Eu sempre falo: “conhecimento liberta” , “se você tá em dúvida, vá no PubMed, faça uma busca, leia um artigo científico”, “use o Open Evidence.com,” … mas eu fiquei pensativa hoje. Estava aqui pegando alguns trabalhos para gravar sobre novidades da ciência e me deparei com dois artigos recentemente publicados que eu achei interessante, mas quando eu fui ler os artigos, eu pensei:
“Oh, gente, mas como que um artigo desse é publicado? Como que um artigo desse tá disponível? Se as pessoas sem o mínimo de conhecimento em leitura de trabalho científico vai vão encarar isso aqui como uma verdade plena”.
São artigos com problemas metodológicos graves.
Me lembrei do professor Leonardo Costa (@leocosta_pbe no Instagram). Ele estuda saúde baseada em evidências e tem um curso de como ler um trabalho científico, indicando entre outras coisas, o que você deve observar quando faz a leitura de um trabalho.
Eu considero extremamente saudável que o clínico desenvolva esse olhar crítico. Por quê? Porque o clínico precisa aprender a separar o joio do trigo e não acreditar em tudo o que lê. Hoje, com a inteligência artificial cada vez mais presente, acredito que esse problema tende a se intensificar. A IA está aí, é uma ferramenta poderosa, mas, se usada sem critério, pode levar à divulgação de informações que simplesmente não são realistas. Muitas vezes a pessoa publica algo no Instagram, cita um “artigo científico” e, quando questionada, vem aquela resposta clássica: “Ah, mas está publicado…”.
E aí eu pergunto: você leu o trabalho?

Quero mostrar exatamente isso usando dois artigos recentes, ambos publicados na mesma revista. Trata-se de uma revista indexada no PubMed, com fator de impacto em torno de 2,9 e boas citações — à primeira vista, algo que passa credibilidade. No entanto, quando olhamos com mais atenção, começam a aparecer alguns pontos preocupantes.
Primeiro: os artigos são pagos pelos autores. Tudo bem, esse é um modelo que muitas editoras têm adotado para se manter financeiramente. O problema é que essa revista pertence à uma editora, que já foi bastante criticada e frequentemente classificada como uma editora predatória. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi o processo de revisão extremamente rápido. Gente, isso não condiz com uma boa revisão científica. A revisão por pares é, ou deveria ser, um processo meticuloso, cuidadoso, que exige tempo. Quando você vê que o artigo foi revisado em dois ou três dias e rapidamente aceito, isso acende um alerta enorme. Confesso que fiquei bastante preocupada quando vi isso.
Além disso, não é uma revista especializada. Ela publica artigos de medicina de forma geral, de áreas completamente diferentes. Você encontra, por exemplo, estudos sobre lesões pancreáticas misturados com temas de enfermagem, rinite e, no meio disso tudo, surgiram recentemente dois trabalhos da nossa área.
O primeiro deles trata da prevalência de bruxismo em adultos jovens que consomem bebidas energéticas. Achei o tema interessante. O artigo foi recebido em 24 de novembro, revisado em 19 de dezembro, aceito em 24 de dezembro e publicado no dia 26. Ou seja, em cerca de um mês o trabalho já estava aceito e publicado. Achei rápido demais.
Fui então ler o artigo com mais cuidado. Do ponto de vista metodológico, ele não traz nada de extraordinário: é um estudo epidemiológico, com uma amostra grande — cerca de 300 indivíduos que consomem energéticos e pouco mais de mil que não consomem. Até aí, tudo bem. O problema começa quando olhamos os resultados.
Eles falam em “comportamentos de bruxismo”, mas não separam quem realmente apresenta ou não bruxismo, nem especificam o tipo: bruxismo do sono? Bruxismo em vigília? Não fica claro. Nos resultados, consta que 19,4% dos consumidores apresentaram “comportamentos de bruxismo”. Mas que comportamento é esse?
O mais estranho é que não há uma apresentação clara dos dados do grupo que não consome energéticos. Não sabemos qual foi a prevalência de bruxismo nesse grupo. Não há essa comparação direta. O que aparece é apenas o teste qui-quadrado, que inicialmente parece altíssimo, mas quando entra na regressão logística, o odds ratio cai drasticamente. Sinceramente, eu não consegui entender essa inconsistência. Juro que achei uma das coisas mais bizarras que já vi em termos de resultados e análise estatística. Ainda assim, o artigo associa consumo de energéticos a bruxismo, dor, desgaste dentário e abrasão.
Confesso que isso me deu uma mistura de cansaço e tristeza. E o pior: eu sei que muita gente vai ler esse artigo e sair citando por aí como se fosse uma verdade absoluta.
O segundo trabalho aborda o uso de canabidiol no controle da dor por disfunção temporomandibular. Eu li o artigo inteiro. O método, à primeira vista, parece interessante, mas quando você entra nos detalhes, surgem vários problemas. Por exemplo, eles avaliam dor por DTM utilizando eletromiografia de superfície do músculo masseter.
Gente, como assim? Para avaliar dor, existem ferramentas muito mais adequadas e básicas: escala visual analógica, palpação, critérios clínicos bem estabelecidos. O que eles fazem é misturar dor, bruxismo e atividade eletromiográfica. Falam em bruxismo do sono, mas realizam a eletromiografia durante o dia. Isso simplesmente não faz sentido do ponto de vista metodológico.
E tem mais: o estudo não tem grupo controle. Eles avaliam os pacientes antes, utilizam a medicação por três semanas e depois reavaliam. Sem grupo controle, não dá para saber se a mudança observada é efeito da intervenção ou de outros fatores. Além disso, sabemos que a atividade eletromiográfica pode mudar apenas pelo fato de o paciente já estar familiarizado com o exame na segunda avaliação. Ou seja, é um desenho cheio de vieses.
Mesmo assim, o trabalho está publicado, será citado e provavelmente usado como argumento em discussões clínicas. Isso me incomoda profundamente.
Por isso, eu sempre repito — e aqui faço coro a uma frase do professor Leonardo Costa: leia o artigo inteiro. Leia os métodos. Não dá para pular essa parte. Isso é o básico do básico do básico. E você não precisa ser pesquisador para entender isso. Mas, se você é clínico, escolhe terapias, métodos diagnósticos e condutas todos os dias, não adianta apenas ouvir o “guru” ou o professor da vez. É fundamental aprender o mínimo para conseguir diferenciar o que é bom do que é ruim.
Quando fui olhar os comentários dos revisores, a situação ficou ainda mais preocupante. Há pontos fundamentais que não foram questionados, como a ausência de grupo controle. Em alguns casos, parece claro que o revisor sequer entende de bruxismo — o que é compreensível quando falamos de uma revista de medicina clínica geral, mas extremamente problemático para trabalhos tão específicos.
É isso. Esse tipo de problema existe, está cada vez mais frequente e exige de nós, clínicos, um olhar crítico e responsável.
Em breve teremos uma plataforma digital onde farei vídeos semanais sobre este e outros assuntos! Alias, o vídeo deste assunto já foi gravado!
Fique de olho! Por Dentro da Dor Orofacial vai se transformar de novo!


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