Síndrome do queixo dormente

Hoje venho contar uma história que presenciei ano passado e acredito que possa ajudar muitas pessoas.

Atendi uma paciente cuja queixa principal era dormência no queixo associada a dor na face, bilateral, em masseter. Esta dor era forte e até então, intratável. Nenhuma medicação trouxe analgesia.

Após longa anamnese e exame físico, constatei que a queixa era incomum. Isso foi muito importante. Sempre digo a todos, conheça profundamente os diagnósticos mais comuns em sua rotina e saiba também identificar quando um caso não é típico. Um dos pontos que me chamou a atenção foi que a paciente apresentava um tumor em mama, reincidente, maligno. Em duas semanas seria submetida aos procedimentos cirúrgicos.

Me lembrei dos casos que  o Prof. Reynaldo Martins Jr. de Cuiabá publicados sobre referência de dor em mandíbula por tumores. Escrevemos e estudamos tão pouco sobre dor oncológica na nossa área, não? Em contato com ele discutimos sobre a presença de Numb Chin Syndrome, em português, Síndrome do Queixo Dormente, o qual se assemelhava ao caso da paciente.

Enquanto escrevia esta postagem, encontrei via Google um texto interessante sobre isso no Facebook da página Semiologia Geral e Especializada (se o texto está bom, vamos reproduzi-lo com créditos!):

A síndrome do queixo dormente (SQD), também chamada neuropatia mentual, é neuropatia sensorial caracterizada por dormência do queixo e do lábio inferior, na maioria das vezes unilateral. Surge devido trauma, compressão ou infiltração de fibras do nervo mentual ou mentoniano. Embora incomum, adquire importância por frequentemente traduzir comprometimento ósseo metastático.
O ramo mandibular do nervo trigêmeo deixa o crâneo pelo forame oval e ramifica-se numa porção anterior motora e outra posterior sensitiva. Este último ramo progride pela mandíbula como nervo alveolar inferior o qual, ao se exteriorizar pelo forame mentual, torna-se o nervo mentual. Processos que acometam fibras desse nervo ao longo do seu trajeto podem causar SQD. Entre eles incluem-se doenças odontológicas, traumas, amiloidose, vasculites sistêmicas, esclerose múltipla, diabetes melitus, sarcoidose, anemia falciforme e AIDS. Entretanto, a causa mais comum de SQD são lesões neoplásicas metastáticas.
O acometimento ósseo metastático pode ocorrer ao nível da mandíbula e mesmo na base do crâneo. Em alguns casos o quadro é devido carcinomatose meníngea. Inúmeras neoplasias já foram associadas com a SQD, em especial tumores de mama, linfomas, tumores de pulmão, próstata, e cabeça e pescoço. Associação com leucemias aparece geralmente em crianças.
A SQD é mais comum em pacientes com diagnósticos já firmados de neoplasias, sendo em muitos casos sinal de recorrência da doença primária. Entretanto, ela também pode ser a primeira manifestação de um tumor. Entre 10 a 30% dos casos o quadro é bilateral. Nessa situação deve ser diferenciado de hiperventilação ou hipocalcemia que dão sintomatologia perioral. Via de regra a SQD se associa a prognóstico ruim, por significar doença maligna metastática.
O conhecimento da SQD pelos médicos é importante, para que não deixem de valorizar uma queixa tão sútil de doença neoplásica avançada.

Vários fatos batiam: a neoplasia era recorrente, o tumor era em mama, e a paciente se encontrava entre os 10 a 30% dos casos que são bilaterais. Mas, solicitei exames de imagem de face e crânio e não foi apontada nenhuma alteração digna de nota. Detalhe: o convênio dela não aceitou meu pedido para imagem de pescoço (vamos sempre brigar pelo nosso direito). Como estava próximo da data de cirurgia, resolvemos esperar e verificar se a sintomatologia melhorava. Entrei em contato com o oncologista e discuti isso.

A dor era intensa e não houve melhora. Os sintomas poderiam ser também relacionados a síndrome paraneoplásica, onde o sistema neurológico poderia estar acometido pelo tumor à distância. O que chamou a minha atenção é que mesmo após a remoção do tumor, a dor e dormência persistiram. É muito importante comunicar isso ao oncologista pois pode estar relacionado a presença de metástase, o que realmente aconteceu, presente na região cervical.

O profissional que trabalha com dor orofacial deve estar atento a todos os sintomas. Lembre-se das palavras do professor Pedro Moreira Filho, neurologista da Universidade Federal Fluminense: trate de forma típica, aquilo que lhe é típico. Não inicie um tratamento se não tiver diagnóstico.

Vamos ler mais sobre o assunto?

Vários artigos estão à disposição online! Separei os mais recentes. Todos com acesso gratuito!

Segue abaixo:

Intractable Facial Pain and Numb Chin due to Metastatic Esophageal Adenocarcinoma.

Numb chin syndrome as first symptom of diffuse large B-cell lymphoma.

Metastasis of prostate carcinoma in the mandible manifesting as numb chin syndrome.

Numb chin syndrome as a manifestation of non-small cell lung cancer.

Numb chin syndrome.

Unusual presentation of ‘numb chin syndrome‘ as the manifestation of metastatic adenocarcinoma of the lung.

Boa leitura!

– Marinella MA. Numb Chin Syndrome: A Subtle Clue to Possible Serious Illness. Hosp Phys. 2000; 35: 55-56.35: 55-56.

3 pensamentos sobre “Síndrome do queixo dormente

  1. Dra Juliana! São fantásticos os teus emails! Obrigada por compartilhar teu conhecimento! Um tema que nunca eu tinha escutado e tão atual!
    Grata,
    Larissa Ballardin

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  2. Muito obrigada por compartilhar este artigo. Realmente de extrema importância .Grde abraço

  3. Muito obrigada Juliana por mais esse ensinamento!!! Abraço e obrigada
    Beatriz Appezato (Campinas)

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