Barodontalgia: dor em dente por diferença em pressão atmosférica.

Hoje vou escrever sobre barodontalgia. Mas antes vou contar como este tema surgiu em meu pensamento….

Sempre que viajo de avião levo um chiclete na bolsa. Isso porque eu sofro na maioria dos voos com as variações de pressão atmosférica e ontem não foi diferente.

O que acontece é que as variações repentinas de pressão que se verificam durante um voo fazem com eu sinta dor ou que meu ouvido fique tampado. A pressão no ouvido médio pode ser equilibrada respirando com a boca aberta, mascando chiclete ou engolindo. Infelizmente em mim estas manobras não funcionam 100%. Esta situação foi ainda pior quando eu estava resfriada e estava em um voo em direção ao Rio de Janeiro. Ao se aproximar do aeroporto Santos Dumont tive vontade de simplesmente cortar minha cabeça tão forte foi a dor!

As pessoas que tenham uma infecção ou uma alergia que afete o nariz e a garganta podem sentir queixas quando viajam de avião ou mergulham. Um descongestionante alivia a congestão e ajuda a abrir as trompas de Eustáquio, igualando a pressão em cada um dos lados dos tímpanos. Mas pergunte se eu tinha um na bolsa! Claro que não! Só o chiclete básico que de nada adiantou neste dia…

Mas pensando nisso durante a viagem de carnaval, mascando o chiclete na aterrissagem no Rio de Janeiro (trauma do Santos Dumont e também do Salgado Filho em Porto Alegre!), me lembrei de uma condição de dor dentária pouco relatata que é a barodontalgia.

Pouco vi na literatura científica até hoje sobre o assunto. Resolvi jogar o termo no pubmed e os resultados mostraram 31 artigos, a maioria relato de casos e algumas revisões.

A última revisão foi publicada por Yehuda Zadik de Israel na revista Triple O, intitulada “Barodontalgia: what have we learned in the past decade?”. Deste artigo, que disponibilizarei logo abaixo para vocês fazerem download, extrai algumas informações para um resumo informativo:

Definição: a barodontalgia é um tipo de dor orofacial relacionada a alteração da pressão atmosférica que ocorre nos dentes.

Classificação: a dor pode ser indireta (não relacionada a problemas dentários) ou direta (relacionada a problemas dentários). Esta última pode ser classificada em 4 subclasses de acordo com as condições e sintomas pulpares e/ou periodontais: (1) pulpite irreversível; (2) pulpite reversível; (3) polpa necrótica; (4) patologia periapical.

Prevalência e incidência: comum em duas situações: mergulho e voos. As taxas de incidência durante o mergulho variam entre 9,2 a 21,6%. Já durante voos, a barodontalgia acontece em cerca de 11% dos aeronautas, com taxa de 5 episódios a cada 1000 voos por ano. A barodontalgia já foi relatada durante escaladas e também em câmaras hiperbáricas mas não há dados suficientes ainda sobre estas condições.

Fatores associados: Durante o mergulho a dor aparece a uma profundidade maior ou igual a 33 pés e afetam mais dentes superiores do que inferiores. A maioria dos epidódios ocorre quando o megulhador está descendo a esta profundidade. Durante voos, tanto dentes superiores como inferiores parecem ser afetados, bem como isso ocorre tanto ao subir como descer, sendo relatada à altitudes de 3000 a 25000 pés.

Etiologia: A maioria dos casos está associada a um “despertar” de uma condição subclínica pulpar e/ou periodontal previamente presente. Barosinusite em casos de voos foram a causa da dor em 9,7% dos casos. Casos relacionados a barotite e a barotrauma dental (quando ocorrem fraturas em resturações ou tecido duro dental pela diferença na pressão atmosférica) também já foram relatados. Quando associados a barossinusite e a barotite, a dor é referida ao dente, sendo classificado como dor indireta.

Diagnóstico: parece que 14,8% dos casos não são diagnosticados. No processo de diagnóstico, frente ao paciente com dor, o profissional deve questioná-lo sobre tratamentos odontológicos recentes, sintomas que precederam a dor (por ex., ouvido tampado), início e alívio da dor (descendo ou subindo) e as características desta dor (para lembrar, postagem sobre anamnese sobre dor). Durante o exame, deve-se avaliar fraturas em restaurações, lesões de cáries, realizar testes de vitalidade pulpar, necessidade de radiografias, presença de sinusite e dor em ATM e músculos mastigatórios, ou seja, realizar o exame físico odontológico de forma completa!

Patologia: ainda oculta por falta de dados e de pesquisas. O que se relata é a maior relação da barossinusite e a dor em dentes superiores (dor indireta) durante o mergulho e a dor direta no caso de voos. Lembre-se porém, que ambas situações, direta ou indireta, podem ocorrer.

Prevenção: os autores lembram que todos devemos ser submetidos a exames odontológicos periódicos. Indica, no caso desta população, exames com radiografias panorâmicas com intervalos de 3 a 5 anos. Atenção especial com patologias periapicais, fraturas em resturações, cáries secundárias e dentes desgastados. Restrição ao mergulho e voos logo após procedimentos dentais e cirúrgicos também é uma ótima ferramenta de prevenção.

Leiam o texto completo aqui!

Fonte: Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod 2010;109:e65-e69

Alguém já sofreu como eu???