Bruxismo X DTM

Na aula que ministro sobre Bruxismo, sempre quando o tema recai na relação entre Bruxismo X DTM relato que os estudos realizados, que verificaram esta associação, não são capazes de detectá-la.

Pois fazendo uma busca simples sobre bruxismo me deparei com um artigo publicado no mês de Junho, de Lobezoo e Manfredini. Trata-se de uma revisão sistemática sobre esta associação. (Link: http://www.ooooe.net/article/S1079-2104(10)00096-X/abstract )

Para tentar resumir o que eles encontraram nesta relação tão controversa:

  • relataram a dificuldade da comparação dos estudos: a metodologia (presença de bruxismo, classificação da DTM) mudou através dos anos, o que dificultou a comparação dos resultados. Até mesmo pelos estudos serem tão diferentes, não foi possível verificar se  apertar ou ranger os dentes teria relação com ou outro tipo de DTM.
  • Verificaram que o relato de apertar dentes ou o diagnóstico clínico estiveram associados com dor por DTM, mas não se deve afirmar que há relação pois (mais uma vez a metodologia) o relato do paciente carrega em si um viés grande para a pesquisa e também há um fator de confusão no diagnóstico de bruxismo nestes questionários, já que dor na face pode ser um critério para a presença de bruxismo. Assim, muitos considerados bruxistas teriam dor…
  • O desgaste dos dentes anteriores não é um fator de risco para DTM #fato.
  • Outra coisa que relato também na minha aula, os experimentos em que se reproduz o apertamento dental provocam uma dor aguda na musculatura, mas que dura pouco tempo e não parece ser um gatilho para dor crônica.

Baseado em tudo isso, o que eles concluíram? Que estudos com metodologia adequada devem ser realizados… Infelizmente ainda não foi publicado um estudo definitivo.

Quando eu fiz um levantamento para a aula encontrei uma série de estudos de associação.

Alguns resultados:

  • —Relato de BS foi associado a dor miofascial (OR 4.8) e à artralgia (OR 1.2) (Huang et al., 2002) —
  • Estudo prospectivo com acompanhamento de 20 anos, mostrou que BS estava associado à sinais e sintomas de DTM (Carlsson et al., 2002) —
  • Pacientes que relatam BS há mais tempo apresentaram chance maior de apresentar dor em região de crânio e face (Camparis; Siqueira, 2006) —
  • Em estudo com amostra de 12648 pessoas com idade entre 50 e 60 anos mostrou que o relato de bruxismo seria indicador de risco para dor craniofacial (Johansson et al., 2006).

Estes estudos apresentaram limitações que impedem que seus resultados fossem definitivos, entre eles:

  • —Não se conclui sobre a relação causa-efeito
  • —A maioria dos estudos utiliza o relato do paciente, inclusive para avaliar frequencia e intensidade do bruxismo do sono
  • —Muitos estudos não distinguem bruxismo do sono daquele realizado em vigília

Procurei então  ler os artigos que tentaram verificar a relação entre bruxismo do sono e DTM, onde ferramentas validadas são utilizadas no diagnóstico de bruxismo, no caso, polissonografia. Na figura abaixo coloco os artigos então lidos. Destaque para o fato de que de 5 artigos, 3 foram produzidos no Brasil!

O que eu verifiquei nestes estudos é  uma associação fraca entre bruxismo do sono X DTM. Isso considerando os estudos que utilizaram o método considerado gold standart, a polissonografia.

Ainda, bem interessante também, foi o estudo de Smith e colaboradores, que está disponível online (grátis!!).

Resumindo: avaliaram 53 participantes com dor miofascial por questionários, exame físico, limiar de dor térmico, algometria e polissonografia. Um dos achados foi que de 73,6% das participantes que relataram bruxismo pelos critérios da Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (segunda edição), 17,3% apresentaram eventos de bruxismo durante a polissonografia. Insônia foi o distúrbio do sono mais presente, seguido de síndrome da apnéia obstrutiva do sono e só depois bruxismo… Ainda, somente a privação do sono foi associado a hiperalgesia. O que podemos pensar sobre isso?

Hipótese: apertamento em vigília, associado a um sono não reparador: mais dor. Será que não está na hora de avaliarmos e controlarmos melhor o bruxismo em vigília? Deixo esta pergunta no ar!

Bom final de semana!


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Comments

11 respostas a “Bruxismo X DTM”

  1. Avatar de Ricardo Tanus
    Ricardo Tanus

    O meu questionamento é: Será que podemos confiar nas polissonografias também para diagnóstico de BS.Sabemos que mesmo sendo gold standart tem inúmeras deficiências,citadas até mesmo por quem talvez seja o maior pesquisador de BS do mundo:Lavigne!
    Portanto, acho que voltamos de novo ao marco zero quando falamos de Bruxismo ! Tudo é complexo e apenas hipóteses de tentativas e erros…
    Ricardo Tanus

  2. Avatar de julianadentista

    Olá Ricardo, obrigada pela visita ao site!
    Quando citei polissonografia eu a citei sua utilização em pesquisas. Nestas a utilização da polissonografia é considerada padrão ouro. Claro que ainda não tem sensibilidade e especificidade de 100%, mas no momento é o padrão ouro. As demais ferramentas que surgem para o diagnóstico clínico de bruxismo fazem a comparação com a polissonografia.
    Agora extrapolar para o uso clínico é outra questão. O fato do paciente dormir apenas uma noite na clínica, associado ao fato de nem sempre o técnico realizar o exame com as especificações para o bruxismo ( o que de fato acontece em alguns exames) além do alto custo torna difícil a sua utilização.
    Abraços!!

  3. Avatar de Emanuella Rocha
    Emanuella Rocha

    Oi juliana, como vai? Faço especialização de DTM e DOF e participo GRUPO DE ESTUDO ODONTOLOGIA DO SONO e do grupo de dtm e dof do google, q vc participa tb, pois vejo q vc manda alguns artigos. Gostaria de pedir se vc tem como disponibilizar estes artigos sobre bruxismo x dtm? Obrigada

  4. Avatar de Distúrbios respiratórios do sono X Dor orofacial « Por dentro da Dor Orofacial

    […] Foi engraçada a escolha deste tema. Baseou-se muito mais na minha vivência clínica do que nos achados da literatura. Tudo começou ano passado quando falei sobre os Distúrbios do Sono X Dor Orofacial. Como já citei aqui, o artigo produzido pela equipe do Prof. Smith chamou minha atenção pelo fato … […]

  5. Avatar de Resumo sobre bruxismo « Por dentro da Dor Orofacial

    […] no Pubmed dos artigos que ainda não tenho do Prof. Gilles Lavigne do Canadá. Também já relatei aqui no blog o quanto admiro seus […]

  6. Avatar de Pacientes associam bruxismo a DTM? « Por dentro da Dor Orofacial

    […] escrevi neste blog sobre a relação DTM e Bruxismo. Associar estas duas condições implica em acreditarmos que reduzindo eventos de bruxismo, […]

  7. Avatar de Vitor H Panhóca

    Gostaria de agradecer em meu nome e da APCD de São Carlos a brilhante palestra proferida em nosso Congresso.
    Forte abraço.

    1. Avatar de julianadentista

      Obrigada vocês! Adorei a recepção em São Carlos. Aproveitando, coloquei seu site nos links dos sites que atendem Dor Orofacial!
      Abraços

  8. Avatar de Dilana Oppitz Kochenborger

    Oi Juliana, td bem? Como vc, passo horas e horas pesquisando sobre assuntos ligados aos Transtornos do Sono e entre eles Apneia e Bruxismo. Sou professora do Instituto Odontocenter de Passo Fundo – RS e integrante do GEOS (Grupo de Estudos de Odontologia do Sono). Gostaria de poder ler os 5 artigos do quadro sobre BS e DTM. Vc poderia me fazer o favor de passá-lo pra mim? Não pude identificá-los neste quadro apresentado. Desde já agradeço tua atenção; Dilana

  9. Avatar de Carlos Baraldi
    Carlos Baraldi

    muito bom Dra Juliana, mais uma vez… calafrios aumentarão ainda mais quando eu ouvir a expressão `placa de bruxismo`… Sono reparador, sem nariz entupido (nós dentistas podemos ajudar nisto), em posição, cama e travesseiro confortáveis… já leram o capítulo sobre sono do livro do Nuno Cobra?

  10. […] Bruxismo é o hábito de ranger os dentes, o que pode acontecer durante o sono ou mesmo acordado. Dá pra dizer que bruxismo causa DTM (ou o contrário)? Não. Associar estas duas condições implica acreditarmos que reduzindo eventos de bruxismo reduzem-se  sintomas relacionados à DTM. Porém, essa associação ainda não foi comprovada pela literatura. […]