Por que os Guias da Academia Americana de Dor Orofacial são leitura obrigatória para quem atua com DTM e Dor Orofacial


Nos últimos dias, recebi o sétimo volume do Guia da Academia Americana de Dor Orofacial, e isso me motivou a retomar uma reflexão que considero fundamental para quem atua com DTM, dor orofacial e cefaleias. Esses guias não são apenas livros técnicos; eles representam a própria organização histórica e científica da área.

A dor orofacial nem sempre foi estruturada como conhecemos hoje. Durante muitos anos, os conhecimentos eram fragmentados, com diferentes grupos adotando conceitos, classificações e linguagens distintas. A Academia Americana de Dor Orofacial foi uma das primeiras instituições a reunir especialistas e organizar esse saber de forma sistemática, publicando, em 1990, o primeiro guideline voltado às então chamadas desordens craniomandibulares. Em 1993, uma nova edição foi lançada, ainda com foco em DTM, mas foi a partir de 1996, com a terceira edição, que o termo dor orofacial ganhou força e passou a orientar a estrutura do guia, incorporando classificação, avaliação clínica e discussão dos mecanismos de dor, sob liderança do professor Jeffrey Okeson.

A quarta edição teve um papel muito marcante na minha formação. Ela foi lançada quando eu estava na especialização e se tornou a última versão traduzida para o português brasileiro, sob coordenação do professor Eduardo Grossmann. Esse volume ampliou de forma significativa a abordagem da dor orofacial e foi o primeiro a incluir um capítulo dedicado à região cervical, reconhecendo a estreita relação anatômica, funcional e clínica entre a coluna cervical, a disfunção temporomandibular e as dores orofaciais. A partir dessa edição, os capítulos passaram a se manter estruturalmente semelhantes, sendo progressivamente atualizados e ampliados ao longo das versões seguintes.

Na quinta edição, observa-se uma aproximação importante entre a Academia Americana de Dor Orofacial e o grupo ligado à IADR responsável pelo desenvolvimento do RDC/TMD (INFORM). Esse livro ainda utiliza o RDC como referência diagnóstica, pois foi publicado antes do DC/TMD, mas introduz um conceito que considero extremamente relevante na prática clínica: a taxonomia ampliada da DTM. Ela permite classificar e compreender condições que não estavam contempladas no RDC e que, até hoje, não são plenamente abordadas no DC/TMD, como anquiloses, hiperplasia do processo coronoide e mialgias centralmente mediadas. Essa visão mais abrangente ajuda o clínico a entender que nem toda dor ou limitação mandibular se encaixa em categorias restritas, e que a realidade do consultório é mais complexa do que os sistemas classificatórios isolados conseguem captar.

A sexta edição trouxe um avanço fundamental ao incorporar de forma mais clara a interface entre sono e dor. Pela primeira vez, um capítulo específico sobre sono passou a integrar o guia, reforçando a importância dessa dimensão na compreensão da dor orofacial, do bruxismo e das cefaleias. Nessa edição, também há uma aproximação maior com o DC/TMD, embora a AAOP mantenha algumas diferenças conceituais e terminológicas próprias, o que exige leitura crítica e compreensão dos contextos em que cada classificação foi desenvolvida.

Com a chegada da sétima edição, o que se observa não é a criação de novos capítulos, mas uma atualização profunda de todo o conteúdo. O primeiro capítulo, tradicionalmente um dos mais importantes, foi amplamente revisado, com maior integração entre mecanismos de dor, cefaleias, modulação central e sensibilização, além da inclusão de temas atuais como a relação intestino-cérebro, disbiose, nutrição e terapias celulares. O capítulo de avaliação do paciente reforça a necessidade de personalização do cuidado, discutindo biomarcadores e perspectivas futuras para um atendimento cada vez mais individualizado. O capítulo de classificação da dor orofacial estabelece um diálogo mais claro com o ICOP e com grupos que fazem a ponte entre pesquisa clínica e prática assistencial, aproximando ainda mais a ciência do cotidiano do consultório.

Outros capítulos também foram atualizados de forma significativa. As cefaleias passam a incorporar discussões sobre novas terapias, como os agonistas do CGRP. As dores neuropáticas incluem agora o reconhecimento formal de condições como a síndrome da primeira mordida e a síndrome da orelha vermelha, além de uma abordagem farmacológica mais atualizada. No capítulo dedicado ao sono, há um aprofundamento das discussões sobre bruxismo, apneia obstrutiva do sono em crianças, terapias miofuncionais e sistema glinfático. Já o capítulo comportamental traz uma atualização importante sobre a utilização e implementação de questionários validados, alinhados às recomendações internacionais, reforçando a importância de identificar fatores psicossociais e comportamentais na dor orofacial.

Sempre lembro de uma fala recorrente da professora Reny De Leeuw, editora de várias edições do guia, sobre a necessidade de migrarmos de uma prática baseada apenas na experiência para uma prática verdadeiramente baseada em evidência. A sétima edição do Guia da Academia Americana de Dor Orofacial representa exatamente isso: a síntese mais atual do conhecimento científico disponível, organizada em forma de diretrizes. Se hoje eu tivesse que indicar apenas um livro para um profissional que deseja atuar ou se aprofundar em dor orofacial, seria este.

Evidentemente, isso não exclui a necessidade de conhecer e utilizar outras classificações, como o ICOP, a Classificação Internacional das Cefaleias e o DC/TMD, que se complementam e dialogam entre si. Nenhum sistema, isoladamente, é capaz de dar conta da complexidade clínica que encontramos na prática diária. Por isso, mais do que acumular livros, é fundamental ler criticamente guidelines, compreender seus limites e aplicá-los de forma integrada ao cuidado do paciente.


A partir do dia 24/02/2026 – terça feira – às 7 da manhã, darei início aos Encontros ao Vivo para conversarmos mais sobre Bruxismo, DTM e Dor Orofacial.

Para ter o link, entre no grupo do whastapp: https://chat.whatsapp.com/JPuuEzYDRLq8UL6WN24ydP?mode=gi_t

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels.

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