O uso do ácido hialurônico no tratamento da DTM

Semana passada foi noticiado no site da Sociedade Brasileira de DTM e Dor Orofacial (SBDOF) que uma comissão interna elaborou um parecer sobre o uso do ácido hialurônico no tratamento da DTM articular. Este parecer contou com revisão da literatura atual para ter evidências suficientes que apoiasse o uso. A conclusão do parecer foi:

“conclui-se que a viscosuplementação da Articulação Temporomandibular (ATM) com o Hialuronato de Sódio apresenta evidência com força e grau de recomendação suficiente para declarar sua segurança no tratamento de diversas condições que afetam as ATMs, desde  que administrado por profissionais capacitados para um correto diagnóstico e para os procedimentos operatórios que envolvem o uso dessa técnica.”

 

O documento foi entregue ao presidente do Conselho Federal de Odontologia (CFO) e será analisado.

Para ver a notícia na íntegra, clique aqui.

Neste meio tempo também recebi por email um artigo sobre a viscossuplementação escrito pelos colegas Daniel Bonotto, Eduardo Machado, Rafael e Paulo Cunali e publicado na Revista Dor. Neste artigo a técnica foi utilizada em pacientes com deslocamento de disco sem redução e/ou osteoartrite. Segue resumo:

Viscossuplementação como tratamento das alterações internas da articulação temporomandibular: estudo retrospectivo

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS:

As formas de tratamento consideradas não invasivas para as alterações internas das articulações temporomandibulares descritas na literatura são muitas, incluindo aconselhamento, farmacoterapia, fisioterapia e dispositivos interoclusais. No entanto, alguns pacientes tornamse refratários aos tratamentos conservadores, sendo indicados procedimentos como artrocentese, artroscopia e cirurgias das articulações temporomandibulares. A viscossuplementação é uma abordagem pouco invasiva, de baixo custo e com bons resultados em curto e médio prazo. O objetivo deste estudo foi discutir a viscossuplementação no tratamento das alterações internas da articulação temporomandibular com os resultados depois de quatro meses de acompanhamento.

MÉTODOS:

Cinquenta e cinco pacientes com deslocamento de disco com redução, deslocamento de disco sem redução e osteoartrite refratários a tratamentos conservadores foram submetidos a infiltração com hialuronato de sódio. Foi observada melhora estatisticamente significativa para dor nos três grupos.

RESULTADOS:

Pacientes com deslocamento de disco sem redução e osteoartrite apresentaram aumento significativo da abertura bucal. Estes resultados se mantiveram constantes ao longo dos quatro meses de acompanhamento.

CONCLUSÃO:

A viscossuplementação com hialuronato de sódio pode ser considerada uma boa alternativa no reestabelecimento funcional da articulação temporomandibular em curto prazo em pacientes com alterações internas refratárias a tratamentos conservadores.

Palavras-Chave: Ácido hialurônico; Articulação temporomandibular; Tratamento

Para ler o artigo na íntegra e baixar sua versão em PDF, clique aqui!

Valeu Cunali pelo envio! :)

4 anos!

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4 anos, 233.170 visualizações, 1387 comentários, 3589 curtidas na página do Facebook, 1604 seguidores no Twitter depois aqui estou eu para agradecer a vocês leitores assíduos ou eventuais, colegas de profissão, profissionais da saúde e pacientes.

Não contabilizei o número de emails que já recebi através desta página mas são centenas.

O trabalho não é fácil, às vezes (muitas vezes) reclamo da falta de tempo, mas na medida do possível faço a minha parte para divulgar a Dor Orofacial em todas suas vertentes.

Aproveite e relembre os posts mais lidos de todos os tempos no blog (Top 10!):

1. Ardência bucal… Afinal o que pode ser?

2. Manobras para (des)travamento – parte 1

3. Trismo, quando a boca não consegue abrir.

4. Disfunção temporomandibular

5. Neuralgia do trigêmeo

6. Barodontalgia: dor em dente por diferença em pressão atmosférica.

7. Manobra para (des)travamento – parte 2

8. Arterite temporal

9. Bruxismo infantil

10. Controle do bruxismo infantil

 

4 x obrigada! :)

Trismo, quando a boca não consegue abrir.

Interessante quando um sinal pode ter vários problemas envolvidos. Assim é com o trismo. A Academia Americana de Dor Orofacial define trismo como mioespasmo dos músculos da mastigação que causa especificamente abertura bucal limitada. Trismo entre tantas coisas, é um dos sintomas iniciais do tétano, doença infelizmente comum ainda no Brasil.

Mas, ainda bem, esta não é a causa mais comum de trismo e sim aquele pós cirurgias orais, de face e traumas, e daí seu nome trismo traumático, extremamente comum após exodontia de terceiros molares.

O trismo pode ser ainda decorrente de um processo infeccioso do próprio músculo (incomuns, ufa!), induzidos por fármacos, por radioterapia ou até psicogênico, desencadeado por uma situação de estresse emocional.

Mas toda esta introdução é para entrar no assunto trismo por infecções odontogênicas ou em orofaringe. E por que isso? Atendi dois casos de trismo cuja histórias chamaram a minha atenção.

No primeiro caso, quando a paciente me procurou  (o trismo se instalou depois)  havia apenas dor na face. A dor era pré auricular, havia iniciado há 2 dias, moderada, pulsátil, não piorava à função mandibular mas sentia um leve aumento na intensidade ao deglutir. Não relatou melhora ou sintomas relacionados. Entretanto, após anamnese e exame da paciente, não conseguia encaixá-la em nenhum dos diagnósticos comuns a disfunção temporomandibular (DTM) ou odontogênicos. Não conseguia sequer reproduzir a sua queixa de dor. Em RX panorâmico nada digno de nota.

Adepta da frase se não há diagnóstico, não inicie o tratamento, prescrevi medidas paliativas e orientei a paciente que procurasse ajuda médica, o que ela fez no mesmo dia, o que a confundiu ainda mais.

Para resumir o caso, a paciente foi orientada a sim fazer um tratamento para DTM, o que fez por cerca de 2 semanas,  piorou muito, voltou ao meu consultório com trismo e já um diagnóstico de pneumonia.  Entramos em contato com os médicos, fez tomografia de cabeça e pescoço e o diagnóstico foi um abcesso na região faríngea que enquanto não drenado e tratado, não levou a melhora do trismo. Devo lembrar que quando ela me procurou não havia o trismo. Não havia ainda febre ou inchaço da parótida que apareceram depois, no decorrer de sua piora clínica, que não acompanhei. Abaixo a imagem:

Acredito muito que devemos ter cautela e realizar sempre o diagnóstico diferencial. Acho que é o professor Pedro Moreira, da neurologia da Universidade Federal Fluminense que disse a frase “Trate de forma típica aquilo que lhe é típico” , frase esta extremamente válida para estas ocasiões.

Esta semana apareceu o segundo caso, com os mesmos sintomas, mas já com dor na garganta, gânglios infartados, um inchaço em região de parótida e, claro o tema desta postagem, trismo. Abria 25 mm. Tomografia de cabeça e pescoço, exame com o médico, e o mesmo diagnóstico.

Nem sempre o edema ou a dor de garganta serão os primeiros sintomas e sim o trismo e dor, que foram os motivos pelo qual a primeira retornou e a segunda veio se consultar.

No trismo remover a causa é essencial. Depois medidas físicas; como calor, mobilização da mandíbula, exercícios; devem ser realizadas para que a abertura bucal possa ser restabelecida.

Para ler mais sobre abcessos cervicais: http://www.otorrinousp.org.br/imageBank/seminarios/seminario_30.pdf

É isso! :)

Mais sobre ácido hialurônico

Vocês se lembram da resolução do Conselho Federal de Odontologia proibindo o uso do ácido hialurônico na Odontologia? Pois bem, em outubro do ano passado relatei aqui no blog que o Prof. Dr. Marcelo Mascarenhas, coordenador do Comitê Brasileiro de Dor Orofacial da Sociedade Brasileira de Estudo da Dor (SBED) relatou que esteve  em uma reunião com o presidente do CFO e sua diretoria e mostrou sua indignação com a proibição do uso do ácido hialurônico e defendeu o uso da substância na viscossuplementação da articulação temporomandibular (ATM). Na época ele entregou ainda uma compilação de  22 artigos publicados na literatura (estudos clínicos e revisões sistemáticas). Para ler mais sobre isso, clique aqui.

Pois bem, a boa informação que chega é que o colega Eduardo Januzzi, juntamente com Paulo Afonso Cunali, Frederico Mota Gonçalves Leite, João Bosco de Lima Gomes , Daniel Bonotto e Ricardo Tanus Valle encaminharam ao CFO um pedido de reconsideração da proibição do uso do Ácido Hialurônico (parecer CFO 112/2011) em nossa especailidade, encaminhando farta documentação em apoio a sua utilização em DTM articulares.

Após encaminhamento, o CFO emitiu – em uma reunião plenária no último dia 11 de maio passado – parecer favorável (parecer CFO 533/2012).

É mais um passo! Parabéns aos colegas pela contribuição para com a especialidade!

E obrigada ao José Luiz Peixoto Filho por repassar o texto acima.

 

Sinais e sintomas de artrite em ATM

Estava folheando o excelente livro TMDs – An evidence approach to diagnosis and treatment, editado pelos professores Daniel Laskin, Charles Greene e William Hylander, e me deparei com uma tabela interessante sobre o diagnóstico diferencial para artrites adaptada para a articulação temporomandibular (ATM).

Esta tabela foi adaptada de um livro de reumatologia de autoria de McCarthy (Arthritis and allied conditions: a textbook of rheumatology).

Os autores relacionaram os sinais e sintomas úteis no diagnóstico diferencial das artrites em três condições: degenerativa, inflamatória e psicogênica.

Segue abaixo para vocês a tabela (clique para aumentar) com tradução livre feita por mim!

 Sinais e sintomas úteis no diagnóstico diferencial das artrites

Reunião com CFO sobre ácido hialurônico

Acho que a maioria dos dentistas já estão sabendo da resolução do Conselho Federal de Odontologia com relação ao uso do ácido hialurônico em procedimentos odontológicos:

Resolução do CFO proíbe o uso da toxina botulínica para fins estéticos na Odontologia

O Conselho Federal de Odontologia publica a Resolução CFO 112 / 2011, que dispõe  sobre o uso do ácido hialurônico e da toxina botulínica em procedimentos odontológicos. 

Pela Resolução, fica proibido o uso do ácido hialurônico na Odontologia. A norma também restringe o uso da toxina botulínica por cirurgiões – dentistas, estando proibido o uso dessa substância para fins estéticos e permitido o seu emprego para fins exclusivamente terapêuticos.

Para ter acesso à integra da Resolução CFO 112 / 2011, clique aqui.

Pois bem, pelo enunciado acima, retirado do site do CFO, entende-se que o ácido hialurônico está proibido mas libera a toxina botulínica para fins terapêuticos. Engraçado isso… Quem consulta a literatura sabe que existem muito mais estudos clínicos envolvendo o uso do ácido hialurônico do que a toxina botulínica.

O Prof. Dr. Marcelo Mascarenhas, coordenador do Comitê Brasileiro de Dor Orofacial da Sociedade Brasileira de Estudo da Dor (SBED) relatou que esteve ontem em uma reunião com o presidente do CFO e sua diretoria e mostrou sua indignação com a proibição do uso do ácido hialurônico e defendeu o uso da substância na viscossuplementação da articulação temporomandibular (ATM) o que, segundo ele, era desconhecido pela maioria dos membros ali presentes. Ele entregou ainda uma compilação de  22 artigos publicados na literatura (estudos clínicos e revisões sistemáticas) como colaboração ao CFO e solicitou alteração ou anulação da resolução acima citada.

A quem possa interessar, colocarei abaixo 18 estudos classificados como estudos clínicos randomizados e revisões metanálises sobre o uso do ácido hialurônico na ATM.

Obrigada pela informação Marcelo!!!

Abraços a todos

Continue lendo

Manobra para (des)travamento – parte 2

Já falei sobre as manobras utilizadas quando ocorre um deslocamento do disco sem redução agudo em ATM aqui. Chegou a vez de falar sobre a famosa manobra para luxação da ATM.

Mas vamos primeiro definir o problema. Mais uma vez utilizado o Guia da Academia Americana de Dor Orofacial:

Deslocamento da ATM

Critérios de diagnóstico – todos os critérios a seguir devem estar presentes:

  1. Incapacidade para fechar a boca sem uma manobra de manipulação específica.
  2. Evidências radiográficas revelam que a cabeça da mandíbuila está bem à frente do tubérculo articular

O seguinte aspecto pode acompanhar os itens acima:

  • Dor no momento do deslocamento com leve dor residual após o episódio.

Diagnóstico diferencial: fratura.

Bem, uma coisa é certa, não sei se este critério de diagnóstico é seguido no consultório. Imagine você que em sua frente está um paciente desesperado que não consegue fechar a boca e então você diz: “Ok, vá ao centro de radiologia fazer uma radiografia de sua ATM antes de eu tentar manobrá-la para ter certeza do diagnóstico”.  Claro que esta condição deve ser distinta de uma fratura, mas aí haverá o fator trauma para auxiliar no diagnóstico.

Embora que tenham pessoas que riem desta situação…

Enfim, vamos ao que interessa!

Ao contrário das manobras que falei na parte 1, a manobra para deslocamento agudo da ATM é bem conhecida. Normalmente a redução pode ser realizada sem uso de anestésico pela manipulação da mandíbula. Mas em casos de dor ou tensão muscular mais evidente (o que ocorre após algumas horas), pode-se considerar o bloqueio anestésico da ATM. É importante orientar o paciente para que ele não tente fechar a boca. Quanto mais o paciente força o fechamento, mais contração é realizada pelo músculo pterigoideo lateral, mais difícil a manipulação. Alguns profissionais sugerem o uso de um benzodiazepínico para relaxamento da musculatura e facilitar a manobra. Em alguns casos até mesmo anestesia geral pode ser utilizada. No vídeo que coloquei logo abaixo, o paciente está em um hospital americano e o anestesista usa o propofol (sim, o mesmo que matou Michael Jackson, mas desta vez na dosagem certa… :-) ) para promover o relaxamento e trazer conforto ao paciente.

A manobra é realizada com as duas mãos. Não se pode esquecer da proteção dos dedos do operador. Muitas vezes, a ATM retorna de forma rápida e brusca, promovendo um fechamento de boca tão rápido quanto, o que pode gerar uma bela mordida nos dedos. Há um certo tempo atrás vi que um protetor para dedos de silicone (para serem utilizados nesta condição) havia sido patenteado por uma empresa americana. Fiz uma busca rápida no google, mas não encontrei. Alguém já viu?

Encontrei várias descrições desta manobra (quase sempre a mesma). Assim, para ter uma referência, vou colocar como está descrito no livro do Prof. Okeson:

Quando está se tentando reduzir o deslocamento, o paciente deve tentar abrir mais como se estivesse bocejando. Isso ativa os músculos depressores mandibulares e inibe os elevadores. Ao mesmo tempo, aplica-se pressão no mentopara se tentar reduzir o deslocamento espontâneo.

Se isso não obtiver sucesso, o clínico deve envolver bem seus polegares com uma gaze e posicioná-los nos molares mandibulares exercendo pressão para baixo enquanto o paciente boceja.

Ao mesmo tempo em que se exerce pressão para baixo, pode-se com os demais dedos, elevar o queixo do paciente, o que força a mandíbula para trás. É interessante observar que, como lembra o Prof. Okeson,  da mesma forma que a anestesia da ATM pode ser realizada, também pode-se infiltrar o músculo pterigoideo lateral, uma vez que este pode estar em espasmo e impedir a manobra.

Uma bandagem para contenção provisória da mandíbula pode ser realizada.

Os pacientes que deslocam frequentemente a mandíbula muitas vezes aprendem a realizar alguma manobra e reduzir o travamento aberto.

O que escrevi é relacionado a casos agudos. Mas talvez a maneira mais eficiente de tratar esta condição, quando crônica e frequente, é a própria prevenção, com o ensino dos limites aos pacientes, de exercícios e de técnica de redução. Bem, mas isso é tema para um próximo episódio!!

Segue um vídeo onde se realizada a manobra.

 

Manobras para (des)travamento – parte 1

Há alguns dias atendi uma paciente no consultório com travamento fechado da boca. A paciente não consegue abrir mais do que 25 mm, com final rígido. Ouvindo sua história sobre os episódios de travamento que havia sofrido, me veio a mente escrever aqui sobre as manobras de manipulação que podem ser realizadas para destravar uma ATM.

Escrever na verdade sobre as manobras realizadas para travamentos agudos da ATM. Não que tenha sido o caso desta paciente, já que está há quase um mês e meio assim, e o caso pode ser considerado crônico.

Mas por que escrever sobre isso?

Bem, porque acho que este tema deveria ser difundido entre todos os cirurgiões dentistas e não só entre os especialistas em DTM e Dor Orofacial.

Aliás, acho que dentro de cursos de atualização e especialização são raros os momentos em que nos deparamos com casos de travamento agudo em que possamos aprender ou demonstrar estas manobras. Isso porque normalmente as clínicas são de atendimento terciário o que gera um maior número de casos crônicos.

Quando estes casos ocorrem, os pacientes geralmente ou procuram os atendimentos de plantão ou os cirurgiões dentistas com os quais estão habituados inicialmente e estes encaminham a nós especialistas.

Eu sei que prometi trazer sempre novidades sobre dor orofacial mas fazer um post talvez com colocações mais antigas dentro desta especialidade vale pelo caráter informativo!

Eu quero abordar os travamentos que ocorrem por problemas mecânicos da ATM. Assim, desculpe mas não falarei de problemas musculares que possam gerar caso semelhante ou ainda problemas sistêmicos, traumas, má formações, tumores, etc, da ATM. Vou abordar duas condições clínicas: deslocamento de disco sem redução – DDSR (que pode gerar um travamento fechado da ATM) e o deslocamento da ATM, também conhecido como travamento aberto (ou queixo caído, como queiram!).

Como se abordasse as duas condições o texto iria ficar enorme (assim como está esta introdução) resolvi dividir em 2 partes, e vou escrever a parte 1 sobre as manobras de manipulação utilizadas em casos de DDSR.

Então, para esta árdua missão, como não tenho tempo no momento para fazer uma vasta busca na literatura mundial,corri até a prateleira aqui do quartoe peguei todos os livros de DTM que estavam aqui.

Do guia da Academia Americana de Dor Orofacial retirei a definição do problema que irei abordar. Abaixo:

Deslocamento do Disco sem Redução

Todos os critérios devem estar presentes:

  1. Limitação de abertura bucal persistente e marcada (< ou = a 35 mm) com história de rápido estabelecimento.
  2. Deflexão para o lado afetado durante a abertura de boca.
  3. Lateralidade marcamente limitada para o lado contralateral (no caso de distúrbio unilateral).
  4. Imagens dos tecidos moles revelam o disco deslocado e sem redução (embora, em essência, o diagnóstico de disco deva ser confirmado com imagens dos tecidos moles, a natureza do distúrbio não requer exames de tecidos moles como rotina.

Qualquer item abaixo pode acompanhar os critérios precedentes:

  • Dor precipitada pela abertura forçada da boca.
  • História de clique que cessa ao haver travamento.
  • Dor à palpação na articulação afetada.
  • Hiperoclusão ipsilateral
  • Nos exames de imagem dos tecidos duros, ausência ou sinais leves de alterações osteoartríticas.

Delimitado o tema, vamos às manobras! Apenas uma observação: neste casos não dá tempo de solicitar exames de imagem para depois fazer a manobra na tentativa de destravar a ATM.

Dos livros texto que consultei, todos indicam a manobra nos casos de deslocamento agudo do disco em primeira escolha, mas fazem uma ressalva sobre a duração em dias em que aconteceu o travamento. Relatam que quanto mais recente, melhor para o sucesso da manipulação.

Bem, mas dentre os livros da minha prateleira, apenas em três encontrei descrições de manobras: no livro do Okeson, no Dores Bucofaciais de Bell e no livro  do Carlsson, Magnusson e Guimarães.

Segundo Okeson, a primeira tentativa para reduzir o disco deveria começar pedindo ao paciente que movimente o máximo que puder a mandíbula para o lado contralateral do deslocamento e a partir daí abrir a boca ao máximo. Tentar várias vezes e só então partir para a manobra com auxílio profissional.

Em geral a manobra descrita pelos autores é bem parecida. Segue a que está no livro do Okeson:

O dedo polegar direito do clínico é colocado intraoralmente sobre o segundo molar esquerdo do paciente, e a mandíbula é segurada. Com a mão esquerda do clínico estabilizando o crânio do paciente, uma força gentil mas firme é aplicada para baixo no molar e para cima no queixo para destravar a articulação. Uma vez que a articulação é liberada, a mandíbula é trazida para frente e para a direita, permitindo ao côndilo se mover para a área do disco deslocado. Quando esta posição é alcançada, uma força constante de distração é aplicada por 20 a 30 segundos enquanto o paciente relaxa. Após a distração o polegar do clínico é removido e pede-se ao paciente para fechar a boca topo-a-topo (mantendo a mandíbula ligeiramente anterior). Quando o paciente estiver descansado, pede-se para ele abrir a boca ao máximo. Se o disco foi reduzido, um movimento de abertura normal é alcançado.

Não achei nenhuma figura interessante para ilustrar a manobra, uma pena. Também não tenho nenhuma foto de meus pacientes e por direitos autorais, não devo disponibilizar a figura do livro aqui. Alguém tem alguma?

Claro que neste caso acima a ATM travada era a esquerda. Inverta caso seja a direita. Em presença de dor pode ser necessário anestesiar a ATM ou mesmo tentar anestesiar o músculo pterigoideo lateral.Caso tenha sucesso na manobra, é importante mantê-la. Já vi um caso que depois de destravar, o paciente foi engolir e travou de novo. Para mantê-la os autores divergem, mas acho que em primeiro momento o front plateau é o que dá para ser feito, a não ser que em consultório tenha uma plastificadora, mas mesmo assim, o paciente teria que esperar muito, o que poderia travar a mandíbula novamente. Depois uns autores citam a placa reposicionadora, outros estabilizadoras mesmo, etc. O livro do Carlsson, Magnusson e Guimarães não cita o uso do dispositivo e sim a manutenção com exercício realizado em protusiva, o que acho também muito útil.

Então é isso. Descrevi. Afinal, não são todos que tem acesso aos livros, não é mesmo? E nem Santo Google ajuda muito nestes casos.

Me lembrei inclusive do artigo de relato de caso em que li isso pela primeira vez. Um artigo de Farrar de 1983 que tenho em papel, mas não vou entrar no buraco negro de meu armário agora para procurar. Quem sabe depois o fotografo e disponibilizo por aqui! Eu acho esta técnica de Manobra de Farrar.

Quando der, escrevo a parte 2, ou seja, as manobras para travamento aberto. Estas são mais conhecidas, então deixei para outro dia!

E para terminar, uma frase que achei aqui no livro do Prof. José Tesseroli de Siqueira que acho totalmente pertinente.

Quando há indicações de tratamento articular, em casos de desarranjos internos, o cirurgião-dentista deve ser realista e entender que a doença pode ter produzido seqüelas importantes na ATM e a questão “recaptura do disco” nem sempre é relevante. Relevante é a melhora na qualidade de vida do doente com doença crônica da ATM e o cuidado para evitar procedimentos que buscam uma articulação saudável e sem seqüelas,mas que acabam sendo iatrogênicos.

Abraços a todos!

P.S.: Perdi meu livro da Annika Insberg. Se alguém estiver com ele entre em contato! ;-)

Atualizando: como lembra o colega Aprigio Zangerolami nos comentários, esta técnica não garante claro a estabilização da redução. Mas como relatei, acho uma alternativa válida para casos agudos.

Quando encaminhar o paciente ao especialista?

Quando o cirurgião dentista deve encaminhar o seu paciente ao especialista em DTM e Dor Orofacial?

Esta é uma pergunta recorrente em algumas conversas que tenho com colegas por aí.

Eu tenho uma opinião pessoal sobre este assunto: quando você não consegue identificar a condição clínica do paciente (nunca inicie um tratamento sem diagnósticovou lançar esta campanha no blog em breve!) ou não se sente apto para iniciar este tratamento. Eu, por exemplo, NUNCA extrai um terceiro molar. Sempre encaminhei o paciente a quem faz isso.  Eu faço profilaxia, mas não me arrisco a fazer um tratamento periodontal….

Veja bem, isso vale para qualquer especialidade, e não só para DTM e Dor Orofacial. O fato de se você ser especialista em um assunto já prediz que pelo menos você dedicou uma boa parte do seu tempo ao estudo das condições clínicas que acercam esta especialidade. Acho que é um tanto quanto óbvio, não?

Além disso a Odontologia, assim como outras áreas das ditas Ciências da Saúde, abrangem condições diversas e múltiplas. É difícil achar um profissional completo em todas as áreas.

Mesmo assim, o clínico geral tem papel importante no atendimento a estes pacientes e deve ter conhecimento no mínimo básico de dor orofacial. Para mim o curso de especialização abriu novas oportunidades, como por exemplo, um conhecimento maior em diagnóstico e tratamento da DTM e também de outras dores orofaciais. Me trouxe segurança…

A “noção” que o clínico geral deve ter  inicia-se no curso da graduação. E esta “noção” varia também de escola para escola. No Orkut há uma discussão sobre o que deveria ser ensinado nas faculdades de DTM. Eu gostaria que absolutamente tudo fosse ensinado, de que a grade fosse maior, de que fosse maior do que a grade da dentística (rs… tá bom, tô exagerando).

Mas sabemos que a realidade não é essa. Até para referenciar um paciente o cirurgião dentista deve ter uma ideia do que significam os sinais e sintomas apresentados pelo paciente. Por isso a necessidade de divulgação desta especialidade e de que existem pessoas que estudam e se dedicam em tempo integral a isso…

Só para relembrar, no Brasil, em 2002, o Conselho Federal de Odontologia (CFO) reconheceu a especialidade Disfunção Têmporo-Mandibular e Dor Orofacial. Segundo o CFO, as áreas de competência desta especialidade incluem: diagnóstico e prognóstico das dores orofaciais complexas, incluindo as DTMs, particularmente aquelas de natureza crônica; inter-relacionamento e participação na equipe multidisciplinar de dor em instituições de saúde, de ensino e de pesquisas; realização de  estudos  epidemiológicos  e  de  fisiopatologia  das DTMs  e  demais  dores  que  se manifestem na região orofacial; e o  tratamento das dores orofaciais e DTMs, através de procedimentos de competência odontológica.

Será que este foi um post muito confuso? O que vocês pensam sobre este assunto?

O tema deste post foi sugerido pelo twitter por Ricardo F. Paula, especialista em DTM e Dor Orofacial. Para segui-lo: http://www.twitter.com/oralview

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