Bruxismo não é um bloco único: por que isso muda tudo na prática clínica?

Desta vez eu usei um artigo que ainda está no prelo para trazer algumas reflexões sobre bruxismo. O artigo é este: Alona EP, Amit S, Khalil M, Ilana E. Temporal patterns of bruxism behaviors: multiple day recording with portable electromyography. Sci Rep. 2026 Jan 6. doi: 10.1038/s41598-025-30704-z. Mas falo pouco sobre ele. E mais sobre o que tenho visto por aí.

Quando falamos em bruxismo na clínica, especialmente entre cirurgiões-dentistas, ainda é muito comum que ele seja tratado como um grande vilão. Um vilão que explica desgaste, fraturas, dor, falhas restauradoras, DTM, cefaleia e praticamente qualquer queixa na face e cabeça. E, pessoalmente, isso tem me incomodado bastante ao longo dos anos, porque essa visão não conversa com o que vemos na prática clínica diária nem com o que a ciência mais atual tem mostrado.

O estudo recente sobre padrões temporais do bruxismo, com registro eletromiográfico portátil por 72 horas consecutivas, não surge para contradizer o que já sabíamos, mas para confirmar, com dados objetivos, aquilo que muitos de nós já observamos no consultório: o bruxismo é um fenômeno dinâmico, variável e altamente dependente do comportamento, especialmente no bruxismo em vigília.

Antes de entrar nos resultados do estudo, é importante lembrar o que já estava estabelecido. Já sabíamos que o bruxismo não é um fenômeno constante. Já sabíamos que existe uma grande variabilidade intraindividual. Já sabíamos que nem todo paciente com bruxismo apresenta dor e que nem todo paciente com dor apresenta bruxismo clinicamente relevante. Também já sabíamos que bruxismo do sono e bruxismo em vigília não são a mesma coisa, apesar de ainda serem frequentemente tratados como se fossem.

O que falta, muitas vezes, é uma comprovação instrumental mais robusta, que fugisse daquela avaliação pontual de 24 horas ou de uma única noite. É exatamente aí que esse estudo tenta contribuir.

Ao registrar a atividade muscular por 72 horas contínuas, os autores conseguiram mostrar algo fundamental para a clínica: um único dia, uma única noite ou uma única consulta simplesmente não representam o bruxismo de um paciente. O estudo mostrou uma grande variabilidade noite a noite no bruxismo do sono e uma variabilidade importante também no bruxismo em vigília, especialmente quando analisamos o clenching.

No bruxismo do sono, um dos achados mais interessantes foi a alta porcentagem de tempo sem eventos: cerca de 66% do tempo não apresentou episódios de grinding. Isso reforça algo essencial do ponto de vista clínico: o bruxismo do sono é um comportamento episódico e pouco previsível. Ele não acontece de forma contínua ao longo da noite, nem de forma semelhante todas as noites.

Quando olhamos para o bruxismo em vigília, o estudo traz uma contribuição ainda mais alinhada com o que vemos na prática. O ranger de dentes em vigília foi muito esporádico nessa amostra e, clinicamente, isso nem costuma ser o grande problema.

O apertamento em vigília, por outro lado, apresentou variações ao longo do dia e entre os dias, com forte influência de fatores comportamentais e contextuais. Isso é extremamente relevante, porque desloca o foco do dente para o comportamento. Não é o ato mecânico de apertar os dentes que deve ser visto como o grande vilão, mas o contexto em que esse comportamento acontece.

Apertar os dentes, muitas vezes, é consequência de algo: estresse, concentração excessiva, estado de alerta prolongado, padrões de enfrentamento, demandas cognitivas, emocionais ou ambientais. Tratar o bruxismo como causa primária de tudo é inverter a lógica. O estudo reforça essa ideia ao mostrar que o clenching em vigília não segue um padrão linear simples, mas sim um padrão complexo, moldado pelo comportamento ao longo do dia.

Esse ponto nos obriga, como clínicos, a mudar o enfoque. Bruxismo não é um bloco único. Bruxismo do sono e bruxismo em vigília são fenômenos distintos. Grinding e clenching são comportamentos diferentes. E, possivelmente, esses comportamentos têm bases neurofisiológicas distintas. Isso pode ajudar a explicar por que alguns pacientes quebram dentes sem apresentar dor muscular, enquanto outros apresentam dor intensa, cefaleia e limitação funcional sem desgaste significativo.

Dor não é um marcador obrigatório de bruxismo. E bruxismo não é um marcador obrigatório de dor. Essa dissociação precisa estar muito clara no nosso raciocínio clínico, para evitar diagnósticos simplistas e condutas inadequadas. BRUXISMO NÃO É SINÔNIMO DE DOR. O que vejo por aí: terapias voltadas para dor como se fosse para bruxismo…. tudo errado.

Outro ponto extremamente importante que esse estudo reforça é que monitorar mais de um dia muda decisões clínicas. Embora no Brasil não tenhamos, na prática clínica diária, acesso a EMG contínuo por 24 ou 72 horas com aparelhos específicos para bruxismo, isso não significa que não possamos adotar estratégias mais longitudinais de avaliação.

Ferramentas como o diário de bruxismo do sono, o acompanhamento do bruxismo em vigília por meio da avaliação ecológica momentânea (EMA) e a auto-observação guiada proposta pelo STAB são estratégias simples, viáveis e muito mais representativas do comportamento real do paciente do que uma avaliação pontual.

Essas ferramentas ajudam a capturar justamente aquilo que o estudo mostrou ser essencial: a variabilidade, a intermitência e o caráter comportamental do bruxismo, especialmente em vigília.

Por fim, talvez a principal mensagem que esse estudo nos traz — e que eu considero fundamental reforçar para os dentistas — é que o bruxismo não deve ser tratado como o grande vilão. Ele não é o inimigo a ser combatido a qualquer custo. O foco deve estar no comportamento, na sobrecarga, na capacidade adaptativa do sistema e nos fatores que modulam esse comportamento ao longo do tempo.

Especialmente no bruxismo em vigília, precisamos sair de uma abordagem centrada no dente e migrar para uma abordagem centrada no comportamento. Educação, consciência, autorregulação e acompanhamento longitudinal passam a ser muito mais importantes do que tentativas de “eliminar” o bruxismo. Aprender que muitas vezes deveremos encaminhar o paciente para avaliação com profissional da saúde mental. Aprenda a referenciar! Referencie!

Esse estudo não contradiz o que vemos na clínica. Pelo contrário: ele valida, com dados objetivos, aquilo que muitos de nós já percebíamos empiricamente. Precisamos refinar o raciocínio clínico e, principalmente, tratar melhor nossos pacientes.

Uma resposta

  1. Avatar de Thayanne Calcia

    Que texto gostoso de ler! De fato, muitas vezes o clínico está olhando para um recorte muito estreito, sem considerar o que alimenta o comportamento.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels.

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