Bruxismo em vigília, videogames e nomofobia: o que o dentista precisa saber

Você tem perguntado aos seus pacientes se eles jogam videogame? Ou se ficam muito aflitos quando estão sem o celular? E mais importante: você já se perguntou o que isso tem a ver com o consultório odontológico? A resposta é simples: tem tudo a ver. Cada vez mais, a ciência mostra que hábitos digitais, especialmente em jovens adultos, podem influenciar diretamente comportamentos musculares orofaciais, como o bruxismo em vigília.

O bruxismo em vigília tem sido amplamente estudado nos últimos anos e hoje é compreendido como um comportamento muscular orofacial mediado pelo sistema nervoso central, e não apenas como um problema dentário ou oclusal. Alguns estudos já sugeriam que pessoas que jogam videogame com frequência poderiam apresentar maior ocorrência desse comportamento, mas ainda eram escassas as pesquisas que quantificavam essa relação de forma robusta.

Foi justamente para preencher essa lacuna que surgiu um estudo recente, orientado pela professora Elisa Camargo e desenvolvido no mestrado da professora Isabela Quadras, do qual participei desde a concepção da ideia até a publicação científica. O objetivo foi investigar a prevalência e a frequência do bruxismo em vigília em jogadores de videogame, bem como sua associação com fatores psicossociais e comportamentais, especialmente ansiedade e nomofobia.

Trata-se de um estudo transversal, realizado com questionários online, envolvendo mais de 200 praticantes de e-sports no Brasil. Os resultados chamam atenção logo de início: 89,1% dos gamers avaliados relataram algum comportamento de bruxismo em vigília. Esse número é significativamente superior ao observado na população geral, onde a prevalência costuma variar entre 10% e 40%, dependendo do país e do método de avaliação utilizado.

Outro ponto importante é que o comportamento mais frequente não foi o apertamento intenso, como muitos imaginam, mas sim o contato dentário leve e sustentado ao longo do dia, seguido do apertamento dental. Esse achado tem grande relevância clínica, pois muitos pacientes não reconhecem o contato leve entre os dentes como um comportamento prejudicial, e muitos dentistas ainda investigam apenas o apertamento mais evidente.

O principal achado do estudo foi a forte associação entre bruxismo em vigília e nomofobia. A nomofobia é definida como o medo ou desconforto intenso de ficar sem acesso ao celular, à internet ou à conexão digital. Trata-se de um marcador de dependência tecnológica, caracterizado por ansiedade, irritação e sensação de perda de controle quando o indivíduo está desconectado. No modelo estatístico do estudo, a nomofobia emergiu como o preditor independente mais forte para maior frequência de bruxismo em vigília, superando inclusive os sintomas de ansiedade avaliados pelo questionário GAD-7.

O perfil dos participantes ajuda a entender esse contexto. A amostra foi composta majoritariamente por jovens adultos do sexo masculino, com alta escolaridade, muitos com ensino superior e pós-graduação. A maioria jogava há mais de 12 meses, com uma rotina média de 1 a 4 horas por dia. O computador foi o dispositivo mais utilizado, seguido por consoles e smartphones. Embora o termo nomofobia esteja frequentemente associado ao celular, ele se insere em um contexto mais amplo de dependência tecnológica, que inclui computador, internet, desempenho online e medo de perda de conexão.

Do ponto de vista fisiológico, a hipótese levantada é que jogadores de e-sports estão expostos a uma alta demanda cognitiva e motora, além de estresse competitivo constante. Esse estado de alerta prolongado pode ativar o sistema nervoso central, com envolvimento de neurotransmissores como dopamina, serotonina e adrenalina, resultando em aumento da atividade muscular mastigatória. Nesse cenário, o bruxismo em vigília deve ser entendido como um comportamento muscular centralmente mediado, e não como um hábito periférico isolado.

A metodologia do estudo foi cuidadosa e utilizou instrumentos validados internacionalmente, como o Oral Behaviours Checklist para avaliar a presença e a frequência do bruxismo em vigília, o GAD-7 para sintomas de ansiedade e um questionário de nomofobia validado para o português brasileiro. A análise estatística incluiu modelos univariados e multivariados de regressão, permitindo identificar quais fatores realmente se mantinham associados ao bruxismo em vigília após os ajustes necessários.

Do ponto de vista clínico, um dos aprendizados mais importantes é a forma como perguntamos aos pacientes sobre seus hábitos. Perguntar apenas se o paciente “aperta os dentes” pode não ser suficiente. É fundamental investigar se os dentes ficam encostados durante o dia, mesmo sem força, pois esse foi o comportamento mais prevalente e mais frequente na amostra estudada. O bracing mandibular e o apertamento também estiveram presentes, mas o contato dentário leve foi o grande destaque.

Em relação à ansiedade, ela esteve presente e mostrou forte correlação com a nomofobia, mas não se manteve como preditor independente do bruxismo em vigília no modelo final. Ainda assim, a ansiedade se associou de forma mais direta ao apertamento dental quando os comportamentos foram analisados separadamente. Isso reforça que a ansiedade continua sendo relevante, mas, nesse grupo específico, a dependência tecnológica teve um peso ainda maior.

Outros fatores de estilo de vida também foram observados. A qualidade do sono apresentou tendência de associação com maior frequência de bruxismo em vigília, o consumo de álcool aumentou a chance de contato dentário leve e o tabagismo apareceu associado a menor chance de ranger os dentes, um achado que deve ser interpretado com cautela. Homens apresentaram maior chance de relatar ranger os dentes, o que também reflete o perfil da amostra.

Na prática clínica, esses achados reforçam a necessidade de atualizar a anamnese odontológica. Especialmente em jovens adultos, vale investigar quantas horas por dia o paciente joga videogame, quais dispositivos utiliza, se usa múltiplas telas e como se sente quando fica sem acesso à internet ou ao celular. Além disso, é fundamental educar o paciente sobre o impacto do contato dentário leve e sustentado, e não apenas do apertamento intenso.

Por fim, quando sintomas de ansiedade ou dependência tecnológica são intensos, o encaminhamento para um profissional de saúde mental deve ser considerado. O dentista precisa olhar para além dos dentes e da oclusão, incluindo na avaliação clínica os hábitos digitais e o estilo de vida do paciente. A ciência atual mostra que esses fatores psicocomportamentais, especialmente a nomofobia, desempenham papel central na modulação do bruxismo em vigília, e ignorá-los significa perder uma parte importante do cuidado integral em dor orofacial e DTM.

Este conteúdo é baseado no estudo “Prevalence of Awake Bruxism and Psychosocial and Behavioural Factors in Esports Players: A Cross-Sectional Study”, conduzido por Isabella Christina Costa Quadras, Juliana Stuginski-Barbosa, Sérgio Aparecido Ignácio, João Armando Brancher, Patrícia Kern Di Scala Andreis, Jaqueline da Silva Nascimento, Orlando Motohiro Tanaka, Roberto Ramos Garanhani e Elisa Souza Camargo, publicado no Journal of Oral Rehabilitation em 2026. http://doi.org/10.1111/joor.70163

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels.

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