Homeostase e a posição mandibular

Esta semana me deparei com a figura da página Doutor, tenho Dor no facebook:
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O André Porporatti colocou o seguinte texto abaixo da figura:
Uma revisão sistemática da literatura englobou 20 pesquisas diferentes e concluiu que intervenções cirúrgicas não apresentam diferenças nos resultados quando comparadas com terapias conservadoras habituais (não-cirúrgicas) para deslocamento do disco da articulação da mandíbula (disco articular da ATM)

Obviamente, cada caso tem que ser estudado individualmente. E sim, há possibilidades e indicações cirúrgicas para problemas na articulação da mandíbula.

Procure um profissional especialista em DTM e Dor Orofacial.
Referência: Al-Baghdadi M et al. TMJ Disc Displacement without Reduction Management: A Systematic Review. Journal of Dental Research (2014)

Mesmo não abordando especificamente casos cirúrgicos, nem mesmo uma DTM específica, isso me fez lembrar que prometi escrever sobre o trecho final do artigo publicado pelos autores Charles Greene e Ales Obrez na revista Triple O:
Na parte final os autores questionam a real necessidade de reposicionar a mandíbula em casos de deslocamentos de disco em ATM como prevenção em indivíduos assintomáticos e mesmo tratamento para  pacientes com DTM. Os autores enfatizam a necessidade de conhecermos a biologia do sistema mastigatória e como ele funciona ao longo do tempo, especialmente a sua capacidade de adaptação (processo de homeostase). Claro que não negam a existência da degeneração em alguns pacientes (quando o estímulo excede a capacidade adaptativa), e a necessidade de tratamento destes pacientes, mas relatam que de modo geral este sistema funciona de maneira equilibrada, mantendo a mandíbula em uma posição apropriada em relação à maxila (oclusão) e o crânio (ATM).
Remodelação é o termo utilizado para falar sobre o equilíbrio entre a forma e a função.
A remodelação na ATM acontece por mudanças na composição celular das camadas fibrosas articulares da cabeça da mandíbula (condilo) e eminência articular. As células como fibrócitos são eventualmente substituídas por células cartilaginosas. Como as mudanças maxila-mandibulares ocorrem ao longo do tempo com desgaste dentário ou perda dentária, a força aplicada sobre a ATM aumenta e a espessura dos tecidos articulares muda em conformidade a nova situação. Os locais onde a remodelação da ATM ocorrem mais frequentemente são os aspectos posteriores e laterais da cabeça da mandíbula. Estas mudanças acontecem, na maioria dos casos, sem qualquer processo patológico e são indolores. A ATM remodelada também é capaz de continuar sua função apesar da quantidade e localização da pressão biomecânica  Isso explica as diferenças e variações observadas em ATMs tanto no mesmo indivíduo como em pessoas diferentes (e faz refletir se a relação cêntrica existe de forma igual para todos, não?).
A oclusão dentária tem papel crucial nesta remodelação, uma vez que é importante reconhecer que qualquer mudança permanente na morfologia oclusal afeta o crescimento, desenvolvimento e a remodelação tanto da ATM como também dos músculos mastigatórios. A relação entre a ATM e a oclusão em qualquer indivíduo é produto da capacidade adaptativa ao longo da vida. Podemos observar bem este conceito e o quanto o sistema mastigatório se adapta favoravelmente quando várias intervenções irreversíveis são realizadas como ortodontia, reabilitação oral ou cirurgia ortognática.
Mas e sobre o conceito de reposicionar a mandíbula como abordagem preventiva ou terapêutica para DTM? Os autores após toda explanação sobre homeostase afirmaram que se as relações oclusais, musculares e entre côndilo-fossa estão constantemente se adaptando à função atual do sistema mastigatório, então cada relação apresentada pelo indivíduo é, na ausência claro de degeneração e dor, uma relação biologicamente correta.
Assim o termo “má posição mandibular” não deve ser utilizado para explicar a etiologia de uma DTM e assim ser a indicação para uma terapia reposicionadora irreversível, ou seja, não preenche o primeiro critério de necessidade biológica (leia o post anterior para os critérios) que diz que a condição a ser tratada deve ser válida e reconhecida como um problema de saúde.
Os autores também citam algo que para mim foi bem interessante: é importante hoje avaliar os estudos que mostram técnicas para tratamento de DTM com sucesso a luz da homeostase, ou seja, não esquecendo a história natural da condição. Muitos dos estudos realizados hoje deixam este aspecto de lado e supervalorizam as técnicas. (para se pensar…)
Quanto maior a informação relacionada a etiologia e patofisiologia das DTM, especialmente o reconhecimento das disfunções musculares, estiver disponível, mais ficará claro que a taxa de custo/benefício da abordagem conservadora significantemente aumentará. Os autores encerram o artigo relatando os protocolos de tratamento conservadores e enfatizando o custo financeiro que muitas vezes o paciente arca com tratamentos irreversíveis, sem benefício superior.
Infelizmente hoje ainda não há estes clínicos, técnicos ou exames de imagem que possam dizer que o paciente necessite de uma abordagem como esta na prevenção de DTM (os testes são muito sensíveis mas pouco específicos!). E isso chama a atenção e cruza com o que o André citou lá na figura acima, que nem todo o disco precisa ou até mesmo, deve ser recapturado. Bem, tentei passar alguns trechos desta revisão complexa porém reflexiva sobre os aspectos que envolvem uma técnica muito utilizada ainda.
Como eu relatei, destaquei só alguns pontos, para dar um aperitivo e para que vocês busquem ler mais sobre respeito a isso (também vou fazer isso!).
Bom final de semana!! 🙂