Estresse e DTM

Semana retrasada assisti a uma apresentação do trabalho de conclusão de curso da especialização em DTM e Dor Orofacial do IEO-Bauru, sob orientação do Prof. Paulo Conti sobre estresse e sua relação com a Disfunção Temporomandibular (DTM).

E foi uma bela apresentação (bem como a do grupo todo, parabéns queridos!). A aluna: Dyna Mara Ferreira (guardem este nome!).

Dyna é de Floriano no Piauí e também hoje aluna de mestrado em Ciências Odontológicas da Faculdade de Odontologia de Bauru – USP, e faz parte do Bauru Orofacial Pain Group.

Imediatamente pedi a Dyna que escrevesse um breve texto resumindo o que ela apresentou para vocês, leitores deste blog!

Acho o tema pertinente e fascinante! Ontem mesmo estava assistindo ao Globo News em Pauta quando o Jorge Pontual, um dos jornalistas do programa, falou sobre um estudo recente publicado na Nature que fala sobre a expectativa da dor: a incerteza gera mais estresse e aumenta a intensidade da dor do que a certeza (bem atual para os dias de hoje…).

Dyna, obrigada pelo texto e pelo brilho nos olhos ao estudar sobre o assunto! 🙂

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Dyna Mara Ferreira Especialista em DTM e Dor Orofacial Bauru Orofacial Pain Group

Tema recorrendo nos dias atuais é o estresse. Provavelmente porque todos nós experimentamos e sabemos, prontamente, relatar inúmeros exemplos de eventos estressantes no cotidiano. Entretanto, nem sempre o termo é sinônimo de prejuízo. Hans Salye, o primeiro a estabelecer esta palavra, define estresse como uma resposta não específica do organismo quando submetido a demandas, quer o estímulo seja agradável ou não. Portanto, é essencial diferenciar estresse saudável do estresse ruim. O primeiro tem conotação positivas, resultando em euforia e aumento de produtividade. É importante para manutenção da vida, pois gera uma resposta do tipo lutar ou fugir diante de situações ameaçadoras. Já o estresse ruim tem conotação desagradável e prejudicial ao organismo e resulta de emoções e sentimentos negativos. Durante situações estressantes, o organismo produz praticamente a mesma resposta fisiológica com ativação do sistema nervoso simpático (SNS) liberando adrenalina e noradrenalina e; eixo hipotálamo-pituitário-adrenal (HPA) liberando cortisol e outros hormônios. Contudo, estresse ruim causa danos ao organismo, pois gera respostas mal adaptativas.

Sabe-se que o estresse psicológico (aqui me refiro ao estresse ruim) desempenha importante papel na origem e manutenção de condições dolorosas crônicas como a DTM. Diversos estudos demonstram que indivíduos com DTM apresentam maiores níveis de estresse psicológico e relatos de eventos de vida estressantes. Igualmente, esses indivíduos reportam piora da sensibilidade dolorosa quando submetidos a situações de estresse. O estudo OPPERA, o maior estudo já realizado para identificar fatores de risco para DTM, identificou que estresse, ansiedade e relato de eventos negativos no passado foram preditores do início de DTM.

O que falta agora é identificar os mecanismos pelos quais o estresse aumenta a sensibilidade dolorosa nesses pacientes. Alguns estudos observaram desregulação do sistema de estresse como hiperatividade do SNS e hiposecreção de cortisol em indivíduos com DTM. Resultados semelhantes também foram encontrados em outras síndromes dolorosas crônicas como fibromialgia e síndrome da fadiga crônica, as quais apresentam similaridades com DTM.

Os mecanismos de interação entre estresse e dor são diversos, devido à sobreposição entre os dois sistemas. Evidências sugerem que a amígdala desempenha importante papel nesse cenário. O estresse crônico aumenta a atividade da amígdala, um dos constituintes do sistema límbico (responsável pelas emoções e comportamentos) e promove a facilitação do sistema de estresse. Por outro lado, reduz atividade do hipocampo e córtex pré-frontral (CPF) responsáveis pelo controle inibitório da dor. O resultado desse remodelamento neural é aumento da atividade pró-nociceptiva e pró-estresse da amigdala concomitantemente com redução da atividade anti-nociceptiva e anti-estresse do hipocampo e CPF, resultando em facilitação crônica de estresse e dor.

Ao longo do ano, Bauru Orofacial Pain Group estará desenvolvendo uma pesquisa com objetivo de tentar esclarecer os mecanismos envolvidos na relação entre estresse e dor, investigando alterações no eixo HPA e nos limiares de dor em pacientes com DTM quando submetidos a um teste de estresse laboratorial.

No caso de confirmações futuras de desregulação do sistema de estresse em pacientes com DTM, o monitoramento dos níveis de cortisol, adrenalina, noradrenalina (facialmente realizadas do ponto de vista clínico através da solicitação de exames complementares), torna-se interessante para adoção de fármacos e terapias psicológicas que visem normalização do sistema de estresse e consequentemente, alívio da dor.

Seguem as referências para estudo!

Psychological factors associated with development of TMD: the OPPERA prospective cohort study. J Pain. 2013 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3855656/

Adrenergic dysregulation and pain with and without acute beta-blockade in women with fibromyalgia and temporomandibular disorder. Pain. 2009 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2700184/

Stress-induced pain: a target for the development of novel therapeutics. J Pharmacol Exp Ther. 2014 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4201269/

Stress and Health: Psychological, behavioral and biological determinants. Annu. Rev. Clin. Psychol. 2005 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2568977/

3 pensamentos sobre “Estresse e DTM

  1. parabéns PELO TEXTO. EXCELENTE…..atualizado, científico e com a certeza da contribuição para prática clínica. Sucesso Dyna.

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