Relação entre Apneia do Sono e DTM

Eu sempre termino a minha aula de sono e sua relação com DTM com um slide do professor Peter Svensson que chama a atenção para que a análise dos distúrbios do sono seja mais ampla em pacientes com DTM, e não só condicionada a bruxismo do sono como tradicionalmente é realizada por aí.

Aliás, acho que hoje a Odontologia acordou para a existência de outros distúrbios do sono, em especial, da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono  (SAOS) que traz prejuízos consideráveis  a qualidade de vida e também às estruturas dentárias do paciente. SAOS é um problema grave!

Mas voltando ao tema principal da postagem, com relação à DTM, já  falei sobre o estudo do Prof. Smith que relatou em um grupo de pacientes com dor miofascial mastigatória a presença de insônia e SAOS em maior porcentagem do que bruxismo do sono, após exame com polissonografia.

Mas este era um estudo observacional, num grupo pequeno de pacientes com dor miofascial segundo o RDC.

Pois bem, este mês saiu mais um estudo da pesquisa OPPERA.

(o estudo OPPERA é financiado pelo National Institute of Health (NIH) – o ministério da saúde dos EUA. É um estudo prospectivo do tipo coorte, para investigar fatores etiológicos ligados a incidência de DTM. Também tem um braço inicial, transversal, observacional, caso controle que compara pacientes com DTM crônica a indivíduos saudáveis. Foi realizado em 4 centros americanos: Baltimore, Maryland; Buffalo, New York; Chapel Hill, North Carolina e Gainesville, Florida. Mais sobre ele aqui).

Neste estudo os pesquisadores procuraram estimar a relação entre sinais e sintomas de SAOS e DTM crônica (caso-controle) e também quando os sintomas de SAOS precedem o aparecimento de DTM (coorte).

Para o estudo coorte (após exclusões) foram avaliados 2604 pessoas assintomáticas para DTM, com idade entre 18 e 44 anos. Foram acompanhadas a cada 3 meses (número 1 na figura). Destas 248 pessoas desenvolveram DTM, uma incidência de 3.5% ao ano.

O braço caso-controle avaliou no início da pesquisa 182 pessoas com DTM sintomática a pelo menos 6 meses e comparou com 1534 indivíduos assintomáticos (número 2 na fugura).

O que foi considerado DTM sintomática em ambos braços: RDC/TMD adaptado. Dois critérios necessários: (1) mais de 5 dias/mês de dor em estruturas mastigatórias (2) presença artralgia ou mialgia confirmadas. Aqui a minha crítica ao estudo: os resultados falam em DTM sintomática mas não podemos falar em articular ou muscular. Quem sabe os próximos estudos não mostrem algo.

E o que foi considerado sinal ou sintoma de SAOS. Enfim, infelizmente por mais dinheiro que se tenha em uma pesquisa (lembrando que nos EUA eles pagam voluntários), foi inviável realizar polissonografia em todos os participantes envolvidos (façam as contas). Então, os pesquisadores utilizaram o questionário de avaliação da qualidade de sono de Pittsburg – link aqui – e extraíram de lá 3 perguntas sobre ronco audível, sonolência diurna e apnéia assistida. Além disso procuraram histórico médico de hipertensão. Juntos estes itens formam um questionário de triagem para SAOS, o STOP, que foi validado contra a polissonografia e apresenta sensibilidade e especificidade de aproximadamente 0.60. Isso pode ter gerado falso positivos, mas tanto os casos como os controles estavam sujeitos a isso.

Continuando, vamos ao que interessa, o que eles encontraram:

1. Sinais e sintomas de SAOS foram associados com um aumento na incidência de DTM pela primeira vez

2. Pessoas com 2 ou mais sinais e sintomas de SAOS apresentaram 73% mais casos de DTM, em comparação àqueles com poucos sinais e sintomas. E isso independente de idade, gênero, raça, obesidade, ser ou não fumante e parâmetros autonômicos.

3. DTM crônica foi 3 vezes mais frequente entre adultos com probabilidade de apresentar SAOS.

Os autores relataram três mecanismos pelo qual a SAOS estava linkada a DTM: (1) sensibilização central e amplificação da dor; (2) estimulação do sistema autonômico; (3) relação, embora controversa, com bruxismo do sono secundário a presença de SAOS.

O que este estudo mostra é algo que já estamos verificando na clínica: pacientes com SAOS apresentam graves consequências, entre elas sonolência diurna, sono não reparador. Lembre-se que uma boa noite de sono é essencial para liberação de neurotransmissores que irão participar da modulação da dor, além do restabelecimento das estruturas.

Enfim, espero que esta postagem sirva de alerta aos que avaliam os pacientes com dor orofacial. Verifiquem a presença  de sinais e sintomas de distúrbios do sono além de verificarem bruxismo. Quando necessário encaminhem seus pacientes para avaliação com um profissional habilitado em Medicina do Sono. A Associação Brasileira de Sono em seu site apresenta uma lista de médicos e cirurgiões dentistas certificados. Consulte aqui.

Por hoje é só. Se deixar escrevo um livro sobre isso! 🙂

Agora eu queria ver este estudo verificando relação de DTM com outros distúrbios do sono! A gente sempre quer mais. Mais sobre estudos OPPERA  aqui

 

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