Uso da toxina botulínica em casos de bruxismo do sono em crianças

Hoje eu vou ceder o espaço para que a professora Adriana Lira Ortega escreva sobre um tema que está me preocupando muito: o uso indiscriminado da toxina botulínica, sem critérios, no tratamento de bruxismo do sono em crianças.

Apenas, antes de passar a palavra, queria lembrá-los que postei há algum tempo aqui sobre bruxismo infantil. Por favor, se informem a respeito desta condição antes de aceitarem qualquer terapia na tentativa de reduzir barulhos ao dormir. Procure saber o que é bruxismo. Procure saber o que é bruxismo primário. Procure saber que em crianças é comum o diagnóstico de bruxismo secundário a obstrução nasal (e o tratamento deve nestes casos privilegiar estas condições). Procure saber mais sobre bruxismo! Clique aqui para ler todas as postagens feitas neste blog sobre este assunto!

Com a palavra, Dra. Adriana:

Ultimamente tenho percebido um avanço no uso da toxina botulínica em crianças e hoje uma colega me perguntou se eu uso e resolvi escrever alguma coisa sobre o assunto, já que ela não foi a primeira a perguntar. Em crianças com distúrbios neuromotores ou neuropsicomotores eu indico sob determinadas condições.

Não aconselho esse emprego em crianças normorreativas porque ainda tenho muitas dúvidas…

  1. Já é questionável dizer “tratamento” como muitos dizem: o bruxismo não seria tratado com a aplicação da toxina, uma vez que sua origem é central. Ou seja, o estímulo neurológico para que o músculo contraia continuaria existindo com ou sem a toxina. O que ocorre é a diminuição da contração muscular e, no caso, em masseter e temporal. E os pterigoideos? Não havendo aplicação em pterigoideos, a lateralidade continuaria a existir.
  2. Diminuindo a eficiência muscular com a aplicação em masseter e temporal, ainda assim não seria suficiente para evitar o contato e a atrição dos dentes durante o ranger. Se houver diminuição da força muscular a ponto de não haver atrito, também haverá prejuízo na mastigação, o que não é desejável. E se não impede o contato, a placa tem que ser usada pq é o que evita o desgaste da estrutura dental. Ou seja, a toxina não dispensaria o uso da placa.
  3. A ação da toxina não é reversível para o neurônio lesado (lembrando que os procedimentos reversíveis são os mais indicados para os pacientes). A contração muscular que volta acontecer é resultado da neuroplasticidade: depois que a liberação da acetilcolina pelo neurônio é bloqueado pela toxina, uma nova junção neuromuscular é formada para suprir a ausência da primeira. Em modelo animal, essa regeneração neuronal é lenta e os autores questionam se não há um limite para essa plasticidade (ROGOZHIN et al., 2008). Levantar essa questão é necessária uma vez que é percebido nos resultados clínicos a longo prazo: aumento do espaço de tempo entre as aplicações.
  4. Me preocupa um pouco os resultados a longo prazo. Se o bruxismo é de origem central então seria necessário reaplicações da toxina, uma vez que o paciente não pararia de ranger. A toxina já promove atrofia neurogênica de fibras musculares em uma única aplicação (SCHRODER et al., 2009) e estudo longitudinal com crianças com paralisia cerebral afirma que repetidas aplicações da toxina apresentam resultados funcionais, com diminuição do tônus muscular (TEDROFF et al., 2009). Isso é desejável em crianças com paralisia cerebral porque elas têm o tônus aumentado. Em crianças normorreativas não consigo perceber nenhum benefício nessa diminuição permanente de tônus.
  5. Pensando no condicionamento psicológico das crianças para o atendimento odontológico (e isso é muito importante!), como é a aceitação delas em relação ao procedimento?

Alinhada com a conduta da Odontologia baseada em Evidências Científicas e com os conceitos da mínima intervenção não vejo, por hora, motivos plausíveis para indicar injeções de toxina botulínica para crianças com bruxismo do sono.

No entanto, reforço minha postura de flexibilidade para mudar de opinião assim que tiver conhecimento de outros resultados, inferências e conjecturas que, de forma contundente, contradigam meu raciocínio atual.

Referências

Rogozhin AA, Pang KK, Bukharaeva E, Young C, Slater CR. Recovery of mouse neuromuscular junctions from single and repeated injections of botulinum neurotoxin A. J Physiol. 2008;586(13):3163-82.

Schroeder AS, , Ertl-Wagner B, Britsch S et al. Muscle biopsy substantiates long-term MRI alterations one year after a single dose of botulinum toxin injected into the lateral gastrocnemius muscle of healthy volunteers. Mov Disord. 2009;24(10):1494-503.

 

Tedroff K, Granath F, Forssberg H, Haglund-Akerlind Y. Long-term effects of botulinum toxin A in children with cerebral palsy. Dev Med Child Neurol. 2009;51(2):120-7.

 

Para quem quiser saber mais sobre bruxismo e DTM em Odontopediatria, dia 24 de maio acontecerá um evento em São Paulo! Clique na figura abaixo para mais informações.

Obrigada Adriana por todo ensinamento! Você é muito generosa!

 

curso infantil

5 pensamentos sobre “Uso da toxina botulínica em casos de bruxismo do sono em crianças

  1. Olá profe Juliana.
    Não sou dentista e sim fonoaudióloga, também me preocupo com o uso indiscriminado da toxina.Tive pacs em comum com dentistas que aplicaram a toxina, mas com o tempo o efeito foi sendo cada vez menor, e sem resolução do problema. sem contar que quando aplicado errado, é uma lástima.

  2. Bom dia Juliana! Sou odontopediatra, e esse é um tema em alta agora. Muitas mães me perguntam. Como tenho um blog pra compartilhar informações sobre odontopediatria com os pais dos meus pacientes, gostaria de saber se posso repostar esta entrevista lá. Claro que com os devidos créditos e com um link para o seu post aqui.
    Parabéns pelo blog, muito bom. Excelentes textos elucidativos. Desde já agradeço sua atenção.
    Att
    Valquiria Moura

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