Sobre dentistas e cefaleias…

Todos os dias recebo vários emails de pacientes com dúvidas a respeito de DTM (enviem mesmo! Eu respondo a todos!). Uma dúvida recorrente, especialmente por parte dos pacientes, é a questão: coloquei aparelho para corrigir minha oclusão na esperança de melhorar minha dor de cabeça e isso não aconteceu, ou melhorou por um tempo e depois voltou, ou melhorou e depois voltou quando tirei o aparelho (as combinações são muitas). Alguns relatam que o profissional que lhe atendeu informou que este tratamento era o adequado para a cefaleia. Claro que há o viés do paciente, mas eu acredito que isso realmente possa estar acontecendo.

Os problemas no parágrafo logo acima são muitos.

Primeiro o despreparo do profissional para atender um paciente com cefaleia. Salvo raras exceções, os dentistas de modo geral não são preparados para avaliar cefaleia. Não aprendem isso na graduação e, aí salvo raríssimas exceções, nem nos cursos de pós graduação, como já falamos aqui.

Segundo as cefaleias podem ser primárias e secundárias, e aquelas atribuídas à DTM ainda precisam ser esclarecidas. Normalmente, por exemplo, uma DTM do tipo muscular pode referir dor para a cabeça (no caso da dor miofascial) ou estar localizada na região temporal. Mas como demonstrado, por exemplo, no estudo da equipe da UNESP de Araraquara, a migranea foi a cefaleia mais associada à DTM em pacientes que procuraram atendimento para dor orofacial.

(Migranea é denominada popularmente enxaqueca e não é sinônimo de dor forte e sim uma condição neurológica!)

Claro que, como duas condições dolorosas associadas, uma pode ser fator perpetuante ou contribuinte para a outra. Assim é importante o diagnóstico e tratamento direcionado às duas condições!

Mas é muito comum mesmo o paciente apresentando migranea com todas as características que lhe são peculiares, receber um tratamento odontológico, seja ortodontia, próteses e implantes, visando não a reabilitação oral e sim a remissão da cefaleia.

Assim, quero aproveitar este espaço para mandar um recado aos meus colegas dentistas:

Primeiro, não proponham tratamento àquilo que vocês não conhecem ou não conseguiram diagnosticar, sobretudo tratamentos invasivos e irreversíveis. Segundo, tenham como melhor amigo o neurologista, especialmente o cefaliatra, com quem vocês possam discutir o caso, o diagnóstico e os tratamentos a serem adotados.  Terceiro, conheçam a Classificação Internacional das Cefaleias, que pode se consultada neste link.

Lembrei-me  agora de um caso que atendi há alguns anos já. O paciente, um senhor de aproximadamente 60 anos, me procurou por estar com cefaleia há alguns meses. Ele relacionou a cefaleia ao uso de prótese total. Quando chegou a mim relatou que já havia passado por alguns colegas. Um indicou o uso da prótese durante o sono, o outro solicitou que retirasse e nenhuma das condutas havia funcionado. Um terceiro solicitou que as trocasse, mesmo com as próteses em boas condições. Então, um amigo o indicou ao meu consultório. Bem, a característica da cefaleia lembrava uma cefaleia trigemino-autonomica. Encaminhei então ao neurologista, para avaliação e conduta do caso, que após alguns exames diagnosticou o paciente com um tumor intracraniano. Reflitam! Este foi um caso raro mas poderia estar no seu consultório como esteve no meu.

Para terminar este “texto desabafo”, vou postar novamente a frase do Prof. Charles Greene que citei na postagem sobre Ortodontia X DTM (para ler clique aqui) com uma modificação:

E o Prof. Charles Greene encerra esta parte do texto com o trecho mais importante na sua opinião: os ortodontistas devem dizer NÃO aos dentistas e pacientes que procuram a Ortodontia como solução para os problemas relacionados a DTM e a CEFALEIA.