Oi, pessoal.
Todo ano, a IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor) elege um tema para ser o Ano Global. Já tivemos, por exemplo, o Ano Global da Educação em Dor, o Ano Global da Dor Musculoesquelética, e assim por diante. E em 2026, o tema escolhido é o Ano Global da Dor Neuropática — justamente para a gente compreender melhor esse tipo de dor.
Eu sou uma entusiasta desse assunto. Na minha opinião, nós, da odontologia, falamos pouco sobre dor neuropática — e precisamos falar mais. Até porque existe um tipo de dor neuropática que pode estar por trás de dores persistentes pós-tratamento odontológico, como a dor neuropática pós-traumática trigeminal.
Além disso, existe uma condição bem específica, a neuralgia do trigêmeo, que ainda confunde muito o cirurgião-dentista. Muitas vezes, o profissional acha que é uma odontalgia, quando na verdade é neuralgia do trigêmeo — e isso acontece, em parte, por falta de familiaridade com essa condição. E ainda existem outros tipos de dores neuropáticas orofaciais que podem afetar a nossa área e que nós devemos aprender a diagnosticar e, principalmente, orientar o paciente.
Por isso, é muito importante ficarmos de olho nesse Ano Global que a IASP trouxe para 2026. Vamos falar um pouquinho sobre isso.
A IASP apresenta o Ano Global de 2026 com o tema: “Dor neuropática: compreendendo a complexidade, avançando no tratamento e transformando vidas.”
Eles também destacam a prevalência: cerca de 7 a 10% (1 em cada 10 adultos) podem ser afetados por dor neuropática (considerando o corpo inteiro).
Quando a gente olha especificamente para a dor neuropática pós-traumática trigeminal, a realidade do consultório muda um pouco: dentro do consultório do especialista em DTM e dor orofacial, do implantodontista, do endodontista, e também do cirurgião bucomaxilofacial, isso pode chegar a cerca de 1% dos casos pós-tratamento odontológico.
E alguém pode pensar: “Mas 1% é pouco…”. Às vezes é até menos, e pode ser que você passe a vida inteira sem ver um caso. Mas eu te garanto: quando você vê um caso desses, você não esquece. E só acontece com quem faz. Não é uma questão de “técnica ruim” ou falta de rigor técnico. Qualquer pessoa pode estar em risco de ter uma lesão neuropática — e, em alguns casos, uma lesão acompanhada de dor. Ou seja: não é algo do qual a gente esteja totalmente imune durante tratamentos odontológicos.
E aí entra a pergunta: o que é dor neuropática?
Dor neuropática é uma dor causada por uma lesão ou uma doença do sistema somatossensorial.
A gente sabe que o sistema nervoso é responsável pela transmissão dos estímulos — estímulos químicos que viram estímulos elétricos, passam por sinapses e se propagam pelo corpo. A dor neuropática é algo que danifica esse sistema, seja no sistema nervoso periférico, seja no sistema nervoso central.
No nosso caso, quando falamos de dor orofacial neuropática, normalmente estamos lidando com dores neuropáticas periféricas. Até mesmo a neuralgia do trigêmeo é considerada, aqui dentro desse contexto, uma dor neuropática periférica, porque frequentemente o que é afetado é o sistema nervoso periférico — por exemplo, após um tratamento odontológico.
E é uma experiência, gente, muito ruim, que atrapalha demais a qualidade de vida. Os pacientes costumam relatar um tipo de dor diferente daquela que o cirurgião-dentista está habituado.
- Dor odontogênica, muitas vezes, é descrita como pulsátil, latejante.
- Dor na ATM pode ser pontada, e a dor muscular muitas vezes é descrita como pressão.
Já na dor neuropática orofacial, os descritores que aparecem com frequência são:
- queimação,
- pontadas muito fortes,
- e, no caso da neuralgia do trigêmeo, aquele choque elétrico.
E essas crises podem ser intermitentes ou contínuas. A dor pode ser contínua, persistente e de difícil tratamento. E o “peso” disso — o impacto na qualidade de vida — pode ser muito grande.
Muitas vezes, a pessoa entra para fazer um procedimento (frequentemente odontológico) e, ao final, inicia uma dor. Às vezes, o cirurgião-dentista tenta “esperar passar”, pensando que é dor pós-operatória normal, mas pode ser uma neurite — e isso pode evoluir para uma dor neuropática pós-traumática trigeminal.
Isso traz um impacto enorme, porque muitas vezes é uma dor contínua, presente na maior parte do tempo. Em alguns casos, o impacto pode ser mais leve, mas o que eu acompanho no consultório é que, com frequência, o impacto é pesadoe compromete muito a qualidade de vida.
E aqui vai um ponto fundamental: quanto antes for feito o diagnóstico, melhor o prognóstico. Eu não diria “fácil”, mas o prognóstico fica melhor e a gente consegue conduzir o tratamento com mais chance de ajudar de forma consistente.
Por isso, eu vejo esse Ano Global como uma missão. A IASP escolheu esse tema e eu acho isso extremamente proveitoso. Nós, da odontologia, precisamos entrar nessa conversa, conhecer mais sobre o assunto e falar sobre isso — tanto para otimizar a pesquisa quanto para melhorar o atendimento clínico.
Conscientizar e educar profissionais de saúde, pacientes e o público em geral vai ser muito importante.
Eu não sei se esses webinars estão abertos para não membros, mas eu vou trazer tudo o que eu puder por aqui. A ideia é: vamos nos juntar à conversa. Vamos falar sobre o Ano Global de 2026, para melhorar a pesquisa e para fazer com que você, cirurgião-dentista, ouça mais sobre isso e comece a identificar esses casos no consultório — para que os pacientes não fiquem “pulando de galho em galho”, sem saber a quem recorrer.
É isso que a IASP vem trazendo sobre o Ano Global da Dor Neuropática.
Até a próxima!


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