Estudando na profundidade de um Reels

Estou com vontade de voltar a escrever, mas confesso: não consigo mais sentar para escrever.

Assim, resolvi usar a transcrição do áudio como ferramenta para manter este blog vivo. Estou gravando isto no carro, na volta de Bauru, e vou transformar o áudio em texto para postar aqui.

Admito também um receio: não sei se a inteligência artificial está me deixando mais burra… às vezes acho que sim. E, ainda assim, é ela que me traz de volta para este espaço!

Semana passada estava conversando com os amigos queridos, Daniela Godoi Gonçalves e Márcio Bittencourt  num bate papo no Whatsapp, onde contava que estava maravilhada ao voltar a estudar “construtivismo” mas agora com foco na educação em dor, e o assunto caiu em como as pessoas andam estudando nos dias de hoje e a Daniela escreveu  uma frase  que não me larga: a odontologia está sendo estudada na profundidade de um Reels.

Fazia tempo que uma frase não me acertava assim, porque ela me obriga a uma pergunta desconfortável. Será que eu também estou ajudando a orientar as pessoas na profundidade de um Reels?

Tenho motivo para desconfiar de mim. Este blog nasceu em 2010 como o lugar, o meu lugar, onde eu poderia falar do que eu quisesse. Logo me empolguei em trazer as novidades da ciência e do que estudava para fazer a tal ponte com os atendimentos clínicos.  

Hoje eu leio um artigo e transformo num carrossel para o Instagram. Continua sendo a minha voz, mas passou a caber no que o formato permite. Já tentei vídeo, gravei aulas de dez minutos, mas, o que reverbera entre os dentistas, que são a maior parte de quem me acompanha, é o carrossel.

A armadilha é essa: o formato que mais alcança é o que menos comporta profundidade, apesar de tentar ali dar o mínimo de algo a mais do que simplesmente entregar o conteúdo do artigo. Claro que em mim há o medo de ficar repetindo o que já estão fazendo: pega o artigo, IA resume, IA faz a figura, os ícones e emojis se repetem…

Sempre me guiei por um princípio simples, a coisa precisa fazer sentido para mim. Lembra da flor no prato, que a Paola Carosella comentou num programa de culinária? A florzinha não pode estar ali só para enfeitar, ela tem que compor o sabor daquele prato. Até na clínica penso assim: uma terapia que eu indico ao paciente precisa fazer sentido, não apenas enfeitar a conduta.

E fazer sentido, para mim, pede duvidar antes. Pensando então no conteúdo que tento levar nas redes sociais, aulas e falas, talvez por isso eu nunca tenha sido muito midiática. Deixa eu explicar melhor… eu não falo de um conteúdo que eu não tenha certeza, mesmo sabendo que se falar posso “bombar” de likes e seguidores, o que faria até sentido pelo o que estou vendendo agora… ah, o infoproduto…  

 Será que abandono o carrossel? Mas ele tem seu lugar e alcança quem eu não alcançaria de outro jeito. Acho que é mais sobre não deixar que ele vire a profundidade máxima do meu pensamento. Este espaço aqui, mais longo, é onde eu ainda consigo duvidar em voz alta, e é por isso que eu quero voltar a ele.

Fico com a pergunta da Daniela no ar, agora também para você. Na sua rotina, você está estudando e orientando na profundidade de um texto longo ou na de um Reels?

Obrigada a vocês, que depois de todos esses anos ainda estão aí. Até a próxima.

Juliana


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