Hipervigilância: quando a ansiedade interfere na parafunção

Falta exatamente uma semana para o Dia do Bruxismo comigo e com a super Adriana Lira Ortega! Sábado que vem, neste horário, estaremos reunidos em São Paulo para conversar durante o dia todo sobre isso! E eu estou super ansiosa, já preparando o material que ficará disponível ao pessoal que fizer o curso. E como ansiedade é o que está dominando aqui, resolvi escrever sobre isso!

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Sabemos que os processos afetivos podem interagir com nocicepção e dor, por exemplo, nos mais variados níveis como: geração, modulação e resposta à dor. A ansiedade é um destes aspectos que influenciam o comportamento e a reposta do indivíduo frente a um estímulo. Para entender melhor a relação com dor, eu sugiro a vocês a leitura do capítulo 9 do livro Functional Pain Syndromes: presentation and pathophysiology, publicado pela IASP. Este livro é maravilhoso e tem em formato digital também!

Bem, neste capítulo citado, os autores Bruce Naliboff e Jamie Rhudy discorrem sobre os diversos aspectos pelos quais a ansiedade pode ser estudada: estado ou traço ansioso, neuroticismo, estresse, medo, catastrofização, etc. Um destes aspectos pelo qual a ansiedade pode influenciar o desenvolvimento e persistência dos sintomas somáticos é a hipervigilância.

Hipervigilância é um “hábito perceptual” que envolve uma amplificação subjetiva por uma variedade de sensações aversivas. McDermid et al., 1996 

A hipervigilância tem sido mais estudada com relação ao sintoma dor. Ela leva a alterações no sistema de percepção, sistema autonômico e mesmo em mecanismos cognitivos. Pode representar uma falha do modo padrão de regiões cerebrais para desengatar de um estímulo, o que é compatível com a noção de que o aumento de atenção focada por longos períodos de tempo pode amplificar alguns estados clínicos de dor, por exemplo. Provavelmente predisposição genética e experiência prévia possam ser fatores que aumentam a probabilidade do indivíduo ser hipervigilante.

Mas e a relação com a parafunção?

Bem, há alguns anos estudando a relação entre bruxismo e disfunção temporomandibular (DTM), me deparei com o termo hipervigilância oclusal em um artigo de revisão publicado na revista Journal Oral rehabilitation pela professora Ambra Michelotti e Iódice (leia este artigo aqui) 

Explicando: a reação à uma mudança oclusal é diferente em cada pessoa. Indivíduos que são hipervigilantes à sua oclusão apresentam um aumento na atividade da musculatura mastigatória com qualquer estímulo, seja uma nova restauração, coroas, implantes dentários e até ortodontia, mesmo que estes não estejam provocando interferências. Se esta atividade muscular ultrapassar a tolerância fisiológica, o indivíduo pode apresentar sintomas de DTM.

Há uma ligação estreita entre hipervigilância oclusal e o início ou perpetuação do bruxismo em vigília. Mas leia bem, fatores oclusais não estão relacionados com bruxismo (veja mais sobre isso aqui), o problema não é como é a oclusão e sim o que o indivíduo faz com sua boca, ou seja, o aumento da contração muscular. Sob este prisma, podemos inferir que tratamentos oclusais não controlar e até mesmo podem desencadear o bruxismo em vigília.

Em um dos poucos estudos desenvolvidos na área, a professora Ambra Michelotti e colaboradores realizou uma pesquisa clínica para verificar a hipótese de que as interferências oclusais experimentais teriam efeitos diferentes, dependendo da freqüência pelo qual os indivíduos manifestam a parafunção oral. Os resultados indicaram que as interferências oclusais levaram a redução dos contatos dentários não funcionais, mais proeminente no grupo com baixa freqüência, o que indicou que houve um comportamento de evitar a interferência. Mas no grupo com alta freqüência, os participantes relataram mais desconforto oclusal, cefaleia e dor muscular, o que pode ser consequência deste comportamento de evitar a interferência, levando a manutenção de uma posição mandibular, ou seja, aumentando contração muscular. Os níveis de ansiedade neste grupo foram maiores, o que pode ser associado a hipervigilância, onde os indivíduos são mais cautelosos, atentos e não se distraíram do estímulo provocado pela interferência. Leia todo o trabalho aqui.

No Brasil fico feliz em participar do Grupo de Dor Orofacial da FOB-USP, onde a Naila Machado e o Caio Valle desenvolvem estudos sobre este assunto e em breve trarão mais novidades!

Entender sobre este aspecto é importante, por exemplo, para o prognóstico do pacientes ao auto-controle do bruxismo em vigília. Dependendo do grau de hipervigilância e ansiedade, o paciente pode não responder adequadamente ao tratamento proposto, o que torna necessário a referência a profissionais habilitados no controle da ansiedade, como psicólogos e psiquiatras.

Aproveitem que esta postagem está recheada de links para os artigos completos. Precisamos estudar mais os efeitos da ansiedade na Dor Orofacial, não?

Falando nisso…

Já que citei o Grupo de Dor Orofacial da FOB-USP, devo lembrá-los que todos nós participamos dos cursos de atualização e especialização em DTM e Dor Orofacial capitaneado pelo Prof. Paulo Conti em Bauru. O curso de especialização começa em Outubro de 2014 e o de Atualização em Fevereiro de 2015. Caso se interesse, entre no site www.ieobauru.com.br ou pelo telefone 14 – 32341919 com Vivian. 🙂

A gente sempre conta as novidades lá primeiro! 😉

 

Aromaterapia e Dor Orofacial

As lojas já descobriram e lançaram um novo nome no mercado: marketing olfativo. Sim, o cheiro está se tornando uma ferramenta de marketing para vendas. E olhe, pergunte a alguma mulher que já foi na loja da Le Lis Blanc se ela se lembra do cheiro da loja e claro que ela vai dizer que sim… alecrim. O cheiro é tão característico que fez a marca de roupas lançar toda uma linha de aromas para casa. Mas, o que isso tem a ver com dor orofacial?

Da mesma forma que o cheiro da loja traz conforto para as clientes fazerem suas compras (e levarem o cheiro para casa), o cheiro do ambiente do consultório onde será atendido o paciente também pode trazer benefícios ao tratamento.

Se trata de aromaterapia, ou melhor, uso terapêutico de óleos essenciais de plantas, que podem ser absorvidos pela pele ou sistema olfatório.

Vamos combinar que o cheirinho de eugenol não é lá muito agradável… ainda mais se trouxer aquela lembrança do tratamento endodôntico terrível de sei lá quantos anos atrás. Sim, cheiro traz lembranças… (leia mais sobre isso aqui ó: http://chemse.oxfordjournals.org/cgi/reprint/24/3/327 )

Eu acho interessante o uso de aromas no ambiente que possam transmitir ao paciente uma sensação de conforto e bem estar.

Uma revisão que saiu na CNS Drugs, em 2006, sobre o uso de aromaterapia em insônia, ansiedade e depressão destaca que o uso de aromas de bergamota, camomila, cítrico e lavanda, entre outros, pode ajudar na redução da ansiedade de pacientes e eu acho que podemos incluir os pacientes com dor orofacial. Abaixo, segue a primeira tabela desta revisão:

Dois aromas já foram estudados para ajudar na redução da ansiedade associada ao tratamento odontológico: lavanda e laranja. Bem, eu acho o aroma de bergamota (um tipo de laranja) mais suave, mas isso ainda não foi testado.

Com relação a dor, ainda não foi observado um efeito analgésico pela aromaterapia. E muito menos cura de alguma doença, vamos deixar isso bem claro!

Antes de partir para a substituição do cheirinho de eugenol, preste atenção:

  • cuidado com os aromas vendidos em supermercado em forma de aerosol! A lavanda nunca é mesmo lavanda e uns são bem fedidos! (rs…)
  • O aroma deve estar suave, não use em excesso. As enxaquecosas agradecem!
  • Evite incensos. Prefira óleos essenciais.
  • Não use cheirinhos de bebê! Ao menos que você seja odontopediatra.

Abaixo algumas dicas de produtos para este fim que encontrei na internet! Desta vez não tem o preço sugerido porque não encontrei da maioria.

Vou lá fazer o curso gratuito sobre fibromialgia! Abraços a todos!