Utilizar ou não a Internet e as Redes sociais, para preencher as lacunas de informação?

Eu sempre acreditei na comunicação via redes sociais, mas, acreditem, ainda há aqueles que são resistentes a utilizarem esta ferramenta.

Pedi para a querida Bruna Motta Minusculi, cirurgiã-dentista, aluna do curso de Especialização em DTM e Dor Orofacial do Bauru Orofacial Pain Group/ IEO-Bauru, que escrevesse um texto sobre este assunto e compartilho com vocês! 🙂

 

Nos últimos dias tenho pensado e me questionado muito sobre como a Internet e as redes sociais influenciam as pessoas no dia-a-dia. Resolvi pesquisar mais sobre o assunto. Vamos lá…

Hoje vivemos em um mundo em que as pessoas estão o tempo todo conectadas, certo? Seja em seus computadores, seja em seus smartphones e tablets. Segundo dados de 2017 publicados pela We are Social, os brasileiros são a segunda nação a gastar mais tempo nas redes sociais, perdendo apenas para as Filipinas, permanecendo em média 3 horas e 43 minutos conectados por dia.

A rede social Facebook, englobando as outras plataformas da empresa, como Instagram, Messenger e Whattsapp, hoje contam com 4.37 bilhões de usuários, claro que nessa conta temos usuários duplicados, mas os números são impressionantes. Só no Brasil, o Facebook possui 120 milhões de contas ativas, isso significa que mais da metade da população brasileira está nessa mídia.  Já, segundo outro levantamento realizado pela Pew Research Center, oito em cada dez usuários da internet procuram informações sobre saúde na rede.

E qual a qualidade da informação que encontramos na internet hoje? Será que são informações baseadas em evidências científicas ou baseadas na opinião do dono da página/canal?

– Para os pacientes: Você tem o hábito de verificar as informações que recebe ou que busca na Internet? Ou aceita ela como verdadeira logo de cara?

– Para os profissionais de saúde: Você orienta seus pacientes sobre os cuidados nessas mídias? Publica informações nas redes, buscando levar informações atualizadas e com embasamento científico à população?

Keller et al. (2014) realizou uma pesquisa para verificar o engajamento dos profissionais da saúde com as tecnologias, segundo ele a maioria dos pesquisadores e professores da Johns Hopkins School of Public Health não tem interesse ou é contrário a utilização das redes sociais para o engajamento profissional.

No trabalho de Butler et al (2012) ele avaliou a qualidade das informações nos vídeos do YouTube em relação aos primeiros cuidados de queimaduras, e concluiu que a qualidade das informações foram insatisfatórias.

Outra pesquisa realizada por Merolli et al. (2015) que analisou o uso das redes sociais em pacientes com dor crônica, obteve um resultado (me impressionou) quanto a frequência do uso das redes sociais para a autogestão da dor crônica 35,5% dos entrevistados acessam diariamente e 41,4% pelo menos uma vez na semana. Também 35,1% dos pacientes valorizam as redes sociais para a autogestão da dor crônica.

Não podemos esquecer que esse ano a IASP, declarou o tema da campanha mundial de 2018: Excelência da Educação em Dor. Que como já publicado tudo sobre isso em outro post. Devemos fazer com que conceitos corretos sobre dor cheguem aos pacientes e a Internet é uma ótima forma de realizar isso.

Com isso, não temos como fugir dos avanços tecnológicos, nossos pacientes acessam com frequência, a informação está disponível e na maioria das vezes possui qualidade questionável.

Mas hoje, como profissionais da saúde possuímos o dever de orientar a população leiga, pois, para eles é muito mais difícil distinguira ciência da opinião. Assim para a promoção de saúde devemos buscar bases científicas atualizadas e sim, divulgarmos nas redes sociais! Faça a divulgação da informações de qualidade chegar a mais pessoas e como você achar melhor, através de posts, vídeos, mídias. Enfim a rede está disponível, basta usá-la!

E pra finalizar, a conclusão enfática de Thompson et al. (2012), para a área médica em geral “nossos pacientes estão fazendo isso, então é aí que precisamos estar.”

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Bruna Motta Minusculi

Referências:

 

A decisão clínica baseada em evidências

Há algumas semanas atrás o colega cirurgião-dentista Ricardo Aranha me enviou um texto de sua autoria sobre o tema saúde baseada em evidências. Achei bem interessante e compartilho aqui com vocês!

Boa leitura!!

O método científico tem como uma de suas bases o livro “Discurso do Método” de René Descartes, do séc. XVII. A noção da confirmação do que era até então reconhecido pelos 5 sentidos através de testes, refutação, repetições sistematizadas e confrontação de ideias teve por lá seu berço e vem evoluindo à revelia do senso comum. A ciência nasce como uma conquista humanitária, contrapondo-se a crenças, preconceitos de todo tipo e autoritarismo dogmático formal ou informal ao longo da história. Infelizmente enfrentou e enfrenta imenso desconhecimento ou mesmo simples desconsideração de suas bases teóricas, mesmo com toda parafernália tecnológica atual à disposição e todo acesso à informação (um luxo, até certo tempo atrás). Como nasceu de constructos humanos, não poderia ser perfeita. Muitas vezes é distorcida, falseada e mal utilizada, mas nada disso tira sua grandeza e sua utilidade prática inestimável. Nem mesmo a força de discursos obscuros em redes sociais da internet ressaltando “tradição, moralidade, histórias pontuais, mitos, etc.”

De um tempo para cá muito se fala em evidências científicas e suas aplicações no mundo real. No caso da área de saúde, surgiu a “Medicina Baseada em Evidências” (MBE) – que apesar de propiciar críticas e debates produtivos, é também inevitavelmente alvo de incompreensão generalizada e de ataques infundados. A MBE, com origem filosófica que remonta ao século XIX ou ainda antes, é definida como “uso consciencioso, explícito e criterioso da melhor evidência atual na tomada de decisões sobre o tratamento do indivíduo, o que significa integrar a experiência clínica individual com a melhor evidência clínica externa disponível proveniente da busca sistemática de informações.” (Sackett D, 1996). O termo mais amplo “Prática Baseada em Evidências” (PBE), cunhado por Gordon Guyatt em 1992 e que utiliza os mesmos princípios, integra outras áreas de saúde para além da medicina no mesmo escopo. Seu método de busca por respostas à questões clínicas parte do princípio da hierarquia construída a partir de trabalhos de atestada qualidade (pirâmide de evidências), a identificação e busca por estes mesmos trabalhos e ao final sua leitura crítica. Daí então o processo expande-se para além da nua e crua leitura de resultados acadêmicos, formando um  “tripé mental” construído por: realidade e experiência do profissional, vontades e valores do paciente e a melhor evidência científica disponível no momento.

Reformulando e complementando, é preciso também acrescentar que, tal como indica a nomenclatura de origem “medicina baseada em evidências”, sua base é sempre constituída de (boas) evidências e daí a decisão clínica deve sempre partir. Só então, como camadas que são acrescentadas sucessivamente, considera-se a informação do contexto do paciente, sua realidade e as vivências e habilidades do clínico (e até mesmo, porque não: um pouco de criatividade). Mas é importante salientar que esta ordem NUNCA deve ser invertida. Os maiores problemas aparecem quando a evidência científica vem como um “anexo” a posteriori, ou ainda pior, nunca vem…

Assim, um médico que se permita substituir a correta e necessária vacinação contra a febre amarela, por exemplo, por procedimentos ditos “alternativos” está desconsiderando a base de evidências e superestimando o contexto social, hábitos e tradições (muitas das quais inadequadas). Está inadvertidamente deformando por deslocamento sua base de decisão – e este não é o processo mais virtuoso: a  partir daí nada pode ser considerado seguro e prevalecem os hábitos, crenças e vícios mentais obscuros; as consequências podem ser graves, algumas vezes até mesmo fatais.

Um outro exemplo clássico, mas na direção oposta, seria o do medicamento Canabidiol, oriundo da folha da maconha e que é utilizado em casos graves de epilepsia. À época seu uso foi devidamente legalizado no Brasil, mesmo na ausência da melhor evidência e considerando apenas relatos de casos e estudos de menor peso científico, também sua segurança clínica e o fato de não existirem definitivamente outras opções com a mesma performance terapêutica para aquela patologia específica. Considerou-se, neste caso, a melhor evidência disponível, a gravidade e sofrimento causado pela doença (realidade do paciente) e a viabilidade clínica do tratamento. Pode-se considerar que foram satisfeitos os princípios da PBE.

A evidência científica não deve ser encarada como uma prisão mental ou um dogma. Ciência não poderia mesmo ser assim. A própria orientação da PBE sinaliza, em seu “tripé decisório,” a importância de informações sobre contexto humano e social do paciente e sobre a realidade e expertise do clínico. Não há exclusão, nunca houve. Há sim, com certeza, e ainda haverá, muita desinformação.

 

“ De modo que o maior proveito que eu retirava era aprender, vendo várias coisas que, embora nos pareçam extravagantes e ridículas, não deixam de ser comumente aceitas e aprovadas por outros grandes povos, a não crer muito firmemente naquilo que me fora persuadido apenas pelo exemplo e o costume, e assim a livrar-me aos poucos de muitos erros que podem ofuscar nossa luz natural e nos tornar menos capazes de ouvir a razão.”

 

Descartes, séc XVII

 

 

REFERÊNCIAS

 

Descartes, René. Discurso do método. Tradução, prefácio e notas de João Cruz Costa. São Paulo: Ed de Ouro, 1970. Disponível para download em: Domínio Público; http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp

 

Sackett David L, Rosenberg William M C, Gray J A Muir, Haynes R Brian, Richardson W Scott. Evidence based medicine: what it is and what it isn’t BMJ 1996; 312 :71

 

Guyatt, G.H., Haynes, R.B., Jaeschke, R.Z., & Cook, D.J. (2000). Users’ guides to the medical literature: XXV. evidence-based medicine: principles for applying the users’ guides to patient care. JAMA 2000; 284: 1290-1296. doi: http://dx.doi.org/10.1001/jama.284.10.1290

 

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Aprova o uso compassivo do canabidiol para o tratamento de epilepsias da criança e do adolescente refratárias aos tratamentos convencionais. Resolução n. 2.113, de 16 de dezembro de 2014.

 

Galvão MA, Santos MAC. Medicina baseada em evidências: o conhecimento sempre em construção. Resid Pediatr. 2015;5(1):5 DOI: https://doi.org/10.25060/residpediatr-2015.v5n1-01

Dr Ricardo Aranha

Ricardo Luiz de Barreto Aranha Possui graduação em Odontologia pela Universidade Federal de Minas Gerais(1996), especialização em Ortodontia pela Faculdade Ingá(2014) e especialização em Morfologia – Desordens da ATM e Músculos da Mastigação pela Universidade Federal de São Paulo(2002). Atualmente é Cirurgião dentista especialista dor e DTM da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e Dentista especialista em DTM dor orofacial da Prefeitura Municipal de Betim. Tem experiência na área de Odontologia, com ênfase em Dor orofacial / DTM.

Dia do Dentista! :)

Hoje é Dia do Dentista 😷!

A todos os profissionais que dedicam tempo e conhecimento para promover o bem estar de tantas pessoas, parabéns!!!

Em especial, parabéns aos colegas que confiam em meu trabalho ao encaminhar seus pacientes, ao assistirem minhas aulas, ao lerem o meu blog e ao estarem por perto como alunos e também como meus professores. Vocês tornam a minha vida dentro da Odontologia sempre melhor e são estímulo para que eu busque a excelência todos os dias!
Obrigada pela confiança em meu trabalho! 😊

www.julianadentista.com
Atendimento em Franca: 16 3720-2090
Whatsapp: 16 98197 5170
Atendimento em Ribeirão Preto: 16 3303 4777
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Entrevista sobre bruxismo

Há cerca de um mês atrás fui entrevistada pela Carina Dragone do Programa Adapt TV da TV local aqui de Franca sobre bruxismo.

Agradeço a Carina e sua equipe pela possibilidade de divulgar meu trabalho!

Segue o vídeo no Youtube! Nele mostro também um pouquinho do Neuroup (dispositivo que estou testando também para bruxismo na vigília) e sua aplicação na clínica.

O que vc achou? 🙂

Falando nisso…

Atenção!! Garanta sua vaga para o Dia do Bruxismo em Belo Horizonte (07/10) e Florianópolis (11/11). Vamos falar sobre as novidades na área!

Acessem www.diadobruxismo.com para todas as informações!

Siga-me no Instagram (veja os stories!): @dtmdororofacial

Também tenho canal no Youtube! 😉

 

Rapidinhas: de volta!

Nossa, o Congresso Brasileiro de Dor Orofacial á terminou h10 dias mas ainda não consegui colocar todas as tarefas em dia!

Assim, vou voltar aos poucos por aqui! Peço a paciência de todos (não deixem de ler o blog!).

Também estou voltando aos estudos aos poucos. Quantos artigos super bacanas para ler! O dia precisava ter 36 horas.

Na semana passada vi que a revista Cephalalgia lançou uma edição especial somente sobre dor orofacial. Vale a pena dar uma conferida! Infelizmente nem todo conteúdo está aberto, mas dois artigos estão! Confira abaixo:

One nerve, three divisions, two professions and nearly no crosstalk? – Editorial de Arne May (médico neurologista que ministrou aula sensacional no congresso da IASP)  e Peter Svensson (dispensa apresentações, né?).

History of facial pain diagnosis – Joanna M Zakrzewska (sou fã número 1) e Troels S Jensen. – este artigo mostra que a Neuralgia do Trigêmeo é reconhecida há tempos… e como ainda há profissionais que não a consideram no diagnóstico (ou fazem um diagnóstico errôneo).

Mas se você está triste pois não conseguiu abrir todo o conteúdo, saiba que há uma revista de impacto bom que é totalmente aberta na área: Journal Headache and Pain.

Dentro da revista há vários artigos interessantes, mas se você não sabe por onde começar, faça uma busca dentro do site ou verifique a lista de artigos mais citados na literatura ou nas redes sociais. Clique aqui e tenha acesso.

Falando nisso…

E por falar em redes sociais, vira e mexe eu apareço com alguma dica, novidade ou até mesmo desabafos no Instagram Stories. Siga por lá! www.instagram.com/dtmdororofacial

e continuamos…

Facebook: www.facebook.com/dororofacial

Canal Youtube: Por Dentro da Dor Orofacial

Você já viu o vídeo sobre DTM?

 

 

 

 

 

Canal do blog no YouTube

Olá!

Estou bem sumida estes dias mas por um motivo especial! Estamos nos preparativos finais para o III Congresso Brasileiro de Dor Orofacial! Já são mais de 600 inscritos e restam poucas vagas, então, se você deseja participar corra e faça sua inscrição pelo site http://bit.ly/sbdof2017

Mas a novidade é que fiz um canal no YouTube para o blog! A intenção inicial, neste momento sem tempo, não é fazer vídeos meus mas achei que seria prático deixar as playlists de vídeos que gosto lá para quem quiser assistir!

Postei dois vídeos.

O primeiro abaixo é da programação do Congresso (sim, ando sem outro assunto…)!

O segundo foi uma aula que gravei para a turma de graduação coordenada pelo Prof. Roberto Pedras lá em Belo Horizonte. O assunto foi DTM e me perdoem pois está bem amador! 🙂

Por fim, fiz a primeira playlist com 5 vídeos bacanas sobre Mecanismos de Dor Orofacial!

Se você quer acompanhar todos as playlists e vídeos vindouros, basta assinar o canal (o ápice de ser blogueira é ter um canal do YouTube não é, então plagiando toda a nação de digital influencers do mundo, curta, compartilhe, comente e assine o canal!)

🙂

Volto assim que der!

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Trismo: um sinal, vários motivos

Eu sempre faço alguns prints de coisas que quero usar em aula, que são interessantes e coloco em uma pasta (é a versão digital do recorte de jornal, rs…).
Hoje abri a pasta e me deparei com uma tabela denominada “Causas de Trismo”.
Acho super importante listar os motivos pelo qual o paciente não consegue abrir a boca. Quando começarmos a estudar um assunto pensamos que o sinal sempre é em decorrência de um diagnóstico mais comum.
Trismo por exemplo, em quem começa na área de DTM, imediatamente tem como primeiro pensamento: deslocamento de disco sem redução da ATM. Apesar de ser um dos problemas mais comuns, devemos ficar atentos e realizar diagnóstico de todos os possíveis motivos pelo qual a boca não abre quando não se consegue atribuir à causa mais típica. A ideia é partir do mais comum aos diagnósticos menos comuns e para isso recomendo que vocês estudem os sinais e sintomas de cada uma das patologias listadas abaixo.
Vamos a lista?
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Segue abaixo:
Infecção
Os trismo pode ter como fator causal processos infecciosos que podem ser odontogênicos (mais comuns) ou não. Entre os odontogênicos as principais causas são: pulpar, periodontal e pericoronal. Os três casos podem envolver, por exemplo, abcessos.
Entre as causas não odontogênicas estão: abcesso ao redor das tonsilas (conto sempre em aula do caso que atendi que era abcesso retrofaringeo), em parótida, submassetérico, infratemporal e outros processos como meningite,  encefalite e até tétano.
Trauma
Devemos sempre questionar históricos de trauma. Se o paciente relata  trauma, as principais causas de trismo são fratura de mandíbula, de arco zigomático, de base de crânio, e presença de corpo estranho. Histórico de trauma pode levar a miosite ossificante (tipo de DTM muscular bem rara, aguarde post sobre ela em breve) ou fibrose muscular pós trauma, queimadura ou cirurgia.
Relacionada a tratamento odontológico
Inflamação dos tecidos ou músculos pós exodontia de terceiros molares (dentes do ciso) é a causa mais comum desta categoria. Atém disso, trauma pela agulha (ou até infecção) em bloqueios anestésico do nervo alveolar inferior (mandibular) também ocorre com certa frequência. São citadas nesta categoria também: hematoma com fibrose também pós bloqueio do alveolar inferior e cicatriz tecidual pós dissecção muscular realizada em cirurgia (é raro mas tive uma paciente assim há uns 10 anos atrás).
Disfunção Temporomandibular
Agora sim, vamos lá a categoria mais comum no consultório do especialista em DTM e Dor Orofacial! Quando pensamos em trismo, podemos logo atribuir a um problema mecânico da ATM, o que realmente é o grande vilão do travamento fechado. Nesta categoria entra o deslocamento do disco sem redução. Mas outros problemas podem levar a trismo que podemos denominar de articulares: osteoartrites, artrites reumatóides, fibroses e anquiloses.
Mas tem um tipo de DTM que tem relação com trismo e algumas pessoas esquecem que é o trismo muscular por dor miofascial (que pode ainda se agravar se o paciente apresentar cinesiofobia). O diagnóstico diferencial entre problemas articulares e musculares deve ser realizado! O uso de spray gelado seguido de alongamento ou manobras para travamento fechado fazem parte do arsenal diagnóstico nestes casos na clínica, além de claro, os exames de imagem para quadros articulares.
Tumores (primários ou metástases)
Invasão tumoral em músculos mastigatórios, ATM ou ramo da mandíbula. (Aproveitem e leiam a postagem que fiz sobre Síndrome do Queixo Dormente – a paciente apresentava metástase do temos de câncer de mama nas vértebras cervicais – preciso atualizar lá!).
Radioterapia
Osteorradionecrose e fibrose pós radiação são as condições citadas nesta categoria.
Congênita
A hipótese mais comum é a hiperplasia do processo coronóide (há uma artigo do Bauru Orofacial Pain Group de 2012 com um relato de caso sobre isso, leia aqui).
Aqui também se encaixa a síndrome raríssima chamada Síndrome de Hecht ou Dutch-Kennedy.
Doenças Sistêmicas
Há relatos de trismo por lupus eritematoso, esclerosadaderma e arterite temporal (leia aqui postagem sobre este assunto).
Problemas relacionados ao Sistema Nervoso Central
Acidente cerebrais vasculares, esclerose múltipla, compressão vascular do nervo trigêmeo e doença de Parkison são condições que podem apresentar trismo em sua sintomatologia.
Causas diversas
Aqui nesta categoria encaixa-se todo o resto. Uma das causas mais comuns, que acompanha muitas vezes a DTM muscular, como citei, é a Cinesiofobia (paciente com medo do movimento de abrir a boca) e devemos saber identificar e educar o paciente com relação a isso.
Mais raros aparece nesta categoria a doença de Gaucher (genética e progressiva).
Pronto, lista colocada. Infelizmente salvei a tabela e não o artigo de onde a retirei. Terei que vasculhar o computador aqui!
Lembre-se, trismo é um sinal e não um problema em si. Procure as possíveis causas.
Abraços e boa semana a todos!

Edição especial do Journal of Dental Research para Dor Orofacial

A revista científica Journal of Dental Research é uma das mais importantes na Odontologia, com fator de impacto 4.602.

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No mês de Setembro o fascículo é dedicado a Dor Orofacial, destacando algumas revisões e pesquisas na área. Indico para os clínicos a leitura das revisões! Estão excelentes, especialmente gostei da de Sono e Dor Orofacial, reunindo dois craques no assunto: Gilles Lavigne e Barry Sessle.

Se vc é sócio da IADR – International Association of Dental Research – ou vinculado a uma instituição com acesso, você pode ter acesso a todo o fascículo. Caso contrário, infelizmente, nem todo conteúdo estará disponível. Vale escrever para os autores ou procurar no Research Gate para conseguir! A outra opção só conto para os espectadores do Periscope (siga lá: @dororofacial).

Entre os artigos gratuitos está a revisão assinada pelos pesquisadores envolvidos no estudo OPPERA, que completa uma década de publicações sobre fatores de risco para  dor por Disfunção Temporomandibular. Esta revisão destaca os principais pontos e achados em todo este período.

Segue o resumo:

G.D. Slade, R. Ohrbach, J.D. Greenspan, R.B. Fillingim, E. Bair, A.E. Sanders, R. Dubner, L. Diatchenko, C.B. Meloto, S. Smith, and W. Maixner

‘In 2006, the OPPERA project (Orofacial Pain: Prospective Evaluation and Risk Assessment) set out to identify risk factors for development of painful temporomandibular disorder (TMD). A decade later, this review summarizes its key findings. At 4 US study sites, OPPERA recruited and examined 3,258 community-based TMD-free adults assessing genetic and phenotypic measures of biological, psychosocial, clinical, and health status characteristics. During follow-up, 4% of participants per annum developed clinically verified TMD, although that was a “symptom iceberg” when compared with the 19% annual rate of facial pain symptoms. The most influential predictors of clinical TMD were simple checklists of comorbid health conditions and nonpainful orofacial symptoms. Self-reports of jaw parafunction were markedly stronger predictors than corresponding examiner assessments. The strongest psychosocial predictor was frequency of somatic symptoms, although not somatic reactivity. Pressure pain thresholds measured at cranial sites only weakly predicted incident TMD yet were strongly associated with chronic TMD, cross-sectionally, in OPPERA’s separate case-control study. The puzzle was resolved in OPPERA’s nested case-control study where repeated measures of pressure pain thresholds revealed fluctuation that coincided with TMD’s onset, persistence, and recovery but did not predict its incidence. The nested case-control study likewise furnished novel evidence that deteriorating sleep quality predicted TMD incidence. Three hundred genes were investigated, implicating 6 single-nucleotide polymorphisms (SNPs) as risk factors for chronic TMD, while another 6 SNPs were associated with intermediate phenotypes for TMD. One study identified a serotonergic pathway in which multiple SNPs influenced risk of chronic TMD. Two other studies investigating gene-environment interactions found that effects of stress on pain were modified by variation in the gene encoding catechol O-methyltransferase. Lessons learned from OPPERA have verified some implicated risk factors for TMD and refuted others, redirecting our thinking. Now it is time to apply those lessons to studies investigating treatment and prevention of TMD.”

É um dos estudos mais completos em se tratando de fator de risco. Entre os resultados, destaque para a importância da qualidade do sono que quando ruim pode predizer a incidência de DTM. Daí a leitura da outra revisão ser tão importante!

O link para o artigo gratuito está aqui: http://jdr.sagepub.com/content/95/10/1084.full.pdf+html

Vou dar um destaque pessoal também a revisão que tem entre os autores o Prof. Daniel Clauw sobre neurofisiologia da dor. Sou fã declarada dos trabalhos deste professor e se você ainda não leu sobre a aula dele que assisti no congresso da AAOP, clique aqui (na postagem tem um link para uma aula inteira no Youtube!).

Vejam todos os artigos deste fascículo:

Clinical Review
G.D. Slade, R. Ohrbach, J.D. Greenspan, R.B. Fillingim, E. Bair, A.E. Sanders, R. Dubner, L. Diatchenko, C.B. Meloto, S. Smith, and W. Maixner

 

R. Ohrbach and S.F. Dworkin

 

D.E. Harper, A. Schrepf, and D.J. Clauw

 

G.J. Lavigne and B.J Sessle
Critical Reviews in Oral Biology & Medicine
K.M. Hargreaves and S. Ruparel

 

T. Berta, Y.J. Qadri, G. Chen, and R.R. Ji
Clinical
C.L. Randall, D.W. McNeil, J.R. Shaffer, R.J. Crout, R.J. Weyant, and M.L. Marazita

 

T. Shinozaki, Y. Imamura, R. Kohashi, K. Dezawa, Y. Nakaya, Y. Sato, K. Watanabe, Y. Morimoto, T. Shizukuishi, O. Abe, T. Haji, K. Tabei, and M. Taira

 

J. Durham, J. Shen, M. Breckons, J.G. Steele, V. Araujo-Soares, C. Exley, and L. Vale

 

B. Häggman-Henrikson, E. Lampa, S. Marklund, and A. Wänman

 

T. Weber, I.A. Boggero, C.R. Carlson, E. Bertoli, J.P. Okeson, and R. de Leeuw

 

H. Meng, Y. Gao, Y.F. Kang, Y.P. Zhao, G.J. Yang, Y. Wang, Y. Cao, Y.H. Gan, and Q.F. Xie
Biological
T. Tamagawa, M. Shinoda, K. Honda, A. Furukawa, K. Kaji, H. Nagashima, R. Akasaka, J. Chen, B.J. Sessle, Y. Yonehara, and K. Iwata

 

K.Y. Yang, M.J. Kim, J.S. Ju, S.K. Park, C.G. Lee, S.T. Kim, Y.C. Bae, and D.K. Ahn

 

M. Yasuda, M. Shinoda, K. Honda, M. Fujita, A. Kawata, H. Nagashima, M. Watanabe, N. Shoji, O. Takahashi, S. Kimoto, and K. Iwata

Falando nisso…

Quer estudar mais sobre Dor Orofacial? Confira os eventos vindouros (hehehe gostei desta palavra)!

  • 01/09: Florianópolis – Curso de Atualização em DTM e Dor Orofacial com 10 módulos coordenado pelo Prof. Paulo Conti e por mim e com participação dos professores Rafael Santos Silva e Roberto Garanhani. Só tem uma vaga!!! www.abosc.com.br
  • 09/09: Joinville – Dia do Bruxismo! Saiba mais em www.diadobruxismo.com
  • 16/09: Campinas – Curso de um dia sobre DTM. Irei abordar aspectos sobre diagnóstico e tratamento e mostrar um pouquinho do que fazemos em Bauru. O curso terá um material online dedicado e demonstração de atendimento. Mais detalhes em www.imajon.com.br
  • 13 e 14/10: Ribeirão Preto: Congresso Brasileiro de Cefaleia e Congresso do Comitê de Dor Orofacial . Estarei lá para palestrar sobre a relação DTM e Bruxismo. www.sbcefaleia.com
  • 27/10: Palmas:  Meeting Internacional Odontológico do Tocantins – vou falar de um tema que gosto muito – as dores persistentes pós tratamento odontológico e quando são atribuídas a problemas neuropáticos. Mais informações: http://meeting.abo-to.org.br
  • 05/11: Recife – Dia do Bruxismo! Saiba tudo sobre este dia em www.diadobruxismo.com

Bruxismo do sono: vilão ou mocinho?

Hoje um texto filosófico. Precisei tirar alguns pensamentos da cabeça e passar para cá!

A cada dia que passa novos trabalhos sobre Bruxismo do Sono (BS) apontam para uma crise de identidade da condição. Vilão ou mocinho?

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Na última segunda feira a colega Anelisa Goulart chamou minha atenção para um artigo de opinião de expert publicado no dia 10 de junho no Journal of Oral Rehabilitation. Neste os professores Karen Raphael, Frank Lobbezoo e V. Santiago questionam se o BS é uma condição que traz prejuízos realmente importantes para a saúde, se é uma desordem ou um comportamento, se é vilão ou mocinho e qual seria então a importância em se realizar o diagnóstico desta condição.

Como escrevi, é um artigo de opinião mas que traz reflexões interessantes.

A pergunta intrigante do artigo é: “seria o BS uma desordem ou um fator de risco para outra desordem? Por que ele tem importância?”

Os estudos com polissonografia falham em apontar que o BS leva a consequências graves para a saúde do paciente. Relacionado ao sono, aqui o bruxismo (como atividade da musculatura mastigatória durante o sono) pode ter um papel de “mocinho” ao ser necessário para estimular a produção de saliva e permitir a lubrificação dos tecidos que participam do sistema digestório. E também hoje ha relatos da associação com resistência a passagem do ar durante o sono, ou mesmo Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), onde o bruxismo seria o movimento para facilitar a passagem do ar.

Se pensarmos no aspecto vilão do BS, este deveria ser associado a consequências deletérias. Por muito tempo o Bruxismo do Sono foi apontado como fator de risco importante no desenvolvimento das DTMs. Estudos de associação, com métodos de diagnósticos duvidosos suportaram esta afirmativa por mais de 40 anos, até que os estudos com polissonografia começaram a apontar o contrário.

Neste aspecto os autores relatam que o ponto de corte para que o BS seja realmente deletério (seja para dentes, periodonto ou ATM/músculos) pode variar de pessoa para pessoa, ou seja, o impacto é individualizado e  dependente de outros fatores como a vulnerabilidade genética. Aferir com precisão todos estes fatores não é possível.

Se pensarmos nas dificuldades no diagnóstico do BS, o problema se revela ainda maior. Os autores questionam a proposta de graduar o bruxismo em possível, provável e definitivo pela reduzida acurácia no diagnóstico. É muito complicado dizer que o paciente apresenta ou não a condição e se esta está associada a efeitos deletérios.

Por exemplo, e se o paciente não relata apresentar bruxismo, mas na polissonografia mostra um grande número de eventos? Ou mesmo aquele paciente com sinais e sintomas, auto relato mas que nas noites de polissono não apresenta eventos? Complicado…

Os grupos bem definidos ainda são os extremos, ou seja, aqueles pacientes que apresentam frequentemente BS ou que nunca apresentaram. Mas, pelo o que apontam os coeficientes de variabilidade de eventos de BS, aqueles pacientes ditos com poucos ou moderados eventos são a maioria. E as ferramentas disponíveis podem falhar na detecção.

Para finalizar os autores perguntam: quando e por que iniciar um tratamento para BS? Se em alguns casos ele é “mocinho”, por que controlá-lo? E quando ele realmente é “vilão”? Como identificar isso? Aí precisa de tratamento?

É um texto provocador mesmo, e isso para ciência é interessante. O que fazemos hoje é usar a melhor maneira possível para entender o BS, para compreender quando ele pode apresentar um ou outra característica, quando ele está ativo ou não.

Ainda, precisamos evoluir e muito no estudo do Bruxismo em Vigília. Será que isso nos revelará aspectos diferentes do BS?

Cenas do próximo capítulo…

Quer ficar por dentro sobre tudo de Bruxismo em adultos e crianças?ca Fa o Dia do Bruxismo!

Proxima edição em Ribeirão Preto, dia 13/08

Mais informações no site: www.diadobruxismo.com

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Dor de cabeça e DTM

Há duas semanas participei do CORE – Colloquium on Oral Rehabilitation, evento promovido pelo Journal of Oral Rehabilitation em parceria com a Sociedade Brasileira de DTM e Dor Orofacial (SBDOF) com o tema Dor Orofacial.
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Foi uma tremenda experiência! Primeiro pelo formato do evento: artigos em rascunho para leitura prévia, palestras sobre os assuntos e discussão abertas para opiniões e questionamentos de todos. Segundo pela possibilidade de conversar com todos os palestrantes e moderadores: Peter Svensson, Paulo Conti, Malin Ernberg, Thomas List, Ole Ferjerskov e Antônio Sérgio Guimarães. Ao final do evento eles se reuniram novamente e discutiram as mudanças nos artigos que em breve estarão publicados no Journal of Oral Rehabilitation (divulgarei aqui!).
Um dos temas discutidos por lá foi cefaleia e DTM muscular apresentado pelo Prof. Paulo Conti: a relação de comorbidades, quando a cefaleia é secundária a DTM e ainda, se o tratamento deve ser separado.
Entre tudo o que disseram (e foi muita coisa, viu?) a questão sobre o diagnóstico voltou a tona. O método de diagnóstico hoje disponível é baseado em anamnese e exame físico detalhados. Com os resultados em mãos o desafio é saber se estamos diante de cefaleia tipo tensional com dolorimento pericraniano ou cefaleia por DTM? Parece que estas condições estão sobrepostas, não?
Dois pontos chave baseados nas classificações do novo DC/TMD e da Classificação Internacional de Cefaleias (CIC, 2013) para o diagnóstico da cefaleia atribuída a DTM foram observados:
1. A relação temporal entre as condições: observar na história do paciente a ocorrência de ambas. No caso de uma cefaleia pré existente a classificação orienta que ambos diagnósticos sejam realizados. Claro que há problemas neste ponto, especialmente por ser baseado no relato do paciente.
2. Observar se a dor se modifica ou é familiar a função mandibular ou a palpação dos músculos mastigatórios, o que pode indicar a influência da DTM na cefaleia. Este são pontos em comuns dos critérios de diagnóstico do DC/TMD e do CIC. O DC/TMD considera cefaleia por DTM apenas se a dor for localizada na região temporal.
Segue abaixo os critérios, ainda não oficialmente traduzidos para o português (clique na figura para ampliar!):
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O importante disso tudo é lembrar que a DTM pode estar associada a uma cefaleia primária, como migrânea (enxaqueca) e cefaleia tipo tensional como já demonstraram vários estudos. Neste caso são comorbidades onde uma condição pode levar a piora ou perpetuação da dor da outra e não é a causa.
Por outro lado a cefaleia pode ser um sintoma de DTM. Neste caso ambas as classificações são falhas em descrever as características desta cefaleia. Há algum tempo já o meu amigo e membro do Bauru Orofacial Pain Group, Yuri Martins Costa, apresentou sua dissertação de mestrado. Ele realizou uma pesquisa clínica e controlada com o intuito de caracterizar o tipo de cefaleia atribuída a DTM.
A cefaleia secundária a  DTM apresentou as seguintes características: localização frontotemporal e bilateral, com longa duração (mais de 4 horas por dia) e com qualidade de peso ou pressão.
Este foi o primeiro estudo que descreveu as características deste tipo de cefaleia. Mais estudos são necessários.
Os estudos publicados pelo Bauru Orofacial Pain Group originados desta pesquisa:

 

 

Quis passar só um pouquinho do que estudei estes dias! Foi muito bom exercitar o cérebro!

Espero ter deixado um gostinho de quero mais para vocês! Assim que sairem os artigos eu divulgo! 🙂