Creme dental para sensibilidade dentinária

Quando postei sobre sensibilidade dentinária, recebi um comentário do Prof. Reynaldo sobre uma revisão sistemática publicada na Biblioteca Cochrane que relatava a eficácia dos cremes dentais.

Para quem não está familiarizado, a revisão sistemática corresponde ao que há de mais evidente na literatura científica, ou seja, agrega trabalhos científicos de qualidade e discute os seus resultados (no site do próprio Prof. Reynaldo há um texto ótimo sobre Odontologia baseada em Evidências. Não deixe de ler!).

A revisão sobre os cremes dentais para sensibilidade dentinária foi publicada em 2006 por Sven e colaboradores e focou nos cremes dentais que existiam até então, verificando a eficácia de cremes dentais que continham um sal de potássio em sua composição (os cremes com arginina foram lançados no mercado depois).

É interessante avaliar o texto de forma crítica. Primeiro, os autores relatam que os primeiros estudos sobre este tema foram publicados em 1974. Com o interesse da indústria farmacêutica imaginei que o número de estudos fosse enorme. Mas uma pesquisa rápida agora no Pubmed me devolveu apenas 80 estudos.

A maioria destes estudos avaliam a eficácia usando testes em laboratório, portanto, não em pacientes. Os resultados destes estudos não podem ser comparados aos resultados clínicos onde o paciente utilizou o creme dental duas vezes por dia! Por exemplo, a concentração de íons de potássio é bem menor no ambiente bucal do que no modelo laboratorial, a distância entre o creme dental e a polpa dentária também é maior durante a escovação dentária, uma vez que muitos modelos aplicam o creme em cavidades dentárias.

Eu sempre achei que utilizar o creme dental desta forma seria como passar uma pomada na mão e depois lavá-la, ou seja, ela teria que ser bem concentrada para ficar lá, não? Por conta própria, sempre solicitei que meu paciente fizesse o que agora aparece toda hora na TV, que passasse como pomada nas regiões sensíveis o creme dental, contando até 30, e cuspindo o excesso, sem enxaguar a boca. Sem provas científicas (blog não é texto científico, né?) eu acho que funciona bem melhor do que escovar com a pasta (placebo?).

Sem me alongar muito, o resultado foi que apenas 6 (isso mesmo, seis) estudos foram classificados como adequados para a revisão, ou seja, verificaram com pacientes se o creme com potássio funcionava mesmo, comparando com pacientes que utilizaram um creme sem potássio. Usaram para isso dois métodos: um avaliado pelo profissional e outro pelo paciente.

O que faz o profissional? Avalia a presença da sensibilidade dentinária através do tato, jato de ar e também por meios térmicos.

A avaliação do paciente é realizada por questionários, o que acarreta em algumas limitações já que a opinião do paciente pode ser influenciada até mesmo pela relação com o pesquisador.

Os resultados da revisão foram interessantes.

Quando foi utilizado o método de avaliação profissional, o creme dental com potássio diminuiu a sensibilidade dentinária, mas esta não foi a opinião dos pacientes. Entretanto, estes resultados devem ser vistos com cautela já que apenas 390 pacientes foram incluídos no total. Pouco para um produto há tanto tempo no mercado…

Fiquei curiosa para saber se os cremes com arginina, carbonato de cálcio e fluoreto já haviam sido avaliados. Da mesma forma já foram em alguns estudos, que utilizaram métodos semelhantes aos descritos na revisão, e em todos o creme foi mais eficaz, tanto comparando ao creme dental com fluoreto como ao creme dental com potássio do concorrente.

Massssss

Eu fico pensativa com algumas coisas. Os estudos estão publicados em revistas financiadas pelo fabricante do creme, nas tabelas os resultados são apresentados somente com o valor do nível de significância (estatística é chata mas necessária) e quando foram comparar com o creme do concorrente escolheram a versão branqueadora (será que está não é mais abrasiva?).

Com relação a estatística, quem publica sabe que hoje todos querem ver o intervalo da variação para poder afirmarem que um é sim melhor que o outro.

Não estou afirmando que o creme não funciona, é igual aos outros ou qualquer coisa parecida! Só acho que existem poucos estudos ainda para se afirmar qualquer coisa…

E então, será que haveria presença do efeito placebo? E o efeito sugestivo do marketing, influencia na eficácia de um creme dental?

Deixo para vocês refletirem! 😉

Exemplos de cremes dentais para dentes sensíveis comercializados no Brasil

*Os preços sugeridos baseados em busca na internet. Não foi possível encontrar preço sugerido para creme dental Sensi-Lacer

  • Sensodyne Original e Sensodyne Pró Esmalte (GlaxoSmithKline)
  • Colgate Sensitive Original (Colgate Palmolive): contém citrato de potássio e flúor
  • Colgate Sensitive Pró-Alívio (Colgate Palmolive): contém arginina, carbonato de cálcio e flúor
  • Odontis-RX Sensi Block (Daudt): contém monoflúorfosfato de sódio
  • Aquafresh Sensitive (GlaxoSmithKline )
  • Oral B Pro Sensitive: creme dental com flúor porém menos abrasiva
  • Sensi Lacer (Laboratório Gross): contém nitrato de potássio, flúor e xilitol.
  • Bonisense (Laboratório Boniquet do Brasil): contém citrato de potássio e flúor
  • Contente Sensitive (Suavetex): contém nitrato de potássio

Fonte: Revista Perionews 2009;3(1):65-79

2 pensamentos sobre “Creme dental para sensibilidade dentinária

  1. Comecei a busca por creme dental que oferecesse o mesmo resultado que o colgte sensitive pro-alívio com um preço menor, foi quando encontrei esta matéria que achei excelente e pertinente, pois se as pessoas testadas fazem parte do pp grupo de ação, fica difícil acreditar , assim como não termos acessos aos comparativos (se houveram) .
    Muito obrigada!

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