Disfunção temporomandibular

Enfim, resolvi escrever sobre o tema com o qual trabalho a mais tempo dentro da especialidade de Dor Orofacial, a Disfunção Temporomandibular (DTM).

Frequentemente escuto e leio profissionais denominando as DTM por Disfunções da Articulação Temporomandibular (ATM) puramente. Entretanto, o termo DTM vai além das patologias envolvendo apenas a ATM. Várias definições surgiram ao longo do tempo para este mesmo problema. Cada autor de livro, cada professor universitário, cada profissional podem utilizar uma definição diferente para o mesmo problema. Assim, por bom senso, acho prudente utilizar sempre a definição referendada pela Associação Americana de Dor Orofacial (AAOP) que instituiu em suas diretrizes a seguinte definição:

Disfunção Temporomandibular (DTM) é um termo coletivo que envolve um número de problemas clínicos que envolvem a ATM e/ou músculos mastigatórios e estruturas associadas.

Então, DTM não é só um problema da ATM e sim algo a mais. Vou além, as DTM mais comuns são as musculares, onde na grande maioria das vezes não há envolvimento articular. É importante conhecer esta definição e a epidemiologia que envolve a DTM. A partir desta definição, então, pode-se classificar as DTM.

Já ouvi por aí que definir e classificar a DTM não é importante. Eu não concordo. E por que é importante então utilizar uma classificação?

Sobretudo para facilitar o diagnóstico e tratamento! Um tratamento para uma condição articular X talvez não seja o mesmo para Y. E se você buscar a melhor evidência para tratamento desta condição, terá que se deparar com estudos que tenham amostras de pacientes com características semelhantes ao paciente que está ali sentando na sua cadeira.

Com relação às classificações, surge um problema. Ainda não há uma classificação universalmente utilizada na clínica. E mais uma vez, cada autor, cada grupo de pesquisa parece utilizar a sua. Existe portanto, muitas vezes, falhas na comunicação entre profissionais. Não é tão difícil isso acontecer. Uma vez eu falava sobre o tratamento para um problema muscular X e um dos alunos não concordou, mas depois verificamos que não estávamos falando a mesma língua!! Ele pensava em uma classificação, eu em outra. Falha minha que devia ter começado já explicando sobre o que estava falando.

Sempre cito o exemplo da cefaleia. Os neurologistas cefaliatras se reuniram e propuseram uma classificação internacional que abrangessem o maior número de condições clínicas que cursam com cefaleia possíveis, que são reconhecidas por evidências científicas. De tempos em tempos é proposta uma renovação desta classificação. Ainda, artigos publicados em periódicos referendados podem modificar esta classificação. Esta classificação é utilizada tanto na pesquisa como na prática clínica.

Infelizmente isso ainda não acontece na DTM. Existem os grupos que utilizam suas próprias classificações, os profissionais, na prática clínica, que utilizam a classificação da AAOP ou a modificada de Bell, largamente difundida pelo prof. Jeffrey Okeson. São classificações bem abrangentes, com critérios de diagnóstico e sugestões de tratamento.

Já na pesquisa, pela aceitação dos periódicos internacionais, hoje para se publicar um trabalho que envolva pacientes com DTM, estes devem ser classificados de acordo com o Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (RDC/TMD). Esta ferramenta facilita a comunicação e o entendimento, uma vez que a amostra de pacientes preenchem os mesmos critérios, ou seja, abre a possibilidade da comparação entre os resultados de tratamentos, por exemplo, realizados em pacientes de diferentes países. No site www.rdc-tmdinternacional.org é possível encontrar a versão validada em português deste exame, bem como assistir aos vídeos sobre como realizá-lo.

Neste ano foram publicados na revista Journal Orofacial Pain uma série de artigos que propõe mudanças importantes no RDC/TMD, inclusive sugerindo que estes critérios sejam utilizados não só na pesquisa como também na clínica, retirando o research da sua denominação (ficaria DC). Imprimi os artigos e vou ler com calma, trazendo em um post (prometo) os algoritmos e as principais mudanças! Aguardem!

19 pensamentos sobre “Disfunção temporomandibular

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  2. Sem comentários Juliana!! Parabéns pela iniciativa!!!
    Nossa especialidade precisa de pessoas como vc!!!

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  13. Juliana, Parabens pelo site!!
    Sou fisioterapeuta e estou desenvolvendo um projeto em Desordens Craniocervical na Neuralgia do Trigêmeo, e se vc tiver artigos relacionados poderia me enviar, pois me ajudaria muito. Me inscrevi no seu site. Sucessos!!

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  15. Juliana sou Fonoaudióloga e estou dando meus primeiros passos nesta área. A pouco tempo passei a participar do Laboratório de DTM da UFBA (Universidade Federal da Bahia) liderado pela profa. Silvia Benevides (por sinal fã do seu trabalho e quem indicou a leitura do seu blog).
    Bom Silvia me solicitou pesquisar a classificação das DTMs proposta pela AAOP, mas estou sofrendo para encontrar. Há alguma publicação específica? Se existir onde encontro?

    Desde já agradeço a atenção.

    Parabéns pelo excelente trabalho!

    Fga. Michele Mascarenhas

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