Educação não é o que a gente fala, é o que a gente pergunta

Tem alguns meses que eu voltei a estudar educação. De novo.

De novo porque esse é um tema que permeia a minha vida, e eu já vou contar o porquê. Nas horas vagas, é o que eu tenho feito. E eu acabei de me convencer de uma coisa: quem sabe um pouquinho de pedagogia sai na frente na hora de se comunicar. Educar e comunicar têm tudo a ver.

O que me trouxe de volta pra cá foi um incômodo antigo. Eu venho há um tempo incomodada com a comunicação com meus pacientes, e entre os meus alunos e os pacientes deles nos cursos presenciais. Na última turma da especialização lá no IEO-Bauru, um aluno da especialização escolheu educação em dor como tema do trabalho de conclusão de curso e fez meu olhar voltar a este tema. Às vezes a gente vai e volta em alguns assuntos na vida, e acho que a beleza do estudo é justamente essa: a gente pode ir mudando e com isso mudando também a nossa conduta no consultório.

Educação em dor é algo que eu já tinha estudado antes. Converso muito com colegas, admiro quem é expert no assunto, como a professora Thaís Chaves, fisioterapeuta e professora da UFSCar, que fala sobre isso há anos e de forma brilhante. Mas quando estava auxiliando no TCC, caiu uma ficha…

A gente prepara os nossos alunos pra se comunicarem em dor?

Eu estou achando que não. Não adequadamente. Apesar de falarmos sobre isso, mostrarmos artigos, discutirmos.

E meu pensamento foi longe: este ano eu faço 30 anos de formada, então pode ser que eu esteja desatualizada do que está sendo feito nas universidades hoje. Mas até agora, em cursos, congressos e bate-papos, o que eu vejo é uma odontologia extremamente educativa, se comunicando, buscando novos formatos para isso e ainda assim professoral. Você é professor do seu paciente. Você ensina seu paciente a escovar os dentes. Você ensina seu paciente todos os dias no seu Instagram algo técnico que você aprendeu e tenta passar de uma forma que ele entenda.

Só que esse ensino ainda cai naquela forma em que você monta o protocolo, prepara o conteúdo, passa o conteúdo, e não escuta a sua audiência.

E quem é a sua audiência? Pensa comigo. Pode ser o seu paciente. Podem ser os seus pacientes na rede social. Pode ser o aluno pra quem você está ministrando aula. E como é essa sua aula? “Ah, eu faço uma aula expositiva, mas eu dialogo durante a aula.” Será que é suficiente? E como é que você dialoga com o seu paciente?

Essas foram as questões que eu levantei olhando pros alunos nos últimos módulos do curso de especialização. E eu pensei: sinceramente, acho que eu tô deixando de fazer algo aqui…

Porque quando eu perguntei pra um aluno o que é educação em dor pra ele, e perguntei também pros meus pares, pros meus colegas especialistas, a maioria me respondeu alguma versão disso: eu coloco um slide, eu falo com ele, eu uso vídeo, eu mostro uma figura, eu explico neurociência, eu explico a condução da dor, eu explico os fatores que podem modular, eu explico o que favorece e o que desfavorece a condição dele. Eu explico. Eu explico. Eu explico.

Mas você ouve o paciente?

Você já tentou perceber a crença desse paciente? Do aluno? Do seu colega? Já entendeu o contexto? Já perguntou sobre as limitações?

E aqui eu preciso dizer uma coisa: isso não é implicância minha. Os maiores estudiosos de educação em dor já vêm enxergando o mesmo problema.

Moseley e Ryan, em um artigo da PETAL (colaboração internacional para levar a ciência da aprendizagem para dentro da educação em dor) de 2023, olham para uma auditoria clínica de pacientes que passaram por educação em dor e mostram o seguinte: os objetivos de aprendizagem foram atingidos em cerca de metade dos pacientes.

Metade.

E olha que quem entregou essa educação eram profissionais altamente treinados e experientes em dor.

Mas o que me pegou não foi o número. Foi a distância entre os dois grupos. No seguimento de 12 meses, a grande maioria ou foi muito bem, ou não mudou absolutamente nada. E quem foi muito bem era exatamente quem tinha mudado a compreensão logo nas fases iniciais, quando a educação era o componente principal do cuidado. Nesses, os desfechos foram excelentes e às vezes transformadores.

Então funciona ou não funciona?

Funciona. Funciona muito, quando chega. O problema é que ela chega em metade das pessoas. Outros dados foram revelados como: alguns pacientes não esperam nem querem uma “aula sobre dor”; outros sentem que a explicação sugere que a dor “não é real”. A educação precisa então ser mais relevante, individualizada, validante e ligada à experiência concreta da pessoa.

E é justamente por isso que o construtivismo entrou na conversa. Os programas de nova onda em educação em dor passaram a adotar abordagem construtivista, com tarefas de aprendizagem ativa e estratégias de mudança conceitual. A diferença foi considerada tão grande que a PETAL rebatizou a abordagem contemporânea de Pain Science Education, só para não confundir com a anterior.

E a evidência que eles citam para sustentar essa virada são mais de 300 metanálises em educação, envolvendo vários milhões de participantes.

Trezentas metanálises. Que estavam lá esse tempo todo.

Essa é uma forma nova que a ciência da educação em dor vem buscando, porém é uma fórmula presente dentro da pedagogia há muitos e muitos anos, com Piaget, com Vygotsky, com Paulo Freire e tantos outros estudiosos da educação.

Construir conhecimento não é jogar informação e esperar que o outro absorva. Não é jogar informação e esperar que o cliente, o paciente, o aluno, o par do outro lado tenha construído alguma coisa. Construir conhecimento é muito além disso.

E aí vem a parte da minha história...

Mostrei pra minha mãe e a gente começou a discutir o quanto aquilo tinha interseção com o que ela fazia uns 35, 40 anos atrás nos grupos de formação. Eu me lembro pequena, não sei dizer quantos anos eu tinha, uns 12, 13, 14, da minha mãe, pedagoga, que dava grupos de formação pra professoras, sentada com os relatórios dela escritos à mão sobre construtivismo, Piaget, Vygotsky, Paulo Freire… Eu revisava aqueles textos pra ela. Eu lia a respeito disso. Nunca imaginei que seria tão importante para mim.

Muito tempo depois, eu estava fazendo uma disciplina de metodologia do ensino na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Pra mim, aquela escola é vanguardista no ensino da saúde. Eu achava lindo o jeito como o ensino era desenvolvido lá, na graduação e na pós. E como era diferente. Eram salas que deixavam de ser anfiteatro e passavam planas para que pudéssemos sentar em círculos, onde a gente estávamos no mesmo nível do professor, um guia , um líder, e ele apenas nos guiava, e a gente ia construindo o conhecimento do conteúdo teórico. Eu achava sensacional. Aprendi muito.

Não sei se a odontologia chegou nesse ponto. Pelo que eu vejo em congressos e em algumas escolas, ainda não. Eu tento mas às vezes os alunos tão habituados ao guru que irá lhe passar o protocolo, não aceitam e torcem o nariz, mas continuo tentando.

Agora olha que coincidência.

Lembrando de tudo isso, dentro daquelas aulas em que as pessoas falavam de educação em dor, dentro das minhas reflexões, eu volto pro meu consultório e tenho uma experiência muito peculiar.

Eu atendi um médico psiquiatra. Estava fazendo uma placa pra ele, e a placa ficou ótima, daquelas que ficam até boas demais, e em cinco minutos a gente terminaria a sessão. Mas ele parou pra conversar comigo. Me deu um feedback sobre a consulta que me deixou bem satisfeita, e começamos a falar sobre educação, sobre paciente, sobre medicina centrada na pessoa.

Foi ali que ele me deu uma lição. E eu não tinha captado antes, até porque nunca tive contato com essa área. Ele me disse: olha, tudo isso que você está falando de educação em dor, a medicina centrada na pessoa já estuda há muitos anos. É o que a Medicina de Família e Comunidade faz. E me apresentou os autores e o livro que traz este método, que fala sobre isso. Comprei na mesma hora. Essa especialidade médica trabalha com o que estamos recentemente falando na Educação em Dor desde a década de 90! (se quiser ler o livro também, link está aqui). Só tenho a agradecer a este paciente e ao laboratório que me ajudou a fazer essa ótima placa… rs…

Eu já tinha lido alguns textos sobre comunicação profissional e paciente quando estudei placebo e nocebo, e dentro da IASP já se falava um pouco a respeito nas reuniões. Mas ver aquilo materializado no livro eu achei sensacional. Ainda estou lendo. Passei os olhos rápido primeiro, e agora estou lendo capítulo por capítulo, devorando cada frase, grifando, trazendo muito disso pro consultório todo dia e levando para todos os cursos.

E foi sobre tudo isso que também conversei recentemente no encontro com meus amigos do GEDOF e por alguns minutos empolgada com quem já leu e estuda tudo isso também, a professora Laís Magri, da USP de Ribeirão Preto. E fez todo sentido, pela linha de pesquisa que a Laís leva, que traz mindfulness, educação em dor e essa parte toda. (Seu trabalho é lindo Laís!! Parabéns!)

E é nesse ponto que eu quero chegar pra você, profissional que talvez esteja tendo contato comigo agora ou que seja meu aluno.

Eu nunca vou te entregar a informação de bandeja nem te dar o protocolo. Eu preciso que você pense. Preciso que faça sentido pra você e que você teste o seu conhecimento. Assim como eu faço com os meus pacientes. E claro que eu vou te fazer perguntas, porque fazer perguntas me faz entender o contexto, me faz entender o que você pensa, a sua crença.

E você, quando conversa com o seu paciente, pergunta antes de começar a jogar conhecimento? Pergunta qual é o conhecimento que ele já tem sobre aquele procedimento, sobre aquilo que está acontecendo ali?

Eu nem vou usar o exemplo do bruxismo, da DTM ou da dor orofacial. Antes de propor um tratamento estético, você já perguntou o que o seu paciente sabe sobre lente de contato dental? O que ele sabe sobre faceta? O que ele sabe sobre implante dentário? Sobre alinhador?

Ouvir o paciente pode te guiar melhor na hora de explicar o seu procedimento. É entender a crença dele, depois entender o contexto. Quem é aquela pessoa, como é a vida dela, se ela está apta a receber aquela informação naquele momento. Crença, contexto, diagnóstico, a experiência do paciente com a sua condição. E aí sim, construa com ele o conhecimento, construa com ele o plano de tratamento, intensifique sua relação, divida responsabilidade. Se você é professor, não tem diferença, vamos tentar fazer isso na sala de aula, nas comunidades que você lidera, nas redes sociais.

Vou deixar uma dica clínica que eu tenho dado pros meus colegas e que instintivamente eu já fazia, mas que agora eu tenho acelerado e criado métodos pra deixar ainda melhor.

A gente pode desenhar pro paciente a situação dele. E quando eu digo desenhar, é escrever, traçar um desenho, um mapa mental, mostrar dentro de slides, o que for. Mas faça isso com o paciente, e não para o paciente.

Deixa ele colocar nas palavras dele o que levou ele a ter aquela condição. Você vai perguntando, ele vai respondendo, e vai se criando uma clareza dentro dele. Ele vai entendendo o que pode e o que não pode ser feito, e onde está a responsabilidade dele diante do tratamento.

Porque sim: em DTM, dor orofacial e principalmente bruxismo, muito do tratamento diz mais respeito ao que o paciente vai fazer do que ao que você pode fazer por ele.

E esse é o grande entrave de um profissional extremamente técnico, como o dentista, ao entrar numa área em que ser técnico talvez não seja a sua melhor característica. Você vai ter que trabalhar a sua comunicação. E comunicar, mais uma vez, não é falar, falar, falar. É principalmente ter escuta ativa e trabalhar aquilo que você ouviu. Isso exige concentração, exige vontade, exige entusiasmo pelo que você faz! Escute mais, fale menos! 🙂

Essa área é linda.

Eu falei aqui só um pedaço de tudo que venho estudando e refletindo, e acho que sobre isso a gente ainda vai conversar muito. Inclusive sobre a forma como eu ando me comunicando nas redes sociais, porque eu acho que a minha comunicação lá com meus colegas ainda está muito professora, está me incomodando. Eu queria entender de que jeito eu poderia conhecer a crença da minha audiência pra trabalhar melhor o meu discurso. Caixinhas no Instagram não sao suficientes.

Ainda não achei o jeito, mas eu vou conseguir. E vou começar do começo, fazendo a pergunta para você que chegou até o fim deste texto: o que você quer ouvir?

Nota: este texto foi gravado em áudio por mim, transcrito e organizado pelo Claude, e revisado e reescrito integralmente por mim. Quem assina embaixo sou eu.

Câmbio, desligo!


Posted

in

by

Tags:

Comments

Deixe um comentário