Medicina Integrativa no Controle das Dores Orofaciais

Hoje o texto não é meu e sim do meu amigo André Luis Porporatti. O André já escreveu aqui sobre acupuntura e medicina tradicional chinesa. Assisti a aula que ele ministrou sobre Medicina Integrativa nos cursos de Especialização e Atualização em DTM e Dor Orofacial no IEO-Bauru e imediatamente pensei que precisamos divulgar melhor os conceitos relacionados a este tema.

A proposta não é substituir o tratamento convencional por outro, mas sim, casar tradicionais práticas baseadas em evidência com métodos que busquem tratar o corpo como um todo.

Também no jornal Pain Uptades da IASP (Associação Internacional de Estudo da Dor), Medicina Integrativa foi o tema da vez.

Sem mais delongas, segue abaixo o texto do André. Ah! Não deixem de ver o vídeo da aula, vocês vão entender porque fiquei encantada! 🙂

Recentemente, em Maio de 2014, foi lançado uma publicação no jornal da Pain Clinical Updates, sob a chancela da IASP (International Association for the Study of Pain), abordando um tema até então pouco discutido na área das ciências médicas que tratam, controlam e diagnosticam as dores de uma forma geral. O tema destaca em seu título: “Integrative Pain Medicine: A Holistic Model of Care” (Medicina Integrativa para Dor: Um Modelo Holístico de Controle e Cuidados aos pacientes).

Site para Download:

http://www.iasp-pain.org/PublicationsNews/NewsletterIssue.aspx?ItemNumber=3512

O artigo de autoria de Heather Tick (Site: http://heathertickmd.com/), Médica e Professora da Universidade de Washington (Seattle, EUA), aborda de forma clara, os aspectos e algumas formas de atuação da Medicina Integrativa, relacionados à Alimentação e Nutrição, Relação Mente-Corpo, Neuroplasticidade, e Sistema Miofascial.

Antes de esclarecermos estes aspectos abordados, é imprescindível definir a Medicina Integrativa (MI) como uma abordagem que busca casar (ou “integrar”) técnicas tradicionais baseadas na melhor evidência científica, com métodos que, em vez de focarem em um problema específico, buscam tratar o corpo (ou o paciente) como um todo. Essa medicina não se trata de uma “terapia alternativa”, pois a proposta não é trocar (“alternar”) um tratamento por outro, mas sim analisar qual deles ou qual combinação forneceria os melhores benefícios à longo prazo. Uma exemplo utilizado é que o médico ao pensar no tratamento de um câncer, não deveria ponderar apenas o tumor em si, mas necessitaria atentar à outros fatores envolvidos, como questões emocionais, espirituais, familiares, alimentares e ambientais. Assim, “sai a doença como foco principal da atenção e entra o paciente inteiro, mente-corpo-espirito”. Neste quesito, o paciente, com orientação e apoio do profissional da saúde, é visto como o agente responsável por sua melhora.

Consequentemente, o conceito de doença ou mesmo de cura se amplia, evitando referi-la apenas como a ausência de doença, mas concernindo-a como o reequilibro do paciente no aspecto físico, mental, social emocional e ambiental. O Consorcio dos Centros Acadêmicos de Saúde para MI (Consortium of Academic Health Centers for Integrative Medicine) define a MI como “a prática que reafirma a importância da relação entre o profissional da saúde e o paciente, com foco na pessoa como um todo, embasada em evidências científicas, e que usa de todas as abordagens terapêuticas apropriadas para alcançar a saúde e cura”.

Levando para nossa área de Dor Orofacial e DTM, poderíamos sugestionar uma forma de MI, como uma filosofia que não rejeita os tratamento convencionais já estabelecidos como válidos e seguros (Fisioterapia, Placas Interoclusais, Terapia Fonoaudiológica, Medicamentos, Orientações para o auto-cuidado, Termoterapias, Infiltrações, dentre outras), e ao mesmo tempo, uma filosofia que não aceita irrefutavelmente as terapias alternativas como forma única de tratamento. A MI faz o uso adequado e integrado de métodos convencionais e alternativos para facilitar a resposta inata de cura do corpo.

Além das técnicas já conhecidas na medicina convencional (incluindo a odontologia), podemos fazer uso de terapias que abrangem Acupuntura, Fitoterapia, Laserterapia, Hipnose, Yôga, Meditação, Relaxamento, Terapia Alimentar, Cromoterapia, Aromaterapia, Musicoterapia, Auriculoterapia, Magnetoterapia, Uso de Florais, e muitas outras. A escolha pela melhor forma terapêutica dependerá do profissional capacitado nessas técnicas da MI e na história de vida e escolha do paciente, buscando assim, em conjunto, alcançar o melhor tratamento para o paciente.

Voltando ao artigo da IASP, a importância da Alimentação e Nutrição como parte da MI se sobressai. Toda vez que comemos, a química do nosso corpo muda, logo, poderemos orquestrar essa alterações de pH, alterações de radicais livres e estimular mecanismos endógenos de cura, em prol de nosso benefício (ou do paciente), diminuindo essa reação química-inflamatória através das escolhas alimentares. Uma alimentação anti-inflamatória, baseada na riqueza dos vegetais, legumes, cereais, oleaginosas e frutas e na diminuição do consumo de carnes pode melhorar, de forma ampla, todas essas características de saúde. Se eu puder sugerir uma referencia sobre esse assunto, assistam o documentário “Forks Over knives” (link: http://www.forksoverknives.com/) que discute a questão alimentar de forma consciente e baseada em estudos médicos sérios.

Outro tópico abordado no artigo, é da relação Mente-Corpo, com os avanços nos estudos da Neuroplasticidade, que se trata da habilidade do cérebro e do sistema nervoso de se auto-modificar, se alterar e se “plastificar”. Essa ciência básica envolve desde estudos com células da Glia e fenômenos de sensitização central, até mecanismos mais complexos de neuroplasticidade. Nesta ciência, é evidenciado que pacientes com dor podem alterar funções no sistema nervoso, e por conseguinte, essas alterações no córtex somatossensorial podem envolver a manifestação de dores crônicas. Estratégias que tentam mudar essa fisiologia Mente-Cérebro-Corpo incluem: Meditação, Relaxamento, práticas de Biofeedback, Yôga e outras técnicas de conscientização e relaxamento, além de técnicas que possam afetar o sistema nervoso autonômico, como citado a Acupuntura.

E o ultimo tópico versa sobre a Dor Miofascial, como um tipo de dor e disfunção muito frequente e prevalente, e as vantagens da Medicina Tradicional Chinesa, a Acupuntura e o próprio agulhamento seco com agulhas de acupuntura, como técnicas que apresentam uma longa história no controle de condições médicas agudas e crônicas, incluindo a dor. A Medicina Tradicional Chinesa foi apontada como um sistema de medicina que é ancestral, complexo e detalhado. É uma medicina holística com uma visão de saúde ampla, onde ela é resultado de um equilíbrio e harmonia entre diferentes partes do corpo (ou meridianos). Para saber mais sobre Medicina Tradicional Chinesa clique aqui

Por fim, gostaria de concluir com uma frase que eu li e acredito que define bem a MI e esse novo avanço na forma de ver o paciente. Ela foi citada pela equipe de médicos que usam a MI no Hospital Albert Einstein:

“Somos capazes de participar ativamente do nosso processo de cura, apesar de não sermos educados para saber disso. A cura não vem de fora, mas de dentro – remédios, tratamentos e cirurgias são necessários para auxiliar e acelerar essa recuperação, mas não são tudo nem podem fazer todo o trabalho sozinhos.”

Obrigado pela atenção.

André Porporatti, DDS, Ms

http://www.andreporporatti.com

Cirurgião-Dentista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Mestre e Doutorando em Reabilitação Oral pela Universidade de São Paulo (USP)

Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SBDOF)

Membro da International Association for the Study of Pain (IASP)

Especialista em Acupuntura Tradicional Chinesa pelo Centro de Estudos em Terapias Naturais (CETN)

Para assistir o vídeo-aula, clique na figura abaixo!

Capa MI (André Porporatti)

 

Falando nisso…

Eu e o André fazemos parte do Grupo de Dor Orofacial da FOB-USP, com todo o time de pós graduandos, e estamos sempre juntos  no curso de Especialização em DTM e Dor Orofacial, coordenado pelo Professor Paulo Conti em Bauru. O curso começa em Outubro! Quem estiver com vontade de conhecer, entre em www.ieobauru.com.br ou ligue para Vivian no telefone (14) 32341919.

 

2 pensamentos sobre “Medicina Integrativa no Controle das Dores Orofaciais

  1. Parabéns pelo artigo. Uma excelente visão do equilíbrio entre corpo e mente.

  2. Olá Juliana! Muito bom esse post! Parabéns.
    A fisioterapia, mas principalmente a osteopatia tem essa visão holistica. Um dos princípios da osteopatia refere-se justamente à unidade do ser, de que cada indivíduo é uma expressão do corpo, mente e espírito. A pessoa é regulada, coordenada e integrada por funções fisiológicas interdependentes que relacionam diferentes elementos anatômicos, fisiológicos e psicológicos. Todas as estruturas anatômicas corporais são mecanicamente interconectadas por diferentes tipos de tecido conjuntivo. E, o corpo humano tem a capacidade de reencontrar o equilibrio (físico, bioquímico, mental, etc), pois o corpo tem a capacidade de autocura!

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