Mindfulness

Eu sempre acompanho os movimentos de terapias para melhorar a qualidade de vida dos pacientes com dor crônica.

No último Congresso Mundial de Dor, promovido pela IASP, vi vários pôsteres que falavam sobre meditação e o quão benéfico é para nossos pacientes.

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Desde então estava com vontade de convidar a fisioterapeuta Michele Peres Ferreira que desenvolve um trabalho muito bacana nesta área no Brasil para escrever aqui sobre o assunto (nada melhor do que uma pessoa com expertise não é?).

Finalmente consegui!! Obrigada Michele por sua disponibilidade!

Mindfulness, viva com atenção plena!

por Michele Peres Ferreira

FOTO Profissional

 

Você já ouviu falar em Mindfulness? 

 

Vamos falar sobre esse tema que está em alta?

 

Segundo Jon Kabat-Zinn, Mindfulness é um estado mental de estar atento à experiência no momento presente, sem julgamento. 

Quando traduzirmos a palavra Mindfulness para o português o resultado é Atenção Plena. Isso significa que um dos principais componentes desse estado mental é a atenção. 

Diferentemente do que muitos acreditam, meditar não significa contorcer o corpo ou esvaziar a mente. A meditação da atenção plena é como um esporte, se trata de um treinamento de concentração da mente. O Mindfulness é um exercício laico, derivado do Budismo, mas não exige qualquer fé religiosa nem é necessário se tornar budista. 

Meditar pode ser difícil, especialmente no início. É como ir à academia. Se você não estiver ofegante nem suando, é provável de que não esteja fazendo direito. Da mesma forma, se começar a meditar e logo se encontrar num êxtase livre de pensamentos, ou você se iluminou de repente ou está morto. A prática fica mais fácil com o tempo, mas mesmo após anos de meditação, você irá se distrair muitas vezes. 

A meditação nos faz entrar em contato com uma realidade pouco explorada, a nossa voz interna, isso significa que nossa mente está o tempo todo discutindo com ela mesma sobre os fatos do passado ou do futuro, fazendo listas, ensaiando discussões, remoendo coisas etc. É como Mark Twain diz: “Algumas das piores coisas da minha vida nunca chegaram acontecer”. Isso significa que pensamos muito o tempo todo, e sentimos a carga emocional dos nossos pensamentos, e na maioria das vezes sofremos mais por eles, do que pela própria realidade. Quando não temos consciência desse falatório interior incessante, ele pode nos controlar e nos enganar. 

O nosso estado mental nada mais é do que a forma como reagimos e nos comportamos nas diversas situações apresentadas em nossa vida. O interessante é que 70% do nosso estado mental pode ser treinado, sendo apenas 30% dele genético. Isso significa que podemos exercitar e treinar o nosso cérebro a estar mindful, ou seja, estar atento e consciente para o momento presente. O processo de treinamento do nosso cérebro ocorre através da meditação que explora o controle atencional, o autoconhecimento e a auto-regulação emocional.

Quantas vezes você realizou uma tarefa de forma tão automática que nem se deu conta de qual foi o processo para concluí-la? Um exemplo muito comum disso são pessoas que estão acostumadas a fazer sempre o mesmo caminho para voltarem para casa, e que ao chegarem percebem que nem se deram conta do caminho percorrido. Isso significa que você está inconsciente da tarefa que está realizando naquele momento, ou seja, sua mente não está no momento presente, a sua atenção está voltada para os pensamentos: “Preciso comprar leite… Ainda não paguei a conta de luz… Se eu não terminar o relatório até amanhã meu chefe me mata!”; e assim você chega na sua casa sem saber exatamente como.

Nossos pensamentos, em sua grande maioria, costumam ser negativos ou irreais, frutos da nossa imaginação, de coisas que já aconteceram, vão acontecer ou talvez nem aconteçam. Enquanto focamos a atenção para esses pensamentos gastamos energia e tempo com coisas improdutivas. É comum vivermos no passado ou no futuro, esquecendo do momento presente, ocasionando um aumento dos níveis de ansiedade e estresse.

Hoje estamos vivendo em uma era da multitarefa, temos dificuldade de ficar ociosos, qualquer folguinha, nem que seja um minuto, recorremos ao celular, para checar os e-mails, dar uma espiada nas redes sociais e com isso nossa mente entra em um processo de exaustão. Pessoas estão dormindo e acordando cansadas, o cérebro deixa de recuperar a energia pois está sempre em atividade.

O cérebro é um órgão plástico, flexível e treinável, o que torna possível exercitá-lo para modificar o estado mental e aumentar o nível de concentração. (Veja no link:A. Brefczynski-Lewis*, A. Lutz*, H. S. Schaefer, D. B. Levinson*, and R. J. Davidson* Neural correlates of attentional expertise in long-term meditation practitioners. Proc Natl Acad Sci U S A. 2007 Jul 3;104(27):11483-8. Epub 2007 Jun 27.)

O treinamento e aprendizado geralmente se dá através de técnicas de autorregulação da atenção com prática da meditação e de outros exercícios afins, permitindo uma maior tomada de consciência de seus processos mentais e de suas ações. As práticas e exercícios de meditação ajudam a alcançarmos essa alteração a nível central. 

Ao contrário do que muitos pensam não é porque você começou a meditar que irá virar uma pessoa super calma e sem problemas, mas então qual seria o benefício de se tornar uma pessoa consciente, atenta, mindful? Através do treinamento de mindfulness temos como objetivo perceber pensamentos, sensações corporais e emoções no momento que ocorrem, sem reagir de maneira automática e habitual. Com isso, aprendemos a fazer escolhas mais conscientes e funcionais, influenciando positivamente na maneira como lidamos com os desafios cotidianos e em relações interpessoais. Através de Mindfulness, aprendemos a regular as emoções desafiadoras e reduzir aquele discurso interno mental que aparece nas circunstâncias difíceis.

Profissionais da área da saúde estão estudando cada vez mais o Mindfulness e seus benefícios para redução do estresse, ansiedade, aumento da concentração e manejo da dor. 

 

Vamos falar sobre a utilidade dessa ferramenta na dor ?

 

Bom, a dor crônica é freqüentemente definida como uma dor que dura mais que 3 meses ou após o tempo normal de cicatrização tecidual e que pode levar a consequências médicas, sociais e econômicas significativas, problemas de relacionamento, perda de produtividade e altos custos com cuidados de saúde. 

A alta prevalência e natureza refratária da dor crônica, em conjunção com as consequências negativas da medicação, levou ao aumento do interesse em planos de tratamentos que incluem terapia adjuvante ou alternativas à medicação. 

Uma dessas modalidades que os pacientes com dor estão usando é essa meditação que comentamos Mindfulness. Esse treinamento trabalha reorientando a mente para o presente momento e aumentando a consciência do ambiente externo e das sensações internas, permitindo o indivíduo a reformular as experiências. 

Ao incluir o Mindfulness nos tratamentos os pacientes são encorajados a mudar a maneira como eles se relacionam com a dor, suspendendo o julgamento de  pensamentos que acompanham a percepção da dor. Isso desacopla teoricamente a dimensão sensorial da dor da reação de alarme afetivo resultando em uma atenuação da experiência de sofrimento através da reavaliação cognitiva. ( Yi‑Yuan Tang*, Britta K. Hölzel* and Michael I. Posner. The neuroscience of mindfulness meditation. NATURE REVIEWS | NEUROSCIENCE. 16 (2015)  213-225.)

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Os programas de Mindfulness foram empregados por quase 40 anos para o tratamento de várias condições de dor crônica, incluindo lombalgia, enxaqueca, dores de cabeça e dor musculoesquelética. Muitas vezes, não é possível eliminar a dor, mas o paciente aprende habilidades para viver uma vida produtiva na presença de desconforto ou incapacidade. 

Estudos recentes utilizaram neuroimagem para elucidar mecanismos neurofisiológicos e os efeitos subjacentes da atenção plena no cérebro. Uma recente revisão sistemática observou que a regulação da dor pelas técnicas de meditação podem alterar o funcionamento das regiões do cérebro em uma extensa rede, incluindo regiões não nociceptivas. Mas principalmente reduziu a experiência afetiva da dor, enquanto as reduções de intensidade da dor foram menos consistentes. Alterações cerebrais foram demonstradas como resultado da aplicação de medidas psicológicas e pode representar as implicações clínicas de alterações na atividade cerebral ou morfologia.

Em estudos de mindfulness em pacientes com dor tem se mostrado promissores, em relação a sintomas de desconforto relacionado a dor, perturbação do humor, ansiedade, e depressão, bem como a utilização de drogas relacionadas ao controle da dor. Apesar dos resultados positivos, recentes revisões sistemáticas sugerem a realização de estudos de alta qualidade para a recomendação do uso da meditação mindfulness para sintomas de dor crônica. 

Portanto, parece que estamos no caminho certo, mas ainda há necessidade de muitos estudos qualificados para se “bater o martelo”, e dessa forma vamos modificando nossas abordagens terapêuticas para uma abordagem mais humanizada, valorizando o ser em todos os seus aspectos e não somente os biológicos. 

Referências:

Kabat-Zinn J, Lipworth L, Burney R. The clinical use of mindfulness meditation for the self-regulation of chronic pain. J Behav Med. 1985 Jun;8(2):163-90.

Sun TF1, Kuo CC, Chiu NM. Mindfulness meditation in the control of severe headache. Chang Gung Med J. 2002 Aug;25(8):538-41.

Cherkin DC, Anderson ML, Sherman KJ, Balderson BH, Cook AJ, Hansen KE, Turner JA. Two-Year Follow-up of a Randomized Clinical Trial of Mindfulness-Based Stress Reduction vs Cognitive Behavioral Therapy or Usual Care for Chronic Low Back Pain. JAMA. 2017 Feb 14;317(6):642-644. doi: 10.1001/jama.2016.17814.

Ref: Hilton L, Hempel S, Ewing BA, Apaydin E, Xenakis L, Newberry S, Colaiaco B, Maher AR, Shanman RM, Sorbero ME, Maglione MA.Mindfulness Meditation for Chronic Pain: Systematic Review and Meta-analysis. Ann Behav Med. 2017 Apr;51(2):199-213. doi: 10.1007/s12160-016-9844-2.

Ref: Simone S. Nascimento, Larissa R. Oliveira, Josimari M. DeSantana, Correlations between brain changes and pain management after cognitive and meditative therapies: A systematic review of neuroimaging studies. Complementary Therapies in Medicine 39 (2018) 137–145.

A Michele também enviou para nós um vídeo super bacana sobre aceitação e dor. Vale a pena assistir!

Obrigada Michele!!!

Para quem quiser ler a dissertação de mestrado da Michele sobre avaliação funcional da coluna cervical em pacientes com DTM, clique aqui.

E se tiver dúvidas, comentários, etc, clique aqui para enviar um email a Michele! 🙂

 

 

2018 – Ano Mundial para Excelência da Educação em Dor

Na última semana a IASP (International Association for Study of Pain) lançou o tema da campanha mundial deste ano: Excelência da Educação em Dor.

Confesso que fiquei radiante! 2018 é um ano no qual quero me dedicar ao máxima a educar e ser educada neste tema que é centro da minha profissão há tantos anos. Quero trocar mais e mais experiências! E não podia ter incentivo maior do que acompanhar as iniciativas da IASP!

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O tema tem como ponto chave “Bridging the gap between knowledge and practice.” – diminuir o abismo entre o conhecimento e a prática. E não é somente foca os profissionais da saúde mas também os pacientes, os órgãos governamentais e dos membros de pesquisa em educação em dor. É uma força tarefa para que conceitos corretos atinjam todas as camadas da população. A educação em dor se mostra uma das ferramentas mais eficazes para o combate da mesma.

Eu sonho com o dia em que a Odontologia (minha área de atuação) reconheça e trabalhe melhor com dor, inclusive na melhor orientação do paciente. Infelizmente ainda é só sonho…. A IASP apresenta neste ano sugestões curriculares para isso.

Para saber mais, acompanhe a hashtag #GYPainEducation nas redes sociais como LinkedIn, Facebook, Instagram e Twitter!

Na página oficial da IASP você pode também ter acesso ao material produzido por eles (em breve a SBED – Sociedade Brasileira para Estudo da Dor – deve realizar a tradução destes textos).

Sobre a educação para a população, em tradução livre minha coloco o que a IASP citou:

A educação da população pode ajudar a reduzir o peso da dor na sociedade. Aqui estão cinco razões pelas quais a educação  sobre a dor pode ser altamente benéfica:

1. As pessoas que recebem essa educação podem tomar medidas para evitar a dor, como praticar técnicas adequadas de alongamento e atividade física, e podem se dedicar a uma autogestão oportuna e útil quando a dor atinge.

2. As pessoas educadas sobre a dor podem dar conselhos e assistência adequados aos familiares, amigos e colegas com dor.

3. Nas interações com os prestadores de cuidados de saúde, as pessoas com conhecimento em dor podem advogar e aceitar o tratamento adequado para dor aguda e crônica que eles ou membros da família experimentam.

4. Um público educado pode atuar a nível comunitário para minimizar os riscos que contribuem para lesões causadoras de dor; por exemplo, jovens que praticam esportes de contato ou em comunidades que podem ser propensas a apresentar calçadas em estado de destruição (que podem gerar lesões dolorosas).

5. Os cidadãos educados podem defender políticas públicas melhoradas de prevenção e controle da dor, tais como requerimentos razoáveis de capacete esportivo, acesso legal a medicamente necessários e reembolso de seguro médico de cuidados de dor interdisciplinares.

E como pode ser realizada esta educação? De várias formas! Uma delas (e a primeira citada pela IASP) é através da Internet! Olhe a oportunidade bem ao nosso alcance! Invista em redes sociais, vídeos instrutivos, postagem com conteúdo. Use ao favor da educação em dor!

Todos nós só temos a ganhar! 🙂

E ainda dentro deste tema, a SBDOF – Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial – criou uma publicação chamada Cadernos da SBDOF que tem como editora a professora Liete Zwir, revisão científica dos professores Antônio Sérgio Guimarães e Paulo Conti. No primeiro volume, o atual presidente da SBDOF,  Reynaldo Leite Martins Júnior, escreveu sobre DTM para pacientes. Excelente material para enviarmos aos nossos pacientes. Aqui no site e em PDF: Caderno SBDOF número 1 (versão que pode ser impressa em gráfica).

Mais uma dica: já escrevi aqui sobre o site  Pesquisa em Dor . Mas a dica é boa e vale a pena repetir. O site tem uma área para os pacientes e uma área para profissionais. Na área de pacientes há explicações sobre dor que aparecem de forma lúdica e didática, o que atiça a curiosidade e facilita o entendimento. Veja por exemplo Caminho da Recuperação. A área para profissionais reúne ferramentas que podemos utilizar na nossa rotina clínica (inclusive a escala de cinesiofobia que já falamos aqui), manual para utilizar o caminho da recuperação com seu paciente e algo que acho essencial: estratégias para educar seu paciente com relação a dor.

E por fim, sobre cursos e eventos, vou atualizar a página em breve com toda a agenda de 2018! Os cursos em Bauru, coordenados pelo professor Paulo Conti, estão com lista de espera e novas turmas estão planejadas para segundo semestre. Entre em contato com IEO-Bauru para mais informações! Em Florianópolis começa em março um curso de aperfeiçoamento em Disfunção Temporomandibular na Zenith comigo, Prof. Conti e Prof. Rafael Santos Silva! Serão 6 módulos de 3 dias cada com clínica e 144 horas de muita informação! Últimas vagas no link. Ainda, há previsão de curso em João Pessoa,de atualização, na COESP, ainda com datas a serem definidas no segundo semestre! Ufa! E tem grupo de estudos, Dia do Bruxismo (Com agenda lotada!! Clique aqui e veja todas as datas) e mais os congressos na área de Dor! Vale um destaque ao meu congresso favorito, o Congresso Mundial de Dor da IASP, que acontecerá em setembro, em Boston e eu já comprei minha passagem!!! \o/ Depois farei uma postagem com todos os eventos do ano (CINDOR, ICOT, IADR, SBCe, SBDOF, etc).


Falando nisso…

Pela segunda vez um cirurgião-dentista está na presidência da Sociedade Brasileira de Estudo (SBED), Prof. Dr. Eduardo Grossmann assumiu e estará a frente da SBED pelos anos 2018 e 2019. Prof. José Tadeu Tesseroli de Siqueira foi o outro cirurgião-dentista a comandar a SBED. É orgulho a nossa classe! Votos de excelente gestão ao Prof. Grossmann. Link para seu discurso de posse.

Medicina Integrativa no Controle das Dores Orofaciais

Hoje o texto não é meu e sim do meu amigo André Luis Porporatti. O André já escreveu aqui sobre acupuntura e medicina tradicional chinesa. Assisti a aula que ele ministrou sobre Medicina Integrativa nos cursos de Especialização e Atualização em DTM e Dor Orofacial no IEO-Bauru e imediatamente pensei que precisamos divulgar melhor os conceitos relacionados a este tema.

A proposta não é substituir o tratamento convencional por outro, mas sim, casar tradicionais práticas baseadas em evidência com métodos que busquem tratar o corpo como um todo.

Também no jornal Pain Uptades da IASP (Associação Internacional de Estudo da Dor), Medicina Integrativa foi o tema da vez.

Sem mais delongas, segue abaixo o texto do André. Ah! Não deixem de ver o vídeo da aula, vocês vão entender porque fiquei encantada! 🙂

Recentemente, em Maio de 2014, foi lançado uma publicação no jornal da Pain Clinical Updates, sob a chancela da IASP (International Association for the Study of Pain), abordando um tema até então pouco discutido na área das ciências médicas que tratam, controlam e diagnosticam as dores de uma forma geral. O tema destaca em seu título: “Integrative Pain Medicine: A Holistic Model of Care” (Medicina Integrativa para Dor: Um Modelo Holístico de Controle e Cuidados aos pacientes).

Site para Download:

http://www.iasp-pain.org/PublicationsNews/NewsletterIssue.aspx?ItemNumber=3512

O artigo de autoria de Heather Tick (Site: http://heathertickmd.com/), Médica e Professora da Universidade de Washington (Seattle, EUA), aborda de forma clara, os aspectos e algumas formas de atuação da Medicina Integrativa, relacionados à Alimentação e Nutrição, Relação Mente-Corpo, Neuroplasticidade, e Sistema Miofascial.

Antes de esclarecermos estes aspectos abordados, é imprescindível definir a Medicina Integrativa (MI) como uma abordagem que busca casar (ou “integrar”) técnicas tradicionais baseadas na melhor evidência científica, com métodos que, em vez de focarem em um problema específico, buscam tratar o corpo (ou o paciente) como um todo. Essa medicina não se trata de uma “terapia alternativa”, pois a proposta não é trocar (“alternar”) um tratamento por outro, mas sim analisar qual deles ou qual combinação forneceria os melhores benefícios à longo prazo. Uma exemplo utilizado é que o médico ao pensar no tratamento de um câncer, não deveria ponderar apenas o tumor em si, mas necessitaria atentar à outros fatores envolvidos, como questões emocionais, espirituais, familiares, alimentares e ambientais. Assim, “sai a doença como foco principal da atenção e entra o paciente inteiro, mente-corpo-espirito”. Neste quesito, o paciente, com orientação e apoio do profissional da saúde, é visto como o agente responsável por sua melhora.

Consequentemente, o conceito de doença ou mesmo de cura se amplia, evitando referi-la apenas como a ausência de doença, mas concernindo-a como o reequilibro do paciente no aspecto físico, mental, social emocional e ambiental. O Consorcio dos Centros Acadêmicos de Saúde para MI (Consortium of Academic Health Centers for Integrative Medicine) define a MI como “a prática que reafirma a importância da relação entre o profissional da saúde e o paciente, com foco na pessoa como um todo, embasada em evidências científicas, e que usa de todas as abordagens terapêuticas apropriadas para alcançar a saúde e cura”.

Levando para nossa área de Dor Orofacial e DTM, poderíamos sugestionar uma forma de MI, como uma filosofia que não rejeita os tratamento convencionais já estabelecidos como válidos e seguros (Fisioterapia, Placas Interoclusais, Terapia Fonoaudiológica, Medicamentos, Orientações para o auto-cuidado, Termoterapias, Infiltrações, dentre outras), e ao mesmo tempo, uma filosofia que não aceita irrefutavelmente as terapias alternativas como forma única de tratamento. A MI faz o uso adequado e integrado de métodos convencionais e alternativos para facilitar a resposta inata de cura do corpo.

Além das técnicas já conhecidas na medicina convencional (incluindo a odontologia), podemos fazer uso de terapias que abrangem Acupuntura, Fitoterapia, Laserterapia, Hipnose, Yôga, Meditação, Relaxamento, Terapia Alimentar, Cromoterapia, Aromaterapia, Musicoterapia, Auriculoterapia, Magnetoterapia, Uso de Florais, e muitas outras. A escolha pela melhor forma terapêutica dependerá do profissional capacitado nessas técnicas da MI e na história de vida e escolha do paciente, buscando assim, em conjunto, alcançar o melhor tratamento para o paciente.

Voltando ao artigo da IASP, a importância da Alimentação e Nutrição como parte da MI se sobressai. Toda vez que comemos, a química do nosso corpo muda, logo, poderemos orquestrar essa alterações de pH, alterações de radicais livres e estimular mecanismos endógenos de cura, em prol de nosso benefício (ou do paciente), diminuindo essa reação química-inflamatória através das escolhas alimentares. Uma alimentação anti-inflamatória, baseada na riqueza dos vegetais, legumes, cereais, oleaginosas e frutas e na diminuição do consumo de carnes pode melhorar, de forma ampla, todas essas características de saúde. Se eu puder sugerir uma referencia sobre esse assunto, assistam o documentário “Forks Over knives” (link: http://www.forksoverknives.com/) que discute a questão alimentar de forma consciente e baseada em estudos médicos sérios.

Outro tópico abordado no artigo, é da relação Mente-Corpo, com os avanços nos estudos da Neuroplasticidade, que se trata da habilidade do cérebro e do sistema nervoso de se auto-modificar, se alterar e se “plastificar”. Essa ciência básica envolve desde estudos com células da Glia e fenômenos de sensitização central, até mecanismos mais complexos de neuroplasticidade. Nesta ciência, é evidenciado que pacientes com dor podem alterar funções no sistema nervoso, e por conseguinte, essas alterações no córtex somatossensorial podem envolver a manifestação de dores crônicas. Estratégias que tentam mudar essa fisiologia Mente-Cérebro-Corpo incluem: Meditação, Relaxamento, práticas de Biofeedback, Yôga e outras técnicas de conscientização e relaxamento, além de técnicas que possam afetar o sistema nervoso autonômico, como citado a Acupuntura.

E o ultimo tópico versa sobre a Dor Miofascial, como um tipo de dor e disfunção muito frequente e prevalente, e as vantagens da Medicina Tradicional Chinesa, a Acupuntura e o próprio agulhamento seco com agulhas de acupuntura, como técnicas que apresentam uma longa história no controle de condições médicas agudas e crônicas, incluindo a dor. A Medicina Tradicional Chinesa foi apontada como um sistema de medicina que é ancestral, complexo e detalhado. É uma medicina holística com uma visão de saúde ampla, onde ela é resultado de um equilíbrio e harmonia entre diferentes partes do corpo (ou meridianos). Para saber mais sobre Medicina Tradicional Chinesa clique aqui

Por fim, gostaria de concluir com uma frase que eu li e acredito que define bem a MI e esse novo avanço na forma de ver o paciente. Ela foi citada pela equipe de médicos que usam a MI no Hospital Albert Einstein:

“Somos capazes de participar ativamente do nosso processo de cura, apesar de não sermos educados para saber disso. A cura não vem de fora, mas de dentro – remédios, tratamentos e cirurgias são necessários para auxiliar e acelerar essa recuperação, mas não são tudo nem podem fazer todo o trabalho sozinhos.”

Obrigado pela atenção.

André Porporatti, DDS, Ms

http://www.andreporporatti.com

Cirurgião-Dentista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Mestre e Doutorando em Reabilitação Oral pela Universidade de São Paulo (USP)

Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SBDOF)

Membro da International Association for the Study of Pain (IASP)

Especialista em Acupuntura Tradicional Chinesa pelo Centro de Estudos em Terapias Naturais (CETN)

Para assistir o vídeo-aula, clique na figura abaixo!

Capa MI (André Porporatti)

 

Falando nisso…

Eu e o André fazemos parte do Grupo de Dor Orofacial da FOB-USP, com todo o time de pós graduandos, e estamos sempre juntos  no curso de Especialização em DTM e Dor Orofacial, coordenado pelo Professor Paulo Conti em Bauru. O curso começa em Outubro! Quem estiver com vontade de conhecer, entre em www.ieobauru.com.br ou ligue para Vivian no telefone (14) 32341919.