Watanabe. Local: Helbor Office Jardim das Colinas – Av São João, 2375 Jd Aquarius

Mais informações e inscrições: (12) 3922 1536 e (12) 98110 5606

31/05/2019 – Vila Velha, ES – CONFIRMADO!

Para mais detalhes, clique AQUI. Organização Essence Cursos. Whatsapp: 27 99619 2396

05/07/2019 – São Paulo, SP – AGUARDEM MAIS INFORMAÇÕES

02/08/2019 – Fortaleza, CE – Local: Seara Praia Hotel

Informações e inscrições: dbfortaleza2019@gmail.com Whatsapp: 85 985433910

06/12/2019 – Campinas, SPOrganização Imajon Cursos. 

Rapidinhas – novas diretrizes sobre Neuralgia do Trigêmeo

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No dia 12 de março foi publicado no European Journal of Neurology as novas diretrizes para Neuralgia do Trigêmeo, visando atualizar os profissionais em diagnóstico e tratamento.

Destaco que 2 itens:

  • Sobre o diagnóstico, as classificações das organizações IASP (International Association of Study of Pain) e IHS (International Headache Society) estão se aproximando e com isso há destaque para os fenótipos de Neuralgia do Trigêmeo – clássica, idiopática e secundária e ainda, episódica ou com dolorimento entre as crises
  • Sobre medicação pouca coisa mudou. A recomendação é que a neuralgia do trigêmeo não responde a opióides na fase aguda e ainda a carbamazepina é considerada o padrão ouro para tratamento a longo prazo mas novas terapias foram colocadas ali.

Sugiro a leitura!

O artigo está aberto e pode ser consultado no link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/ene.13950

#ficaadica

Falando nisso…

Nós especialistas temos obrigação de entender bem sobre dor neuropática orofacial. Este é um tema que abordo no curso de Especialização em DTM e Dor Orofacial no IEO-Bauru. Para mais informações, ligue 14 32341919 ou mande WhatsApp para 14 99654 4386

#ficaadica2 🙂

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Dia Internacional das Mulheres

Hoje é dia 08 de março de 2019.
Como é Dia da Mulher, a newsletter de jornalismo que assino gratuitamente, canal Meio News, enviou logo cedo alguns dados. Em 2018, foram registrados 4.254 homicídios dolosos de mulheres. O número representa uma queda ligeira de 6,7% em relação ao ano anterior. Mas, destes, 1.135 foram considerados feminicídios — crimes nos quais a vítima morre por ódio motivado pelo gênero. É um aumento relativo aos 1.047 de 2017.
Dados ainda ruins, não.
Na América Latina pelo menos há o que se comemorar um pouco, parece que foi a região que mais avançou em termos de igualdade de gênero no mundo. Mas esta melhora não foi, infelizmente, puxada pelo Brasil. Mesmo assim, a igualdade só seria alcançada na região em 74 anos, mantendo este ritmo de avanços. E dentro de muitos países, a diferença entre os sexos diminui a passos muito lentos. Segundo o site da BBC, na América do Sul, BolíviaArgentina e Colômbia são os mais bem colocados. O Brasil aparece entre os quatro últimos países da região (e em 95º lugar no mundo), acima de Paraguai, Guatemala e Belize. Uma vergonha.
E além da violência, dos abusos morais e sexuais, os problemas são   igualdade de salários, a participação política e econômica das mulheres.
E por falar sobre educação/ciência/universidade que é uma área em que vivi durante os últimos anos, houve um avanço em 10 anos, com maior número de mulheres matriculadas no ensino superior, mas… igualdade não é medida apenas em números. Dados da UNESCO indicam que ainda mulheres chegam menos ao topo da carreira!
Vejam só, para vocês terem uma ideia, dados no CNPQ mostram que nas bolsas com maior financiamento, há apenas 24,6% de mulheres.
A reportagem da BBC aponta mais dados sobre o assunto: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47490977
Pensando na minha especialidade, lembrei que mês passado a Prof. Karina Helga Turcio apresentou seu TCC no curso de Especialização em DTM e Dor Orofacial lá no Bauru Orofacial Pain Group exatamente sobre gênero e dor. Foi uma apresentação brilhante em que ela abordou diferentes aspectos sobre o porquê da dor por DTM e outras condições ser mais prevalente em mulheres, abordando desde aspectos genéticos, hormonais até a respeito de percepção de dor pelo sistema nervoso central. Em breve vou colocar aqui o texto do TCC.
Mas quero destacar um aspecto que falamos pouco, o estresse pós traumático e a relação com DTM. Outro TCC, este já publicado, da turma anterior (da Camila Vaz e publicado pela Profa. Dyna Mara Ferreira e nós como co autores) traz uma revisão importante sobre este assunto e mostrou a complexidade do assunto (para ler a versão em português, segue o link http://www.scielo.br/pdf/brjp/v1n1/pt_1806-0013-brjp-01-01-0055.pdf) mas ainda a maioria dos estudos não trazia informações sobre violência sofrida por mulheres.
Neste mês de março de 2019 foi publicado um artigo que começa a estudar algo que observo na rotina clínica. A maioria dos meus pacientes com dor musculoesquelética, especialmente os casos crônicos de DTM muscular, é mulher. E não é comum o relato de assédio (relacionamentos abusivos, assédio moral no trabalho – inclusive por outras mulheres – violência doméstica, assédio sexual), tristeza por desigualdade, ansiedade por falta de oportunidades. O artigo que li, publicado no Journal of Dentistry por Chandan et al.,  trouxe um pequeno insight sobre o assunto, ainda não se tratando de mercado de trabalho/estudo mas sobre violência doméstica: Intimate partner violence and temporomandibular joint disorder”. 
Este tipo de violência inclui abusos emocionais, físicos e/ou sexuais e negligências e globalmente parece afetar 1 em cada 3 mulheres, o que é uma prevalência muito alta. Assim, os pesquisadores na Grã Bretanha procuraram estudar a relação entre estes abusos e a DTM. O estudo foi simples, com limitações, retrospectivo mas foi o primeiro a indicar que uma associação significativa entre a incidência de DTM e violência contra mulher. O triste é que a principal limitação do trabalho relatada é exatamente a acurácia dos registros de violência, já que em todo mundo parece que relatar ainda é um tabu a ser vencido pelas mulheres. É preciso que o especialista em Dor Orofacial esteja atento a estes fatores mas também é preciso que procuremos por treinamento adequado para abordar estes assuntos, ainda mais no país em que moramos. O link para o artigo está aqui: https://doi.org/10.1016/j.jdent.2019.01.008
Reflita, como podemos mudar toda esta estatística para números ainda mais positivos? Vamos fazer pelo menos a nossa parte, dentro da nossa comunidade!
Devemos encarar o 8 de março como momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais que ainda em 2019 são sofridas pelas mulheres. Devemos impedir que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países.
“Você precisa fazer aquilo que pensa que não é capaz de fazer.” – Eleanor Rooselvelt
E para inspirar a todos, que tal contar às suas crianças (meninos e meninas) histórias de verdadeiras heroínas? Eu adorei o livro Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes que o pessoal do B9 conseguiu transformar em podcasts estes contos de fada de mulheres extraordinárias! Vale muito a pena ler ou ouvir! 
Você pode ouvir em qualquer aplicativo/site para podcast e no link há vários.
Ou clique abaixo para ter acesso via Spotify:
E vamos lá! Há muito trabalho pela frente!
#8M #mulheres #dororofacial #disfuncaotemporomandibular #diadasmulheres

Este blog fez 9 anos!

Foi na quinta feira passada mas só consegui postar agora! 9 anos!! Puxa vida!

Eu comecei o blog em 28/02/2010 por uma necessidade de colocar para fora tudo o que estava aprendendo (e aprendo até hoje) com meus estudos em dor orofacial. O blog é dedicado a todos os profissionais que estudam a área! Eu só tenho a agradecer: ao blog pelas oportunidades que me abriu, aos leitores, muitos deles fiéis, que acompanham o que escrevo mesmo em tempos que a audiência desta mídia vem caindo e a todos que me inspiraram e me inspiram a fazer o melhor pela especialidade!

Para comemorar, gravei um podcast com a participação luxuosa do professor Paulo Conti, titular da Faculdade de Odontologia de Bauru-USP e coordenador do Bauru Orofacial Pain Group (devidamente convidado para um programa mais longo no futuro!).

Selecionei e comentei uma história que contei em 2010 para falar sobre diagnóstico em dor orofacial!
Faz o seguinte: conte para mim qual o texto que você mais gostou! Vá ali na busca, dê uma olhada no histórico, navegue…
Escute também o podcast! 🙂
Dica do programa: se é para comemorar, nada melhor do que indicar meu podcast favorito do momento: Boa Noite Internet, capitaneado pelo Cris Dias. Entrem no site www.boanoiteinternet.com.br ou procure no agregador de podcasts mais próximo de você! 🙂 Você não vai se arrepender! É sensacional!!
Falando nisso….
 As inscrições para o curso de especialização em DTM e Dor Orofacial coordenado pelo Prof. Paulo Conti já estão abertas! Começa em Abril!
Serão 24 módulos de muitoooo conteúdo tanto teórico como clínico! Para mais informações: 14 99654-4386 ou http://www.ieobauru.com.br

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Toxina botulínica e bruxismo

A Professora Adriana Lira Ortega do blog Odontopediatria em Evidência fez uma lúcida postagem no Instagram esta semana.

Em tempos de falta de diagnóstico e logo uma terapia, acho que este texto cai bem.

Bruxismo não é DTM. Bruxismo apresenta manifestações diferentes, em momentos diferentes e pode até ser um sinal de outra condição mais deletéria e importante. Você só irá saber se estudar e realizar diagnóstico diferencial.

Segue a postagem!

 

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Já recebi no meu consultório casos de bruxismo, até em crianças (😱), cujo “tratamento" proposto havia sido aplicação de toxina botulínica. Sempre surto mais qdo é com criança…😤 Vamos refletir sobre o assunto?🤔 ✔1. Será que o profissional que propôs a conduta, pensou nos efeitos da toxina nos músculos em desenvolvimento? ✔2. Mesmo com aplicação da toxina, o paciente precisa continuar usando a placa. Senão vai continuar desgastar os dentes. Assim, vamos ponderar… Pra que mesmo a toxina? ✔3. Bruxismo é de origem central. Toxina botulínica tem ação periférica: então não trata. ✔4. Não conseguimos dar prognóstico para bruxismo e ele pode permanecer por muito muito tempo… E aí? O paciente vai ficar recebendo toxina indefinidamente? ✔5. Toxina causa atrofia muscular e osteopenia. A relevância clínica disso deve ser considerada. Vou deixar uma referência aqui sobre isso p vcs lerem… Para terminar o post… ⚠️#mantra1 – BRUXISMO NÃO É DTM! Então, "dor e desconforto" não foram abordados aqui. Os assuntos são diferentes. —— 📚Vou deixar aqui duas referências para quem quiser ler mais um pouco sobre o assunto… ✏Balanta-Melo J, Toro-Ibacache V, Kupczik K, Buvinic S. Mandibular Bone Loss after Masticatory Muscles Intervention with Botulinum Toxin: An Approach from Basic Research to Clinical Findings. Toxins (Basel). 2019 Feb 1;11(2). ✏Shim YJ, Lee MK, Kato T, Park HU, Heo K, Kim ST. Effects of botulinum toxin on jaw motor events during sleep in sleep bruxism patients: a polysomnographic evaluation. J Clin Sleep Med. 2014 Mar 15;10(3):291-8. ——- #bruxismonaoedtm #bruxismo #trabalhodeformiguinha #odontologiabaseadaemevidencias #odonto #odontologia #bruxismoinfantil #odontopediatria #odontopediatriaemevidencia

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