Células da glia

Para nós que viemos da escola da Odontologia, muitas vezes entender a neurofisiologia parece algo de outro mundo. Pudera. O estudo da Odontologia é extremamente mecanicista e somos habituados a entender sobre materiais e seus protocolos de utilização.

Aí vem o estudo da dor orofacial e, especialmente em se tratando de dor crônica, a escolha das terapias baseadas na patofisiologia. A farmacologia busca a cada dia alternativas mais eficazes no controle da dor. Para usufruir destas alternativas é preciso sempre estar atualizado. Amanhã uma nova droga estará no mercado e você para prescrevê-la deve compreender seus mecanismos de ação e se ela vai ajudar o caso específico de seu paciente.

Um assunto no qual a neurociência hoje busca mais conhecimento dentro da fisiologia dolorosa é o papel das células da glia, que também fazem parte do sistema nervoso, e sua contribuição na manutenção da dor e na presença da alodínia.

Pesquisas recentes estão finalmente elucidando por que os analgésicos tradicionais em geral são ineficazes no tratamento da dor neuropática: os alvos dos medicamentos são apenas os neurônios, enquanto a causa por trás da dor pode estar em células não neuronais disfuncionais chamadas células da glia, que se localizam no cérebro e na medula espinhal. Descobertas sobre como essas células, cuja tarefa é nutrir e regular as atividades dos neurônios, podem se desequilibrar e interromper o funcionamento neuronal inovam no tratamento da dor crônica. A pesquisa fornece ainda perspectiva surpreendente de uma conseqüência infeliz do tratamento atual contra a dor, que afeta algumas pessoas: o vício em narcóticos. – R. Douglas Fields – http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/os_novos_culpados_da_dor_cronica.html

Figura da reportagem “Os novos culpados da dor crônica” por R. Douglas Fields. http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/os_novos_culpados_da_dor_cronica.html

As células da glia foram descobertas há mais de 150 anos mas foi na ciência contemporânea que seu papel começou a ser desvendado.

Basicamente no SNC existem dois grandes grupos de células gliais: microglia e macroglia (que compreende oligodendrócitos, ependimócitos, astrócitos e os recentemente descobertos polidendrócitos ou sinantócitos). As evidências mostram que três tipos de células glia participariam do desenvolvimento e manutenção da dor crônica: migróglia e astrócitos no SNC e células glia satélite no gânglio trigeminal ou raiz dorsal da medula.

Os astrócitos são os mais abundantes no sistema nervoso, conhecidos historicamente como células de suporte. Entre todas suas funções, estas células desempenham um papel importante na manutenção dos níveis iônicos do meio extracelular, na descarga de potenciais de ação dos neurônios; captação e liberação de diversos neurotransmissores, tendo um papel crítico no metabolismo do neurtransmissores, glutamato e GABA. Estas células acabam participando das sinopses químicas.

Figura do artigo “Glia: dos velhos conceitos às novas funções de hoje e as que ainda virão”. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142013000100006&script=sci_arttext

Se uma lesão – como um tornozelo torcido – ocorre longe do circuito espinhal da dor, os astrócitos da espinha precisam responder não diretamente ao ferimento, mas às mudanças da sinalização no ponto de retransmissão entre os GRD e os neurônios espinhais. Essa observação implicava que os astrócitos e a micróglia monitoravam as propriedades fisiológicas dos neurônios da dor.  R. Douglas Fields – http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/os_novos_culpados_da_dor_cronica.html

As células satélites tem várias similaridades com os astrócitos.

A ativação da micróglia promove liberação de substâncias como ATP, fatores neurotróficos, citocinas pró inflamatórias, aminoácidos expiatórios, óxido nítrico e prostaglandina. As células podem estar envolvidas na sensibilização central através da excitabilidade neuronal.

Os passos conhecidos da ativação destas células após uma injúria ou trauma foram descritos um  artigo de revisão muito interessante que foi publicado na revista Pain em dezembro de 2013. No título os autores questionam: seria a dor crônica uma gliopatia? 

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As interações entre os neurônios e as células glia e até as interações entre as células são importantes para se entender o papel destas na dor persistente. As células da glia parecem exercer papel de modulação tanto excitatória como inibitória e estas relações ainda são alvo de pesquisa e testes com fármacos.

Pathological and protective roles of glia in chronic pain Erin D. Milligan & Linda R. Watkins Nature Reviews Neuroscience 10, 23-36 (January 2009) Em (A) mostra as interações que ocorrem com estímulos nocivos de baixa frequência. Em (B) o que acontece através de estímulos repetitivos. Para ler mais clique em: http://www.nature.com/nrn/journal/v10/n1/fig_tab/nrn2533_F2.html

No passado, todos os tratamentos de dor crônica buscavam amortecer a atividade dos neurônios, mas a dor não pode ser interrompida se as células da glia continuarem a incitar as células nervosas. Descobertas de como as células da glia caem em seu círculo vicioso de sensibilização dos nervos criam estratégias para atingir as células da glia disfuncionais e interromper uma fonte fundamental da dor neuropática. Tentativas experimentais de tratar a dor neuropática pelo controle das células da glia focalizam-se, portanto, em aquietar essas células, bloqueando moléculas e sinais que desencadeiam o processo inflamatório, e enviando sinais anti-inflamatórios.  R. Douglas Fields – http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/os_novos_culpados_da_dor_cronica.html

Dedico este texto aos alunos do curso de especialização em DTM e Dor Orofacial do IEO-Bauru que prometeram estudar bastante sobre neurofisiologia da dor! 🙂